10.9.17

Exigências

Por mais que nem todas sejam tão impraticáveis como as nossas, os homens nunca foram plenamente capazes de se submeter às exigências sociais, fossem elas quais fossem. A perpetuação da vida em sociedade se deu apesar de todos os pesares e só se explica pela imensidão das incertezas de uma vida isolada. Viver em sociedade é um enorme prejuízo que afinal compensa. Além do mais, para todos os efeitos, tais exigências foram sempre sagradas, e de sua observância dependia a continuidade não só do grupo, mas inclusive do cosmo. As pessoas sempre só se obrigaram a viver como viveram porque achavam que, do contrário, o mundo retornaria ao caos. A nossa impossibilidade de submissão se sacramentou no dia em que descobrimos que o céu não desabava quando essas coisas eram negligenciadas sem arrependimento nem castigo. Além disso, não era sem razão a maior capacidade dos primeiros homens de cumprir o que lhes era exigido, por vezes sem a necessidade de polícia ou tribunal: fora a sacralidade dos costumes, diz o mito que tais homens existiram antes de se começarem as viagens, portanto antes do conhecimento de outros homens em nada semelhantes a eles. E esse é mesmo o único modo razoável de se exigir obediência a uma ordem social: ela se apresentando como a única, coisa que já toda a gente sabe que não é. Pode haver algo mais desmoralizador para uma cultura do que se ver ante a possibilidade plena de se viver de maneira completamente diversa? Por maior que tenha sido o esforço irracional e desesperado pela manutenção da exclusividade das culturas umas perante as outras, era simplesmente inevitável que mais cedo ou mais tarde se impusesse o descrédito gerado pelo contato inicial. Por que haveríamos de nos sacrificar nisso e naquilo se está claro que se trata de arbitrariedades?, se temos aqui diante de nós pessoas que sempre desconheceram tais exigências e nem por isso se extinguiram?

Semelhança

De acordo com fontes cristãs medievais (consigo pensar agora em Isidoro de Sevilha), uma imagem comum ao martírio dos santos e ao suplício dos hereges: o médico cirurgião que, fazendo violência contra o corpo do paciente, só lhe proporciona o bem. Muito mais recentemente, Thomas Szasz demonstra, em A fabricação da loucura, como, na passagem para a modernidade, a Psiquiatria herda tanto a função social como todo o modus operandi da Inquisição.

20.8.17

Formas

Dentre as muitas formas que o mais fraco tem pra vencer conta-se inclusive certo tipo de derrota. Já o favorito muitas vezes não sai vitorioso nem das vitórias.

18.12.16

Vida

O compromisso cristão com a vida foi sempre algo tão sério que, na Idade Média, uma mulher grávida condenada à fogueira só podia ser queimada depois do parto.

16.12.16

Alquimia

Na base do pensamento alquímico estaria a crença de que todos os minérios não passam de etapas interrompidas no longo e demorado processo de chegarem a ser ouro; a crença de que os vários tipos de metais devem a existência ao fato de que, a determinada altura, são impedidos pela extração de alcançarem sua destinação final. O trabalho do alquimista, aliás, seria justamente o de retomar esse processo e, por outras vias que não as naturais, abreviar o arrastado tempo geológico. Impossível tomar conhecimento dessa ideia de finalidade progressiva da natureza sem pensar na forma teleológica de pensamento evolucionista que decorre do providencialismo cristão, uma das ideologias mais fundamentais do Ocidente. Trata-se do mesmo princípio, apenas descolado a outro campo: determinada forma biológica, ou cultural, ou social, ou religiosa, ou estética, ou histórica como ouro, isto é, como ápice em relação à qual todas as outras formas são resquícios de estágios a serem superados. Daí que, se isso faz sentido, toda missão civilizatória deseja reproduzir a tarefa alquímica. Assim como o alquimista ambicionava vencer a defasagem da matéria por meio da ação sobre ela, promovendo pelo próprio esforço a eliminação de um caminho progressivo demasiado extenso, o civilizado precisa fazer o mesmo com o mundo. Transmutar o ferro em ouro, o bárbaro em gente, a barbárie em civilização. Guiar os homens ao estado de perfeição aurífera do qual se encontram privados. O alquimista, “salvador fraterno da natureza”; o civilizado, salvador fraterno da humanidade.

Discursos

Segundo Lévi-Strauss, se o discurso é uma mensagem transmitida por um emissor, o sonho é uma mensagem transmitida por um receptor, e o mito, uma mensagem recebida de emissor nenhum.

Segredo

Os leitores de Jó espalhados no tempo e no espaço compõem uma espécie de maçonaria. E da mesma forma que um maçom não aperta a mão de outro maçom sem que ambos saiam do cumprimento sabendo-se confrades, é simplesmente impossível que um leitor de Jó leia as páginas de alguém que também leu Jó sem que isto lhe seja patente.

Problema

O grande problema que o século XIX viu surgir, resumido por Musset: “tudo que era deixou de ser, e tudo que será ainda não é”.

9.12.16

Caverna





















Os historiadores da arte são unânimes em afirmar o caráter mágico da arte rupestre, isto é, em afirmar que o homem paleolítico pintava com a intenção de trazer à realidade, circunstância que explicaria não só o realismo da representação — e não é bonito que algumas das primeiras e mais antigas manifestações artísticas de que se tem notícia sejam “naturalistas”, “fotográficas”? —, como a presença quase exclusiva de alvos e cenas de caça. E tudo isso ganha ainda mais sentido quando se lê, em Eliade, sobre a importância ritual das cavernas. Ora, se a Terra era (e é) compreendida como Mãe, seu interior só poderia ser tomado como ventre. Daí cavernas e grutas serem úteros, as fábricas primordiais de realidades novas.

7.12.16

Estratégica

As pessoas, hoje, se compadecem mais prontamente de animais que de outras pessoas, e, se com facilidade conseguem deixar um semelhante sem comida, já não suportam a ideia de um cãozinho sem xampu. Se não bastasse, um morador de rua cercado de cachorros causa menos indignação do que um morador de rua cercado de filhos. Os filhos acusam a irresponsabilidade, a imprevidência, a bruteza do sexo sem privacidade; enquanto a posse dos bichos, ao contrário, o humaniza, dá testemunho de um coração amoroso, piedoso, solidário. Além do mais, como as pessoas cada vez mais deixam de ter filhos e os substituem por animais de estimação, é muito natural que se identifiquem mais com as lutas de quem tem um cão do que com as lutas de um progenitor. Se eles não querem filhos com que gastar, como vão gastar com os filhos dos outros? Mas a experiência de tirar do desamparo um vira-latinha eles não só a conhecem muito bem, como a consideram a mais digna de recompensa. Ainda mais se a pessoa que o fez não tem o suficiente nem para si. “Precisamos ajudá-lo!”

4.12.16

Reconhecimento

De acordo com o etnógrafo Marco Antonio Gonçalves, para os pirahã, “as coisas não são feitas de uma só vez: passam por etapas, testes e experimentações até atingirem o que são.” Até mesmo Igagai, responsável pela organização do mundo, faz experimentos. Implícito nessa concepção de criação está o risco sempre grande de insucesso. Por isso, dão muita importância ao fazer vagarosamente (maihege) — equivalente a fazer bem-feito —, em oposição ao fazer apressadamente (aiboge) — o mesmo que fazer malfeito. Para os pirahã, eles mesmos fazem as coisas apressadamente, e por isso deixam marcas de imperfeição em tudo. Já os seres sobrenaturais trabalham com vagar, e por isso produzem coisas bem-feitas: “Igagai faz o sol devagar, Apapiuepe faz as estrelas devagar”. Para os pirahã, só existe um outro povo sobre a terra que sabe fazer as coisas tão vagarosamente quanto os seres sobrenaturais, e esse povo não é senão o povo “diaponeso”. Isso mesmo, o povo japonês. Segundo Gonçalves, os pirahã atribuem aos japoneses qualquer produto considerado bom — uma boa máquina fotográfica, um bom gravador, um bom motor de popa —, porque só os japoneses sabem fazer as coisas bem-feitas. — Mas como? Como uma tribo amazônica pôde chegar a ter os japoneses em tão alta conta? O etnógrafo esclarece: os pirahã são uma tribo bastante acostumada a lidar com antropólogos e até mesmo com missionários. Já tiveram entre eles diversos pesquisadores norte-americanos e brasileiros, e uma vez receberam a visita de uma equipe de TV japonesa. A impressão que os japoneses deixaram nos pirahã foi tamanha que, de acordo com Gonçalves, eles chegaram mesmo a criar um mito de origem a partir desse encontro — desse reconhecimento —, que se deu na década de 80. Segundo os pirahã, no princípio de tudo japoneses e pirahã formavam uma única sociedade. Em determinado momento, porém, alguns conflitos dividiram essa sociedade em dois grupos. Um dos grupos ficou onde sempre esteve, enquanto o outro saiu vagando pelo mundo, até se fixar em local muito distante. O grupo que permaneceu deu origem aos pirahã, o grupo que partiu deu origem aos japoneses. Ao longo do tempo, os japoneses foram fazendo muitos experimentos, até que aprenderam a fazer as coisas vagarosamente. E é por isso que tudo que os japoneses fazem, hoje em dia, é muito bem-feito.

Modelo

O que é o Livro de Gênesis, senão a crônica de uma família ao longo de várias gerações? E, como tal, poderia ser outro o modelo (primitivo) para o tipo de romance que tem numa família o grande personagem? Devia ser tamanha a convivência dele com o texto bíblico, que o mesmo Thomas Mann que estreia na literatura, em 1901, com Os Buddenbrook: decadência de uma família vai escrever depois, em 4 volumes publicados durante 16 anos, José e seus irmãos.

24.11.16

Memória

Passei quase toda a minha vida sem conhecer o sentido daquela que é uma de minhas memórias mais antigas, sem nem desconfiar do que poderia ter acontecido aquele dia, em que saímos de casa para uma festa e voltamos de um velório. Sei que íamos eufóricos. Pelo caminho, todas as ruas estavam decoradas e cheias de gente que gritava, acenava, soltava fogos. Chegados ao destino — uma vila, na qual uma pequena multidão de pessoas mais ou menos familiares umas às outras se confraternizavam no que só podia ser um churrasco —, fiquei todo o tempo correndo com as outras crianças, como sempre desatento ao que se passava. E tudo corria bem até que, quando dei por mim, vi na cara dos adultos que alguns haviam chorado. Notei de repente que a música também já não existia, e que as pessoas que antes só se falavam aos berros agora estavam caladas. Os poucos que ainda falavam, falavam muito baixo, e já ninguém ousava se encarar. Sei que fomos nos despedir com o abraço apertado dos pêsames. Também eu assim fazia, decorosamente, mas sem a menor ideia de por quê. As pessoas se consolavam, se diziam que tudo ia ficar bem. Na volta para casa, as mesmas ruas agora estavam desertas. Já não se via ninguém, nem cães vadios. Poucas vezes antes ou depois tive a incômoda experiência de estar no único carro que vaga silencioso pelas ruas. Sentia-se no ar que algo de muito grave tinha acontecido. Algo que eu, em todo caso — ou porque quiseram me preservar, ou porque fui incapaz de compreender —, sempre ignorei. E assim eu cresci, acompanhado pela sombra desse dia. Até que, já adulto, uns vinte e poucos anos mais tarde, assistindo desatento a um telejornal qualquer, me vejo informado sobre os efeitos da tragédia que se abateu sobre o Brasil na tarde de 24 de junho de 1990, quando, nas oitavas de final da Copa da Itália, fomos eliminados pela Argentina. Eu tinha então cinco anos.

13.11.16

Problema

O problema nem foi terem levado todo o ouro. O problema foi terem trazido os prejuízos de o não ter.

Irreversível

Regula Emblematica Sancti Benedicti, 1780.





















A ideia de honra esteve sempre muito relacionada à irreversibilidade dos meios com os quais se vivia. Uma palavra ouvida nunca pôde voltar a não ter sido pronunciada, nem um gesto testemunhado chegou alguma vez a ser desfeito; tampouco era possível ignorar a marca feita em uma pedra, ou apagar a tinta lançada sobre um material poroso. Hoje, porém, a rede permite que tudo seja editado, ou mesmo excluído. Mas, como precisamos manter as coisas como elas sempre foram, eis que fizeram o print, o histórico de alterações. Tudo precisa continuar definitivo, mesmo podendo já não ser. Aliás, não é por acaso que um dia do juízo seja a grande expectativa de religiões constituídas justamente em torno de livros — essa grande ferramenta de perpetuação das coisas humanas —, e que esse grande dia seja compreendido como o dia em que todos os atos e palavras dos homens serão lidos publicamente.

10.11.16

Opção

A qualidade do banquete muitas vezes compensa toda uma vida de migalhas. Comia-se muito melhor na escravidão do Egito do que na liberdade do deserto.

Mérito

O maior mérito do cristianismo — aquilo que o distingue para melhor de religiões em tudo o mais idênticas — é a capacidade de ostentar como vitórias do cristianismo as consequências mais irreversíveis das grandes derrotas do cristianismo. Assim, retrospectivamente, houve sempre ao menos um herói cristão a vencer batalhas contra o próprio cristianismo. E um novo verdadeiro cristianismo nunca deixou de sair vitorioso das derrotas de qualquer velho cristianismo verdadeiro.

Diferença

Como o esquerdismo sabe inconscientemente que é o Mal, seus agentes precisam se fazer passar por anjos de luz. Já na direita, dona de ideias tão indispensáveis, ninguém precisa deixar de ser o cretino mais ostensivo pra se tornar alguém digno de crédito.

9.11.16

Inutilidade

A inutilidade dos gestos alheios, diante da qual não apenas não desconfiaram da inutilidade dos próprios gestos, da inutilidade de todos os gestos, como conseguiram ainda os considerar fundamentais: então falta sentido a todos os gestos que não são os nossos... De onde a generosidade com que empenharam a vida a se fazerem imitados.

Apaziguador

O grande apaziguador de consciências terá como missão garantir que a superioridade do Ocidente resta quando menos em haver entre os ocidentais aqueles que se considerem os mais abjetos entre os homens. E que para a importância dos outros falta ainda quem a questione. E que ter inventado a culpa já redime de tê-la sempre em grande escala.