O ridículo é o preço de liquidação de uma singularidade de camelô.
2.11.13
1.11.13
Salvadores
— Acreditam os senhores ter condição de me dizer precisamente de que se constitui [a cultura europeia], a qual os senhores pretendem defender embora não esteja sendo agredida de fora?
— Da religião! — disse o presidente, que nunca ia à igreja.
— Dos costumes — disse a dama cujas ligações ilegítimas eram do conhecimento de todos.
— Da arte — disse o diplomata, que desde os tempos de escola jamais contemplara um quadro.
(Joseph Roth, Fuga sem fim, 1927.)
30.10.13
26.10.13
Método
Por entre estantes carregadas de livros, caminha-se com a dispersão interessada de quem folheia um dicionário.
Padrão
Mesmo as fisionomias eventualmente se confundem; as ideias, gostos, gestos, não sendo infinitamente variáveis, por força se repetem. É verdade que se distinguem as íris e as digitais, mas não sem recursos biométricos, inaplicáveis ao trato interpessoal cotidiano... E se digo isso é porque, observando uma lista de presença, me ocorreu que talvez não tenhamos nada tão nosso quanto a caligrafia, não por acaso praticamente abolida em favor da uniformidade tipográfica.
25.10.13
21.10.13
“Metades de homens”
Impressão que, em “Dos canibais”, Montaigne atribui aos tamoios, aqui do Rio, levados pela turma de Villegagon em excursão pela França — índios com os quais Montaigne alega ter, inclusive, encontrado:
Alguém lhes havendo perguntado mais tarde o que pensavam da cidade e o que ela lhes tinha revelado [...] observaram que há entre nós gente bem alimentada, gozando as comodidades da vida, enquanto metades de homens emagrecidos, esfaimados, miseráveis, mendigam às portas dos outros (em sua linguagem metafórica a tais infelizes chamam “metades”); e acham extraordinário que essas metades de homens suportem tanta injustiça sem se revoltarem e incendiarem as casas dos demais.
“Fechado, mesmo aberto”
Folheada, a folha de um livro retoma
o lânguido vegetal de folha folha,
e um livro se folheia ou se desfolha
como sob o vento a árvore que o doa;
folheada, a folha de um livro repete
fricativas e labiais de ventos antigos,
e nada finge vento em folha de árvore
melhor do que o vento em folha de livro.
Todavia, a folha, na árvore do livro,
mais do que imita o vento, profere-o:
a palavra nela urge a voz, que é vento,
ou ventania, varrendo o podre a zero.
Silencioso: quer fechado ou aberto,
inclusive o que grita dentro; anônimo:
só expõe o lombo, posto na estante,
que apaga em pardo todos os lombos;
modesto: só se abre se alguém o abre,
e tanto o oposto do quadro na parede,
aberto a vida toda, quanto da música,
viva apenas enquanto voam suas redes.
Mas apesar disso e apesar de paciente
(deixa-se ler onde queiram), severo:
exige que lhe extraiam, o interroguem;
e jamais exala: fechado, mesmo aberto.
— João Cabral, “Para a feira do livro”, de A educação pela pedra.
o lânguido vegetal de folha folha,
e um livro se folheia ou se desfolha
como sob o vento a árvore que o doa;
folheada, a folha de um livro repete
fricativas e labiais de ventos antigos,
e nada finge vento em folha de árvore
melhor do que o vento em folha de livro.
Todavia, a folha, na árvore do livro,
mais do que imita o vento, profere-o:
a palavra nela urge a voz, que é vento,
ou ventania, varrendo o podre a zero.
Silencioso: quer fechado ou aberto,
inclusive o que grita dentro; anônimo:
só expõe o lombo, posto na estante,
que apaga em pardo todos os lombos;
modesto: só se abre se alguém o abre,
e tanto o oposto do quadro na parede,
aberto a vida toda, quanto da música,
viva apenas enquanto voam suas redes.
Mas apesar disso e apesar de paciente
(deixa-se ler onde queiram), severo:
exige que lhe extraiam, o interroguem;
e jamais exala: fechado, mesmo aberto.
— João Cabral, “Para a feira do livro”, de A educação pela pedra.
15.10.13
A diferença
Portugal descobre o Novo Mundo, e quem repensa o Velho são os franceses. Ou por outra: enquanto os jesuítas catequizam, é Montaigne que se pergunta: “E se somos nós os degenerados?”
12.10.13
Gentio
Acham-se muitos índios por toda esta costa do Brasil, que têm, de idade, mais de cem anos, e eu conheço alguns destes, aos quais lhes não falta dente na boca, e gozam ainda de suas perfeitas forças, com terem três e quatro mulheres, as quais conhecem carnalmente, e me afirmaram não haverem sido em todo o decurso da sua vida doentes.
11.10.13
Mutação
Graças ao smartphone, as pessoas passaram a digitar tão ininterruptamente com os polegares, que é de se imaginar o dia em que nasceremos com pinças de caranguejo em vez de mãos.
Ortoepia/Ortoépia
Em que outra língua do mundo a parte da gramática responsável pela definição da correta pronúncia das palavras é ela mesma uma palavra sem pronúncia correta definida?
7.10.13
“Machadismos”
As pessoas já até sabem que não se deve confundir os personagens de um romance com seu autor. Mas parecem cochilar quando o personagem é também o narrador. Ora, apesar de escritos por Machado de Assis, Memórias Póstumas, Dom Casmurro, Esaú e Jacó e Memorial de Aires têm por autores, respectivamente, Brás Cubas, Bento Santiago e o conselheiro Aires. Razão pela qual, se há quem exagere nas digressões, nos capítulos inúteis, nas citações pernósticas dos clássicos, nas reflexões pseudofilosóficas, nas metáforas batidas e/ou constrangedoras, — nas pirotecnias, em suma —, esse não é propriamente Machado, e sim as figuras patéticas de Brás Cubas e Bentinho, finas flores da indigência nacional. Tanto assim que os tais defeitos, os tais “machadismos” de que até hoje se queixam, não se encontram nos escritos do último, o velho Aires, que, ao contrário dos outros dois, se mostra alguém respeitável. O que significa dizer que talvez não fosse o Joaquim Maria quem tivesse, entre outros cacoetes, o vezo provinciano do eruditismo, o afã subdesenvolvido de passar por lido, educado, íntimo de gregos e latinos, mas mais possivelmente os filhos das boas famílias brasileiras, de cuja cara ele ri ao pô-los escrevendo como escreveram.
Fácil
Ninguém mais prontamente favorável à irrestrita liberdade da pesquisa biográfica do que a gente cuja vida nem à família interessa.
4.10.13
29.9.13
Encargo
Às vezes passam por mim uns senhores circunspectos não muito alinhados, mais contidos no gesto, porém, que a média, a barba cerrada e basta, os óculos de armação grossa, e recebo deles um olhar ao mesmo tempo cúmplice e apaziguado, de quem finalmente parte mas não sem antes deixar representante.
Saldo
A grande conquista do politicamente correto não foi senão fazer da cretinice de sempre um heroísmo.
Os tempos
O grande escritor já foi o que nos obrigava a ida ao dicionário; é hoje o que a inutiliza.
21.9.13
Lapso
São já duas senhorinhas feiíssimas jamais vistas pela Conde de Bonfim senão em dupla, trombando lateralmente uma na outra, tamanha a proximidade em que andam. Tão iguais, que até os dentes que faltam são os mesmos...
Eu me pergunto: que outro lugar do mundo ostentará caso tão singular de xifopagia, em que os gêmeos, nascidos por um triste equívoco anatomicamente separados, desfizeram de forma voluntária o lapso genético?
17.9.13
Espanto
As pessoas correm para o elevador que se fecha com um ímpeto que eu talvez não igualasse nem fugindo à morte.
15.9.13
Triunfo
Seja ele qual for (o corpo definido e tatuado, o cabelo vermelho da mulher, o carro mais valioso que muito apartamento, o sistema de som só avaliável em escala Richter, o cachorro com seu certificado de pureza), convém não deixar demasiado óbvio a quem vê que se está levando a passear pelas ruas, como numa volta olímpica, justo seu maior tesouro, seu muitas vezes único e solitário motivo de orgulho, espécie de troféu que, de momento, lhe justifica a existência, miserável (quem não sabe?) apesar de tudo.
Português
Lá para as tantas, Miguel Torga chama o português a “língua de que o diabo ainda se serve para falar à avó”. Ainda, porque as demais já lá se foram, finalmente libertas ou mesmo nunca confinadas ao influxo inquisitorial contrarreformista das origens. E para as conversas dele com a avó, que é com quem não se fala senão das coisas de sempre, e com o máximo de circunlóquios possível, não vá a velha melindrar-se.
14.9.13
Encontro
Adquire-se o último livro com a ânsia de quem aguarda o encontro definitivo ao fim do próximo minuto.
10.9.13
9.9.13
Irrelevante
As democracias ocidentais, semelhantemente a qualquer outro regime político, só toleram a liberdade do que, não tendo a mínima importância, não ofereça à ordem risco algum, como por exemplo a de culto, a de voto, a de opinião.
6.9.13
Confiança
Confiante o suficiente para julgar-se imbatível. Inseguro o bastante para ter de prová-lo.
5.9.13
Luizão
Uma das grandes figuras da minha infância foi um louco manso, alvo tanto da consideração como do temor da vizinhança. Era um nêgo enorme e forte, do tipo que, contrariado ou sem os remédios, devia ser incontrolável. Andava sempre descalço, boa parte das vezes sem camisa, as mãos abrindo e fechando em espasmos, os dedos contorcidos — os dos pés, duas lanchas, eram encavalados, espremidos um por cima do outro. Lembro de vê-lo achegar-se aos adultos, sempre educado: “Coisinha (era assim que tratava a todos), me dá um cigarro?” Ia nas pessoas do costume, na certeza de ser atendido. E assim que os conseguia, continuava: “Eu estou melhorando, não estou? Eu estou ficando melhor, você não acha?” Ao que as pessoas respondiam, culpadas de não terem consigo a solução: “Está, sim, Luizão, você está ótimo. Está muito bem.” Ele então acendia o cigarro no isqueiro da pessoa abordada (quantas vezes o meu pai), virava-lhe as costas e prosseguia a esmo pelas ruas do bairro, os braços junto ao corpo teso, a cabeça levemente inclinada para frente, tragando a intervalos não sem alguma ansiedade.
4.9.13
Guerra
Gregório de Matos não publicou nenhum livro em vida e simplesmente não deixou nenhum autógrafo. Diz-se que seus poemas circularam, originalmente, em folhas avulsas, as quais porém nenhum de seus compiladores jamais viu. Em resumo: a poesia de Gregório de Matos é hoje a poesia que a gente depois dele disse que era a poesia de Gregório de Matos. A verdade verdadeira é que ninguém sabe nem tem como saber. Para piorar (ou melhorar), reza inclusive a lenda que houve quem mandasse abrir cadernos em determinadas localidades para que todo aquele que conhecesse de cor algum poema de Gregório fosse lá e o transcrevesse. O que significa que Gregório de Matos é uma etiqueta; que Gregório de Matos é um guarda-chuva sob o qual se abrigam, possivelmente, todas as modalidades de poesia barroca praticadas na Bahia do século XVII.
26.8.13
Mínima pedra
............................
este estar cercada de vidro
por todo lado,
podendo a mínima pedra
ser a ocasião do desastre.
(Marly de Oliveira)
este estar cercada de vidro
por todo lado,
podendo a mínima pedra
ser a ocasião do desastre.
(Marly de Oliveira)
25.8.13
Grandeza
Como já ninguém pode sobressair-se aos demais sem rapidamente ser transformado em alvo de releituras críticas, levadas adiante pelos especialistas em desmerecimento, convém reformular o critério de grandeza. O grande homem passaria a ser não aquele em quem não se encontra sombra de baixeza, mas aquele que, ao contrário dos que o atacam, não se resume a elas. O escandaloso não seria, pois, que nos esfregassem as mesquinharias de alguém capaz de feitos extraordinários, mas antes um único grande ato do iconoclasta mais exigente. Assim, que Madre Teresa de Calcutá tenha mesmo desviado dinheiro de doações, como eu soube que se aventa, eu nem acho impossível, — não tão impossível quanto quem o sugere ter tirado um só miserável da rua, mesmo que por uma única noite.
23.8.13
Explicação
A esquerda, porque é mais ou menos dona do negócio, vive da necessária valorização do produto, acabando por deixar insatisfeita uma demanda irreprimível do nosso povo — a de ver-se xingado —, que é onde entra, de tempos em tempos, a direita.
Parábola
Trecho de um conto de Dino Buzzati, “A casa nova”, que fica muito bem de parábola. Conforme fazia Jesus, perguntemos: com o que se assemelha a vida? A vida se assemelha a um homem que
volta para casa após ter comprado um armário magnífico e, impaciente, anda de cá para lá no vestíbulo, esperando a chegada dos entregadores; altura em que a campainha toca, e, em lugar deles, aparece o carteiro, trazendo a ordem de despejo para hoje à noite, às 21 horas.
22.8.13
21.8.13
Suspeitos
São tantas as doenças contagiosas, que é pouco nos preocuparmos só com as de pele. O ideal é que fosse proibido o ingresso em ambientes fechados de quem quer que não apresentasse à porta atestado médico emitido por órgão público responsável, ficando sujeito à detenção o camarada que não fosse capaz de comprovar sua inocuidade biológica. Por que haveríamos de confiar na palavra das pessoas (nunca nada é contagioso), ou ficar reféns da aparência, tão enganosa? — tanta gente sem nenhuma pereba na cara e por dentro mais podre que um cadáver, querendo dividir com os outros o vagão do metrô... Devíamos ser todos suspeitos até que provássemos o contrário. Até imagino os agentes da polícia, vestidos tão hermeticamente quanto astronautas, abordando cidadãos acusados de terem coriza escorrendo pelo nariz: “Bom dia, senhor. Nós recebemos aqui a denúncia de que o senhor estaria fungando, ela procede? Trata-se de uma calúnia? O atestado, então, por gentileza. Como não tem, se a consulta semanal é obrigatória? Compromisso muito importante? Mais importante que a saúde da população?! O senhor está preso.”
18.8.13
Blasfêmia
A Linguística é para os dias de hoje o que foi a Biologia para os do século XIX, sendo Marcos Bagno o nosso Darwin. E se já ninguém faz caso de descender de macacos, ai de quem rele na origem divina da norma culta ou da ortografia de 45.
O ornamento do mundo
A Península Ibérica foi sempre a periferia mais remota dos impérios aos quais pertenceu, um verdadeiro fim de mundo. E muito possivelmente nunca teria deixado de ser esse cu de Judas, mesmo que por alguns poucos séculos, não fosse a chegada de Abd al-Rahman às margens do Guadalquivir, por volta de 750, fugido de Damasco, onde viu a família — a casa dos Omíadas — não só perder o Império Islâmico como ser quase totalmente exterminada. Talvez nunca tivesse conhecido o gosto da proeminência intelectual, não fosse esse príncipe exilado, sem esperanças de reaver o trono agora ainda mais distante, levado que fora pelos Abássidas para Bagdá, ter decidido fazer daquelas ruínas romanas habitadas por bárbaros tão beatos quanto ignorantes a grande al-Andaluz, um dos centros culturais mais ricos de todo o medievo — pelo que diz María Rosa Menocal, em livro homônimo a este post, parece que já no século X havia só na biblioteca do califa de Córdoba, cidade que contava com quase uma centena delas, mais livros do que na Europa inteira.
12.8.13
Tudo
Sempre que chegam os dias dedicados aos pais, eu me vejo numa grande oportunidade de eximir os meus. A culpa não é deles, que fizeram de tudo.
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