21.2.15

Regresso

Com a provável exceção dos indígenas, que já cá estavam antes de todos sem que disso parecessem se queixar — e se digo provável é porque nada nos garante que não se queixassem antes da chegada dos demais e que só tenham passado a valorizar a terra depois de a verem perdida —, com essa provável exceção, como eu ia dizendo, a totalidade da população brasileira foi composta, em sua origem, por gente que, se pudesse, ou tivesse outra melhor opção, de modo algum teria vindo para o país, desde sempre o pior de todos os destinos, mesmo quando não o menos lucrativo. Ninguém, rigorosamente ninguém jamais veio em definitivo para o Brasil senão pelas impossibilidades ou de continuar onde estava ou de se encaminhar a outra parte mais promissora. Ninguém. Circunstância que torna demasiado compreensível que agora, quatrocentos, trezentos, cem, setenta, quarenta anos depois, tirada já a corda do pescoço familiar ou a própria barriga da miséria, seus netos desejem com entusiasmo o regresso ao paraíso do qual os avós, ou por inépcia, ou por oportunismo, ou por puro desespero, se viram privados. No fundo não se trata, portanto, de deixar o Brasil. Mas, antes, de nunca terem sequer chegado a ele, a não ser fisicamente, esse pormenor que todos sabem da mais absoluta insignificância, mesmo antes do telégrafo, do telefone, do rádio, da televisão, da internet.