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21.9.20

Novo Mundo, Américo Vespúcio


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Américo Vespúcio se diferencia dos demais cronistas do “descobrimento” por não ser um simples marinheiro como Hans Staden, nem um alucinado como Colombo, nem um padre como Thevet, nem um pastor calvinista como Léry, nem um propagandista da colonização portuguesa como Soares de Sousa, mas o mais próximo de um humanista que pisou ainda muito cedo nestas terras. É dessa educação literária que tira ele a certeza de que as Índias a que Colombo jurava ter chegado eram na verdade uma porção de terra desconhecida dos antigos e que, não se tratando de uma ilha, configurava um Mundus Novus. Esse Américo Vespúcio, que discute tecnicamente nas cartas as coordenadas astronômicas das viagens, afirma ter ido para a Espanha, de Florença, para ser um mercador; e que, após quatro anos de trabalho comercial, decidiu abandonar a busca sempre tão incerta de lucro pelo conhecimento dignificante das coisas ignotas. Essa circunstância pessoal explicaria a natureza econômica de dois comentários muito interessantes para os quais gostaria de atentar. Numa das cartas, Vespúcio diminui a circum-navegação portuguesa da África até as Índias, porque toda ela feita sem nunca se perder de vista a costa africana, o que, na avaliação do navegador florentino, tornava-a muito menos meritória do que qualquer viagem através do Atlântico, através do Desconhecido. A não ser por um aspecto: o econômico, ao qual infelizmente — segundo ele — então se dava importância excessiva. Vespúcio está dizendo que, mesmo sem nenhum achado imediatamente lucrativo, a chegada ao Novo Mundo teve mais valor do que a grande vitória comercial que chegar à Índia por mar deu a Portugal. Mas uma outra observação vespuciana acaba em contradição com o critério do heroísmo. Em outra carta, chama ele atenção para a total falta de motivação política e econômica das guerras entre os povos indígenas das costas brasileiras. De acordo com a observação de Vespúcio, os nativos estranhamente não lutavam nem pela aquisição de novos territórios, nem pelo aumento de riquezas, nem por nada que em geral leva os povos a lutarem entre si. As tribos inimigas enfrentavam-se até a morte de alguns e o aprisionamento de outros, e depois voltavam cada qual para a sua casa. E quando era de se esperar que Vespúcio louvasse a desconsideração econômica da guerra indígena, da mesma forma que louvou a desconsideração econômica das próprias viagens a este lado do Atlântico, o florentino saiu-se com uma queixa à “crueldade” desses povos, a qual estaria na base da gratuidade dessas guerras. Trata-se de um juízo tão inconsequente, que foi inevitável que Montaigne, no famoso ensaio que certamente teve como uma das fontes as cartas de Vespúcio, desfizesse a referida incoerência ao afirmar a nobreza da guerra indígena, absolutamente livre de causa tão espúria como o lucro.

15.5.20

Diários da Descoberta da América, Cristóvão Colombo





















É muito significativo que o primeiro europeu a pisar em solo sul-americano não apenas planejava chegar a outro lugar, como acreditou que estava nesse outro lugar o tempo inteiro em que esteve aqui. Desde o primeiro momento a nossa parte das Américas parece condenada a não mais existir por e para si. Seja como for, esse europeu — mescla de doido, místico e charlatão — foi, segundo o juízo mais benevolente, uma espécie de Quixote avant la lettre. Havia lido tantos relatos antigos de viagem ao Oriente, que também queria sair e realizar a própria, mesmo contra o descrédito de todos. Vivia tão alucinado por essas leituras, que enxergava a realidade por meio delas, imune a qualquer prova em contrário. O que poderia a disposição geográfica do globo terrestre contra a força da cartografia fantástica de seus estudos? (Aliás, como não chorar com o mapa de Toscanelli, pelo qual Colombo se guiava?) Se Aristóteles dizia que “este mundo é pequeno e a porção de água é muito escassa”, então da Europa até o Oriente pelo Atlântico tinha de ser um pulo. Dessa forma, havendo planejado alcançar a Índia navegando rumo ao Poente (algo que os conhecimentos náuticos da época já suspeitavam não ser possível), Colombo chega às ilhas do Caribe acreditando estar em Cipango, o Japão, portanto muito próximo de realizar o sonho de encontrar o Grande Cã. Então o testemunhamos, ao longo do diário, enxergar Cipango na ilha de Cuba da mesmíssima forma que, um século depois, Cervantes imaginará o Quixote enxergando gigantes em moinhos de vento, donzelas em meretrizes, e assim por diante. Não satisfeito, à medida que a confiança e os favores da coroa espanhola diminuem, Colombo não apenas mantém a inabalável certeza de seu feito, como o encarece ainda mais. Porque, se regressou da primeira viagem afirmando ter chegado aos confins do Oriente, as viagens seguintes (ao todo foram quatro) o tornaram convicto de ter achado nada menos que a localização geográfica do Paraíso, perdida desde a expulsão de Adão e Eva, e não apenas isso, mas também a fonte de todo o ouro do Oriente, do qual davam notícia tanto as Sagradas Escrituras quanto a segunda Bíblia que tinha, o livro de Marco Polo.