15.9.16

Coadjuvantes

Nem sempre Deus pretende ensinar algo a todo aquele contra o qual se volta. A história de Jó assegura que alguns são atingidos só para que a lição seja possível a outros. Sete filhos homens e três filhas mulheres soterrados, apenas para que Jó aprendesse. Mesmo entre os sofredores a maioria é de coadjuvantes.

Apresentação

Uma apresentação de jazz é um tiroteio durante o qual nenhuma bala se perde.

27.8.16

Problema

O Livro do Gênesis é todo ele sobre o problema com o pai. O pai cobrando obediência aos filhos, no primeiro jardim da infância, e os filhos que o desobedecem pela primeira vez caindo na vida autônoma. O irmão que mata o outro irmão ao ver-se preterido pelo pai. O filho que é amaldiçoado por revelar a nudez do pai aos irmãos. O filho que deixa para trás a casa do pai para confirmar no mundo a própria descendência. O pai que abandona à morte um filho e desiste na última hora de se livrar do outro. As filhas que faltando a mãe embriagam o pai e se deitam com ele. O irmão que engana o irmão em busca da prioridade do pai, o mesmo que se faz passar pelo outro filho a fim de receber a última benção paterna. O filho preferido pelo pai que é vendido como escravo pelos irmãos. Acaba o Gênesis, e logo o Êxodo começa com o filho que é criado como adotivo pela própria família.

23.8.16

Mérito

Um grande mérito das monarquias, talvez mesmo o maior, é que os povos sempre mataram mais os próprios reis do que nós matamos nossos presidentes.

16.8.16

Desastre

Os trilhos são uma limitação da qual um trem só escapa por meio do desastre. 

12.8.16

Psicologia

Nada permanece novo por muito tempo, razão por que mesmo o conservadorismo se atualiza, pela incorporação de inovações assimiladas: o conservador é sempre mais parecido com os contemporâneos dos quais pretende se diferenciar do que com os antecessores dos quais se quer um continuador. O que os conservadores realmente conseguiram preservar de mudança, e de maneira até assustadora, é certa psicologia. De acordo com James Frazer, “qualquer novidade é capaz de suscitar o espanto e o pavor do selvagem”.

Adesão

A eficácia de um pregador (científico, político, estético, religioso) já não depende da qualidade dos sermões proferidos, e sim da maior ou menor adesão prévia dos ouvintes. Hoje em dia já nenhuma pregação converte, apenas confirma. 

*
No campo ideológico, já não há tal coisa como povos não alcançados. Nossos missionários não têm senão membros de igrejas para disputarem entre si. 

9.8.16

Menos

O excesso de opções paralisa. Daí a importância da adesão aos preconceitos de grupo, essa forma tão estúpida quanto eficaz de reduzir a angústia das escolhas por meio do estreitamento da vista. O que se ganha com descartar de antemão todo um mundo de possibilidades as mais legítimas, por uma questão de princípios arbitrários só racionalizados a posteriori, senão o conforto ilusório de se estar abrindo mão de menos?

8.8.16

Caminho

Inverter a direção é, por vezes, a única forma de não abandonar um caminho. 

Sobreviver

Canetti chama a atenção para o fato de que, segundo seus respectivos mitos, um número muito significativo de povos alega descender de sobreviventes, seja de uma guerra, seja de uma catástrofe natural, seja de uma doença. Por exemplo, segundo os judeus, a humanidade descende da família de Noé, sobrevivente de um dilúvio; segundo Virgílio, os romanos descendem de Eneias e outros sobreviventes da guerra de Troia; os kutenai — nativos do continente norte-americano —, por sua vez, têm como ancestrais os poucos sobreviventes de uma epidemia, e assim por diante. E não se furta de lembrar, mas muito a sério, que cada indivíduo é, pelo simples ato da concepção, um sobrevivente entre milhões. De modo que sobreviver é, para Canetti, o sentido fundamental da existência — a vontade de poder nietzschiana, o instinto de autopreservação dos naturalistas e sei lá mais o quê: para ele, tudo seria mais plenamente compreendido pela mera vontade de fazer-se o único a permanecer com vida sobre uma pilha de cadáveres.

Abertura

Fossemos menos vulneráveis, e talvez pudéssemos nos permitir alguma abertura a estranhos. Por outro lado, nenhuma cidade está efetivamente aberta enquanto não caem seus muros.

6.8.16

Olimpíadas

Ainda que não tivesse qualquer outra utilidade, a coisa serve ao menos para isso: reunir em um mesmo lugar a maior diversidade possível de rostos e talhes dentre os que existem espalhados pelo globo. Em meio a tanto efeito de gosto tão duvidoso, algo que indiscutivelmente admira: o cortejo dos mais variados tipos humanos, cada grupo observando uma ideia toda particular de elegância.

Ultraje

Não ser mais quem já se foi não é o bastante: segundo Whitman, é preciso ainda abandonar pelo caminho os cadáveres do antigo eu e só voltar a observá-los de longe. A quase totalidade das pessoas, porém, não só não se livra jamais desses cadáveres de si, como faz do seu ultraje a única razão de continuarem existindo.

Tecnologia

A leitura de McLuhan sugere toda uma compreensão alternativa da história das ideias. Por exemplo: do ponto de vista das novas tecnologias (que, segundo ele, são em si o próprio conteúdo), seria impossível que a invenção da palavra impressa não acarretasse algo da natureza de uma Reforma Protestante; assim como a superação dessa mesma palavra impressa como meio mais abrangente de comunicação — pelo rádio, pela televisão, pelo cinema, pelo telefone — não se daria sem acabar impondo um caráter marcadamente reacionário a parte considerável dos escritores modernos, a começar pela opção por um meio defasado.

2.8.16

Intimidade

“Um nativo — o único alfabetizado de seu grupo —, falando da sua função de leitor de cartas para os outros, disse que se sentia impelido a tapar os ouvidos, durante a leitura, para não violar a intimidade das cartas.”

Semelhança

Uma das maiores diversões que a leitura de Eliade proporciona é a de tornar possível a quem o lê a identificação no homem hipercivilizado do Ocidente e suas margens, em meio a tanta pretensão de superior racionalidade, a permanência daqueles mesmos hábitos mentais que eles só poderiam considerar supersticiosos e desprezar como primitivos. E isso porque acabo de topar com esse trecho dos Comentários Reais, crônica seiscentista da realidade nativa do Peru pré-colombiano, onde o autor descreve a postura dos índios peruanos com relação a tudo que dizia respeito à cidade de Cusco, capital do império Inca, — postura na qual fica muito reconhecível a da boa gente brasileira, bastando que se troque Cusco por uma e outra capital europeia:
Era de tal maneira sua adoração [por Cusco], que a demonstravam mesmo nas menores coisas: se dois índios de igual condição se encontravam no caminho, um deixando a cidade e o outro chegando até ela, o que a estava deixando era respeitado e acatado pelo que estava chegando como o superior o é pelo inferior, e isso apenas por ter estado na cidade, quanto mais se vivesse próximo a ela, ou mesmo se dela fosse natural. De igual modo se dava com as sementes e os legumes, ou qualquer outra coisa que levassem de Cusco a qualquer outro lugar; porque, mesmo que não se avantajasse em qualidade, só por ser daquela cidade era mais estimado que os de outras regiões e províncias.

26.7.16

Dinâmica

Uns têm virtudes e defeitos. E precisam ser colonizados por causa dos defeitos. Outros têm virtudes e defeitos. E podem colonizar por causa das virtudes.

21.7.16

Tempo

Ninguém conhece melhor a insuficiência do tempo que o desocupado. Nenhuma porção de tempo é mais insuficiente que a porção completa. É possível fazer algo de útil no parco tempo livre entre uma ocupação desnecessária e outra: impossível fazer algo de útil com todo o tempo livre. As vinte e quatro horas de um dia são tanto mais curtas quanto menor o número de compromissos ao longo delas. Quanto mais horas dedicadas aos interesses alheios, mais pronto alguém estará de aproveitar o esgotamento da folga. Em relação ao tempo, só é possível tirar proveito das migalhas: a visão de um banquete enfastia. A pessoa desocupada se torna muito sensível à mera ideia de ocupação. Pensar em ter que fazer inutiliza de modo cabal o não fazer nada. É preciso não dispor de tempo para ser possível a ilusão de que há maravilhas a serem feitas com ele. Do contrário logo se percebe que é igualmente desperdício não desperdiçá-lo. Não dedicar tempo ao que não interessa, aliás, priva de se achar o que interesse. O tempo livre clama por mais tempo livre. As vinte e quatro horas de um dia exigem a vigésima quinta hora a fim de se permitirem proveitosas.

18.7.16

Sebo

As pessoas já não frequentam estabelecimentos desse tipo, por isso cada vez mais raros. Se querem um livro, mesmo esgotado, elas o encomendam pela internet e o aguardam ser entregue pelos correios. Já não sabem o que é caminhar por entre livros desconhecedores do que terão pela frente. Chegaram finalmente a reproduzir com o livro usado a relação prática e sem mistério que estão acostumadas a ter com tudo: devolveram o livro usado ao universo impessoal do catálogo, do estoque. E isso quando, mais até do que livros, o que lugares como esse tinham a oferecer era certo tipo de experiência: a experiência da oportunidade quase única, do encontro talvez irrepetível, da convergência imponderável dos fatos.

14.7.16

Suspeita

Muito de vez em quando me inquieta a suspeita de que, se em determinada altura da vida optei por literatura, foi porque as obras literárias em geral custam menos do que as filosóficas ou teológicas, e de que se me mantive um desconhecedor quase completo de literatura contemporânea, movida a lançamentos, não foi senão porque as edições populares dos clássicos custam relativamente pouco.