16.11.09

Em outras palavras: de perto, ninguém é virtuoso. A menos que de fato o seja.
A leitura mais urgente é sempre a do livro — ou texto — que não temos.
A impossibilidade de fazer nos consola da certeza de que não faríamos caso pudéssemos.

12.11.09

As épocas em que mais estive cheio de certezas foram também as épocas em que mais ignorei as opiniões às quais tinha por hábito reprovar com maior veemência.
Finalmente acordo. Ao lado da cama, um bilhete: «O Lilo deixou cair uma das suas moedas no ralo da pia do banheiro. Tem que tirar.» (O Lilo, vocês sabem, é um dos gatos.) Levanto-me disposto a logo atender minha mulher. O problema me parece simples. Ainda esfregando os olhos, caminho em direção ao banheiro. Sonâmbulo, aproximo-me da pia, convicto da facilidade da coisa. Para quê? Para descobrir, incrédulo, que meu ralo tem o diâmetro exato da moeda de 25 centavos que o obstrui.

10.11.09

«A convicção de que se poderia caso se quisesse é a razão da inutilidade de muitas boas mentes.»

(Lichtenberg)

Dante

Fazer menção à Comédia, ressaltando que esta só chegou a ser conhecida como Divina séculos depois de publicada.
Pelo menos esse tempo torna o lavar a louça uma atividade algo mais apetecível.
Nas semanas subseqüentes ao casamento não encontramos senão conhecidos aos quais não havíamos convidado. Coisa incrível.
Países dos quais os incomodados não se mudam não por gostarem de sofrer, mas por não poderem.

9.11.09

Pet

Escanteio pro Flamengo, na esquerda, agora é pênalti.

7.11.09

4.11.09

De mim, pode-se esperar tudo. Menos iniciativa.
Há já uns quinze minutos que meu gato anda bastante entretido com a perseguição a um arisco extrato bancário amassado.

A moda de deplorar modas

Das grandes modas de nosso tempo: a de se pretender alheio a elas.

Virtude

A virtude é uma questão de privacidade. Isto é, são virtuosas as pessoas das quais não se conhece os vícios, nas melhores das vezes circunscritos ao (cada vez menos secreto) âmbito domiciliar.
Deu-se que, estando eu no ônibus a caminho da faculdade, parado em frente a um largo por conta do sinal fechado, avistei uma criatura, um morador de rua, que, sentado em um banco, mirava obcecado, com todo o interesse, uma ferida extensa e profunda no pé direito. Sequer piscava. Apesar de carcomido, o pé não parecia incomodá-lo. Poder-se-ia dizer que andava comprazido com a visão.  Pudera: testemunhava algo digno de espanto: um pé tomado pela gangrena. Com o acréscimo de não ser um pé qualquer, mas o próprio. Pois enquanto eu ainda remoia a cena — não são muitas as vezes que temos a oportunidade de ver ao vivo um homem que por tão afeito à dor física já tem aprendido a tirar dela alguma satisfação — ouvi duas mulheres à minha frente comentando, ressentidas, o descaso das autoridades com a saúde. Com a saúde de uma árvore velha, já quase sem folhas e tomada de bichos, sob cuja sombra estreita, por acaso, estava o referido sujeito, talvez completamente despercebido por elas.

2.11.09

The entire notion of blogging in modern times is vitiated by the evidently false postulate that hundreds of millions of young men and women will have (or already have) anything new and just (or at least readable, though not so new nor so just) to say about Shakespeare or Keats or Flaubert (or anything at all).
«The entire notion of research in modern letters is vitiated by the evidently false postulate that tens of thousands of young men and women will have anything new and just to say about Shakespeare or Keats or Flaubert.»

(Steiner, Real Presences, 1989.)

28.10.09

«Son tontos todos los que lo parecen, y la mitad de los que no lo parecen.»

(Gracián)

26.10.09

Costumava dizer que sua mulher não era ruiva, mas tinha sardas. E que no fundo era melhor do que se fosse.
Conversava com uma amiga magra e alta, os pés e os dedos das mãos compridos, e dizia-lhe de um livro lido na infância ao qual sua figura esguia me fazia lembrar, o da lagartixa que queria tornar-se jacaré, submetendo-se para esse fim a uma série de modificações estéticas não condizentes com sua natureza, sendo uma delas a de ser espichada, acabando magra e alta, os pés e os dedos das mãos...

23.10.09

Como não nos é possível a leitura de todos os livros que julgamos indispensáveis à  inteligência, tratamos ao menos de mantê-los  por perto.

Ambição

Uma biblioteca plena dos livros com os quais passou a sonhar depois de vê-los citados por ***.
A capacidade de escrever em duzentas páginas os raciocínios que poderiam ser  muito bem expressos, já não sem redundâncias, em duas ou três linhas.
«La mitad del mundo se está riendo de la otra mitad, con necedad de todos.»

(Gracián)
Que mordem livros. Eis o que nunca me disseram a respeito dos gatos.

Burocracia

Em que outra circunstância alcançaria aquele funcionariozinho tamanha imprescindibilidade para o dia — a vida — de alguém?
Talvez já não seja possível chamar pernóstico a alguém sem parecê-lo.
Estar casado é não dever satisfações senão à mulher. Imensa coisa para quem há não muito tempo as devia aos pais.

22.10.09

Chego ao banco às onze e meia. Uma mulher me informa que o Daniel, a quem no dia anterior, por telefone, fui mandado procurar, andava ocupado. Estão em greve e ele é o único na agência de posse da senha que dá acesso à operação que preciso. Bastava, no entanto, que eu aguardasse. É o que faço. Meio-dia e meia. Vejo-o deixando o banco. O almoço, imagino. Contrariamente à minha índole, torno à mulher que me havia dado as informações iniciais. «O Daniel acabou de sair para o...» Sim. Comprimindo os lábios e fazendo não com a cabeça, como quem lamenta a infelicidade alheia, diz-me ela que sim, que havia acabado de sair para o almoço. Sim, repito. E agora? Não haverá ninguém mais, além dele, que me possa ajudar? A senhora tem certeza de que ele é o único que pode resolver minha vida? Não para a primeira pergunta e sim para a segunda. Mas bastava que eu aguardasse. Não demoraria. Pergunto pela hora aproximada do retorno do Daniel. Possivelmente, o Daniel retornaria quinze para as duas. Após uma indignação disfarçada, acedo. Respiro fundo, viro as costas, penso no que pode me distrair durante o intervalo de tempo. Cogito passar em um sebo próximo. Caminho até ele, o que me toma vinte minutos. O atendente, já um conhecido, sorri-me, circunda meu ombro com o braço esquerdo enquanto aperta minha mão direita. Pergunta-me se procuro por algo específico. Nada. Quero matar o tempo e ver o que acho de interessante. Que eu ficasse à vontade. Agradeço e inicio a busca. Saldo final positivo. Três livrinhos adicionados à parca biblioteca pessoal. Pago-os e me despeço. Só então, por culpa, talvez, da irritação pela qual passara há pouco e da barganha bem-sucedida de um cliente que se apresentou como professor, conseguindo a magnífica economia de dois reais, dou-me conta de que, neste sebo, não me dão descontos. É o único sebo dentre os que habitualmente freqüento que não me dá desconto, apesar de ser o que me recebe com maior simpatia. Em nenhum deles sou recebido com sorrisos e mãos estendidas, mas pago sempre menos que os clientes esporádicos. Dizem que sou da casa. Outro inconveniente deste sebo me ocorre: eles sabem quando uma edição é rara e tiram proveito disso. Um crime. Duas horas da tarde. Planejo chegar ao banco por volta das duas e trinta. Acerto na previsão. Chego às duas e vinte e sete e encontro, à porta do prédio, o Daniel ladeado por uma mulher e outro homem, os três fumando cigarro, tranqüilos. Se fosse um pouco mais homem, matava-os, penso. Mas não sou. Apenas entro. Passam por mim depois de dez minutos. Dirijo-me uma vez mais à mulher, que se adianta: «Ele já irá atender o senhor.» Noto quando Daniel chega finalmente à mesa dele. Tento disfarçar a cara de suplicante. Procuro não parecer muito irritado, a fim de não aumentar a já astronômica má-vontade, embora lute por não ter a feição subserviente de quem implora um favor. À-toa. Daniel não me olha. Parece não saber da minha espera. Não tem pressa. Começa a pôr em ordem um número considerável de envelopes. Enquanto os ordena, não olha para mim, nem para ninguém. Seus olhos ficam na mesa, não os suspende para nada. Levanta-se, encaminha-se a uma sala, e inicia conversa, já sentado, com o sujeito do outro lado da mesa. Logo a termina, passa a andar desinteressadamente pela agência, o olhar sempre vago, um ou outro aceno a algum funcionário, satisfeito. Chega, por fim, à própria mesa, senta-se, ajeita-a um pouco mais. Mexe em outro maço de envelopes, devolve-o à gaveta, preso por elástico. Só então, passado um pouco mais de tempo, decide me chamar. Alivio-me. Em cinco minutos, assunto encerrado, transferência efetuada. Olho o relógio: três da tarde. Peço desculpas pelo trabalho e o deixo.

20.10.09

Pela manhã, minha mulher acorda e encontra, sobre a mesa do escritório, a Bíblia aberta: Livro de Jó, Capítulo 3: «Jó amaldiçoa o dia do nascimento», a última leitura feita por mim na noite anterior. Levanto-me às nove,  inocente, a cama já vazia, a casa à mercê dos gatos. Sob o espelho do banheiro, um bilhete, com a pergunta: «A vida está assim tão ruim?»

19.10.09

Dois tipos de escritores: os que, tendo uma história, a contam, sem frescuras, e os que, por não a terem, fazem foco das atenções o modo peculiar com que expõem a pouca e (de outra forma) desinteressante matéria que têm em mãos.

18.10.09

Pré-requisito

Se requisito já não leva consigo a idéia de condição prévia ao que quer que seja...
«Iva and I have grown closer. Lately she has been remarkably free from the things I once disliked so greatly. She does not protest against this rooming-house life; she seems less taken up with clothes; she does not criticize my appearance or seem disturbed because my underwear is in such a state that in dressing I often put my leg through the wrong hole. And the rest: the cheap restaurant food we eat, our lack of pocket money. Yet she is as far as ever from what I once desired to make her. I am afraid she has no capacity for that. But now I am struck by the arrogance with which I set people apart into two groups: those with worth-while ideas and those without them.»

(Dangling Man, Saul Bellow, 1944.)
Minha triste figura. Por uma amiga de uma amiga.

16.10.09


15.10.09

Dizer-se «de direita» em um país «de esquerda», ou «de esquerda» em um país «de direita», quando não é apenas um meio de garantir alguma glória a um sucesso ínfimo, é ao menos um bom modo de ter justificado o malogro completo. 

13.10.09

Dois modos de dedicar-se à cultura no Brasil: apegar-se ao que nos é exclusivo, logo popular; ou macaquear o que nos é alheio, logo superior. — Um terceiro modo: dar os ares do segundo modo ao primeiro.
O apreciador da alta cultura no Brasil comporta-se, em geral, como o índio que, ante os exigentes olhares dos colonizadores, ía muito empenhado em demonstrar-se o único entre os seus capaz de andar vestido.

9.10.09

5

A mulher que escolhemos, a única e não outra
Dentre tantas que habitam a terra triste,
Esta mesma, frágil e indefesa, bela ou feia,
Eis o mundo que nos é de novo apresentado
Por intermédio de uma só pessoa.
Esta é a que rompe as grades do nosso coração,
Esta é a que possuímos mais pela ternura que pelo sexo.
E nada será restaurado no seu genuíno sentido
Se a mulher não retornar ao seu princípio:
É a máquina instalada dentro dela que deveremos vencer.
Quando esta mulher se tornar de novo submissa e doce,
Os homens pela mão da antiga mediadora
Abrirão outra vez um ao outro os corações que sangram.

(Murilo Mendes, O Rato e a Comunidade, 1947.)

A respeito da máquina a ser vencida: «4 // Desconhecido que atravessas a rua, / ?Que há de comum entre mim e ti. / A mesma solidão e a mesma roupa. / Procuras consolo, mas não podes parar. / És servo da máquina e do tempo. / Mal sabes teu nome, nem o que desejas neste mundo. / Procuras a comunidade de uma pessoa, / Mas não a encontras na massa-leviatã.»

8.10.09

Há no meu prédio uma cantora gospel — CD gravado e tudo — que, quando não está a cantar trechos das próprias músicas, está a gritar com a filha.

Realismo (2)

Enquanto lia 1984, dei comigo a pensar que nenhum de nossos escritores foi capaz de empresa semelhante. Isto é, foi capaz de criar um mundo a partir de alguma suposição do tipo: «E se vivêssemos num lugar em que...?» Foram eles, mesmo os melhores, meros retratistas. Ótimos observadores, é verdade, mas bem pouco engenhosos. Ocuparam-se, de maneira exclusiva, com a realidade, independentemente de terem sido românticos, realistas, naturalistas ou modernistas. Quero dizer: Não houve entre eles quem tenha se interessado em imaginar, por exemplo, conforme Fielding, as aventuras de uma alma em sua viagem deste mundo ao mundo dos mortos. Ou imaginar, conforme Lewis, a redenção de uma terra como a de Nárnia, criada (se bem me lembro) pela canção de um leão e dominada pelo inverno desde a queda. Ou ainda, conforme Orwell, um mundo todo ele regido  por princípios socialistas, etc.

6.10.09

Realismo

Uma leitura dos britânicos (Fielding, MacDonald, Carroll, Chesterton, Tolkien, Lewis, Orwell, etc.) nos leva facilmente à conclusão de que o realismo é, também, pobreza imaginativa.

Caulfield

Outra imagem imprópria que fazia era a de The Catcher in the Rye. Por conta do título da edição brasileira, O Apanhador no Campo de Centeio, julgava-o um livro sombrio, quase de terror. Imaginava mesmo um assassino que «apanhava» suas vítimas e as levava para um campo qualquer, afastado da cidade, e créu. Viagem completa.

Machado

Tenho para mim que quaisquer erros de estilo podem ser evitados com a leitura atenta de Machado de Assis. Sempre que meu descontentamento com o modo como escrevo torna-se maior do que o descontentamento habitual, sei que chegou a hora de tornar a lê-lo.

Novilíngua

As religiões que, em nome da tolerância religiosa, não têm seus discursos tolerados, por ofensivos.

5.10.09

Rio de Janeiro

Somos aquele tio cujos dependentes não têm plano de saúde, cujos filhos estudam em escolas públicas, cujo apartamento em que mora é alugado, cujos limites dos cartões de crédito estão todos estourados e que, não obstante, apresenta à família, a cada final de ano, um carro importado zero-quilômetro diferente.

3.10.09

Chesterton

«Chesterton não tinha o temperamento do ortodoxo. Causa surpresa que se haja tornado o campeão do conceito de ortodoxia contra o de heresia. Era isto, no entanto, uma manifestação da sua força de contradição, do seu espírito herético. Adotou a ortodoxia porque o seu tempo estava dominado pelas heresias; adotaria hoje, talvez, a heresia contra os modernos e duros conceitos de ortodoxia. Chesterton era uma figura típica de anti-moderno, no sentido da expressão de Maritain, o que representa a modernidade, a maneira pessoal de ser moderno, num espírito original e inconformista.»

(Literatura e vida literária, Alvaro Lins, 1963.)

O crítico

«Quando olha para trás, o crítico vê a sombra de um eunuco. Quem seria crítico se pudesse ser escritor? Quem se esforçaria para elaborar a mais sutil análise de Dostoievski se pudesse escrever uma frase dos Irmãos Karamazov, ou questionar a atitude de Lawrence se pudesse dar forma ao livre sopro de vida em The Rainbow? [...] Quem escolheria ser crítico literário se pudesse fazer cantar as rimas, ou compor, a partir de seu próprio ser mortal, uma ficção viva, uma personagem que perdurasse?»

(Alfabetização humanista, George Steiner, 1963, tradução de Gilda Stuart e Felipe Rajabally.)

2.10.09

Não poucos teólogos conservadores o foram até o dia em que não tiveram, numa crise qualquer, o esperado apoio dos que, domingo após domingo, se deixavam ensinar por eles.
A humanidade está dividida entre os que se ocupam em reparti-la, sagazmente, em dois grupos antitéticos de pessoas e os que, percebendo a impropriedade da coisa, partem à procura de empresas mais úteis.
Uma mescla de obviedades e nonsenses somada ao esforço universitário de fabricar, disso, sentidos mais profundos e elevados.

1.10.09

Honduras

Agora é pedir a cada sábio analista que aponte num mapa mudo onde é mesmo que fica essa tal República de Honduras.

29.9.09

Imbecilidades

Em geral têm pouco tempo para as alheias os que muito ocupados andam com as próprias.

28.9.09

Passa-se a dar uma mais grata atenção à capacidade de cicatrização do corpo depois que se adquire um gato.

27.9.09

As espetaculares mentes nacionais que (no entanto) não dão com as diferenças entre por que, porque, por quê, e porquê.


Grande, grande mesmo é esse grande zagueiro chamado André Dias.

25.9.09

Disse há uns dias que, na falta de felicidade própria, a desgraça alheia. Certo. O que não disse é que não só na falta como também na posse, no excesso.

Esqueçam

Se eu fosse dado a metáforas, diria que palavras são como gatos: não chegamos a submetê-las nem mesmo com a muita convivência. Não importa o quanto nos esforcemos, continuam a vir a nós apenas quando bem querem e nos deixam a cabeça — o colo — quando menos esperamos. Ou algo parecido a isso. Mas não sou. Sentir-me-ia ridículo só de a redigir e ainda mais parvo só de cogitar em a publicar. Esqueçam.

A tia

Por que tão capaz, se tão desagradável? Brás Cubas não atinava com a beleza de uma manca; eu, de minha parte, não atino com a eficiência de uma mal-amada. A dona, conquanto domine a matéria como poucos, está sempre muito empenhada em nos fazer sentir como se ainda andássemos pelo jardim da infância. A uma amiga que durante a aula se retirou da sala algumas vezes, só faltou dizer que passaria cola na cadeira, conforme ameaçavam, no maternal, os que insistiam em não permanecer sentados. Com isso, passamos a cuidar até mesmo de não respirar errado: não vamos agora, depois de crescidos, tomar lições da tia sobre como expirar silenciosamente, feito gente. Além do ar repressivo, a maldisfarçada descrença em nossa capacidade intelectual, a ligeira cara de nojo a cada participação nossa. Este último, confesso, um defeito que eu estaria disposto a relevar, não fosse a circunstância de eu mesmo ser um dos desacreditados. 

23.9.09

Oh razão, mistério

Primeira aula de Prática de Interpretação de Texto. Explica o professor o método: a cada semana um poema discutido em sala. Ao fim do período, a apresentação em dupla da análise de um poema de nossa escolha. Ótimo. Findo o primeiro contato, partimos para a primeira tarefa: «Áporo», de Drummond. Após a leitura, começam então as brilhantes idéias dos colegas de turma. Eu, que não sou dado a manifestações públicas de sagacidade interpretativa, contento-me em julgar, entre as exegeses oferecidas, as menos esdrúxulas. Até que, enfim, ignorando os malogros de experiências passadas, me atrevo a uma opinião. Qual seja: o «antieuclidiano» da estrofe final referir-se-ia, a meu ver, a Euclides, o grego, e à sua lógica, ou — antes — à oposição à sua lógica, e não a uma oposição a... Euclides da Cunha, como vinha sendo sugerido. E isto por causa, digo, do «oh razão, mistério» da estrofe anterior. O nascimento da tal orquídea deu-se de maneira fantástica, inexplicável, misteriosa — antieuclidiana. Impasse. O professor pergunta, com um sorriso, pelo número de telefone do Drummond, porquanto só ele seria capaz de nos esclarecer a que Euclides a formação da orquídea se opunha, se ao geômetra ou se ao autor de Os Sertões. E conclui, logo em seguida, diante da inviabilidade do expediente, que é melhor assim, porque: «Pouco nos importa a intenção do autor.» Sim. Depois de publicado um texto, pouco importa o que o autor quis dizer. O texto agora é nosso, dos leitores. Façamos dele, por conseguinte, o que quisermos. (E deixa escapar, ao fim do arroubo, o seguinte: «Se o Ferreira Gullar estivesse me ouvindo, ele ficaria uma fera. Se ele me visse falando que a opinião do autor do poema pouco importa, ia ficar louco da vida.»  Era a voz da consciência.) Mas eu, vendido, lutando por não parecer tão analfabeto, acrescento, superior: «Até porque — né, professor? — se Drummond quisesse realmente dizer alguma coisa, ele escrevia um ensaio, pedia um espaço no jornal. Não escrevia um poema desses.» O professor pensa um pouco e por fim concorda, corroborando o argumento com outro exemplo. A concordância nos leva, por conta de um aparte de uma aluna, a discutir sobre «a marca do gênio»: a multiplicidade de sentidos num texto. O gênio, para ela, é o sujeito que escreve um texto tão ambíguo, que duas leituras similares são praticamente impossíveis. Instaura-se um profundo silêncio reflexivo. Todos meditam na profundidade da idéia: quanto menos compreensível um autor, maior ele é. O professor, no entanto, pede calma e relembra as muitas competências do texto: há textos que precisam ser escritos de forma clara. Outros não. E completa: «Quanto a esses últimos, quanto aos que não sofrem essa limitação, caso dos poemas, é isso mesmo: todas as leituras são igualmente válidas, sobretudo as minhas.»
A influência da falta de beleza na opção religiosa dos brasileiros.

21.9.09

Na falta de felicidade própria, a desgraça alheia. 
Há uma espécie de logro que arruína tudo o que lhe sucede.

Florence and The Machine

Um Robson Caetano — ou qualquer outro homem público chegado a uma violência doméstica — que afirmasse o dar uns socos na mulher como preferível a simplesmente ignorá-la não teria o mesmo efeito.