9.5.20

O marinheiro que perdeu as graças do mar, Yukio Mishima





















O marinheiro que perdeu as graças do mar é uma dessas leituras que, apesar de todas as qualidades, beiram o limite do insuportável. Mas não pelo que há, no livro, de propositalmente incômodo (o filho que espia a vida sexual da mãe, o gatinho esfolado por um grupo de crianças, as mesmas que mais tarde planejam friamente um assassinato, etc.), e sim porque é impossível amar as personagens que o narrador não consegue esconder que ama e deixar de amar as personagens que o narrador não consegue esconder que despreza; e sim porque as personagens que encarnam a defesa dos grandes valores heroicos e sobre-humanos tão caros ao narrador são simplesmente as figuras mais insuportáveis da literatura em todos os tempos (o filho Noboru e o chefe sem nome da gangue infantil), enquanto o nosso real interesse só pode repousar sobre a dupla (Fusako e Ryuji) que dá motivo a todas as recriminações (nesse caso, apropriadamente infantis) à conformidade, à desistência, à rendição próprias da vida, simbolizadas pelo abandono das despedidas impostas pela vida no mar em nome dos compromissos de quem vive em terra firme. Ou talvez seja um exagero enorme de minha parte, uma verdadeira injustiça, e a relação do narrador com as personagens em questão seja muito mais ambígua do que, com certa raiva, dou a entender: um misto mal resolvido de piedade e desprezo pelas partes envolvidas. Talvez...