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20.5.22

A oficina de Stendhal


Machado começa as Memórias Póstumas de Brás Cubas manifestando consternação por Stendhal ter escrito para apenas cem leitores. Num dos prefácios a Do amor, Stendhal informa que o livro passou praticamente ignorado e que, vinte anos após a publicação em 1822, não haviam sido vendidos mais do que cem exemplares. Enquanto reafirma a validade do projeto, Stendhal especula as razões do fracasso de público: o tema (como falar de tudo que envolve a paixão amorosa a banqueiros, industriais, eruditos e pessoas preocupadas com as convenções, com o ridículo?), a abordagem ao tema (em vez de um agradável romance, escreveu um estudo, uma investigação, uma análise psicológica), a espontaneidade da escrita etc., e até projeta como seria o leitor ideal. Ora, se pensamos nos grandes romances oitocentistas – o próprio Stendhal, Balzac, Flaubert, Tolstói, Eça, Machado –, ler esse Do amor é como chegar a uma oficina e encontrar as peças espalhadas de cada uma dessas engrenagens romanescas, ainda desmontadas; ou como assistir a uma peça de teatro a partir da coxia, tendo à vista todos os ferros e papelões e gambiarras que durante o espetáculo permanecem escondidos do público. De maneira que não é inocente, como não poderia ser, a referência implícita a um tal livro logo no esforço mais metaficcional de Machado.

29.4.20

A importância de se ler a Bíblia como um livro antigo qualquer

No fundo, acho que não confio em escritores que não conhecem a Bíblia. Por exemplo, muito acima de Bandeira, Drummond e mesmo João Cabral, para mim está o Murilo leitor do Apocalipse. Esse talvez seja um critério eletivo do qual só agora vou tomando consciência e que talvez explique muita dificuldade minha com a literatura contemporânea em geral. As pessoas já não sabem que a Bíblia é preciosa demais para ser lida apenas por crentes apologetas ou refutadores ateístas, justamente os dois tipos de pessoas que menos proveito sabem tirar de tudo aquilo. Falta quem leia a Bíblia como um Machado a lia, ou um Melville, ou uma Dickinson, ou um Gide, ou um Mann, ou um Joseph Roth, ou um Faulkner, ou um Joyce, ou um Ruy Belo, ou um Torga, ou mesmo como um Tolstói ou um Dostoiévski, de certo modo crentes mas de um outro tipo. Talvez resida nisso a grande força dos judeus centro-europeus que tanto impacto causaram na literatura no início do século XX, grandes leitores da Bíblia que sobraram em meio a um mundo já secularizado. 

Isso com relação à literatura. Por outro lado, em que medida não caímos no buraco em que estamos justamente por termos abandonado a Bíblia na mão daqueles que só a sabem ler como critério da verdade? Em que medida uma cultura de leitura cética, livre, não dogmática, crítica, descrente, literária da Bíblia não evitaria tamanha influência evangélica nos rumos políticos do país? Talvez a solução contra um avanço evangélico na cultura não esteja exatamente na exclusão da Bíblia, mas antes na sua presença até a banalização. Não a Bíblia retirada da cultura e guardada como arma secreta nas igrejas a ser estourada a qualquer momento em praça pública pelo fundamentalismo, mas a Bíblia tratada quase vulgarmente como um livro antigo qualquer, fonte fundamental de leitura um pouco a despeito das crenças dos autores e das personagens.