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13.9.22

Jesus, o pensamento grego e o envelhecimento


A familiaridade grega com o corpo se restringia a um tipo de corpo bem específico: o corpo jovem, “ideal”. À parte esse, era enorme a dificuldade dos gregos com o corpo deteriorado pela velhice e pela morte. Por esse motivo valorizavam a morte de homens novos nos campos de batalha, ainda sem as deformações da muita idade; e tentavam a todo custo ultrajar os belos cadáveres dos inimigos; e cremavam os mortos queridos para não darem oportunidade à putrefação da carne. É verdade que os gregos gostavam dos corpos, mas dos corpos congelados no tempo, como os corpos que tinham os deuses, eternamente os mesmos. De acordo com Príamo, o ancião rei de Tróia, nada era mais consternador do que avistar a nudez de um velho. E tudo isso aponta, aliás, para o fato de que Jesus (a interpretação teológica a respeito de Jesus) foi um fenômeno muito mais próprio do pensamento grego do que do pensamento judaico: um deus que toma para si um corpo, mas um corpo que chega à morte antes de experimentar o verdadeiro escândalo que era o envelhecimento e que, para livrar a carne desse corpo da decomposição da morte, ainda por cima ressuscita. 

9.1.22

As bem-aventuranças

No Evangelho de Lucas (6:20), a cada bem-aventurança de Jesus corresponde uma maldição à circunstância contrária: bem-aventurados os pobres/ai dos ricos; bem-aventurados os que choram/ai dos que riem; bem-aventurados os que têm fome/ai dos saciados. 

Já a redação do Evangelho de Mateus (5:1-11) elimina as maldições, ao passo que amplia o número de bem-aventuranças: felizes também os mansos, os misericordiosos, os puros etc. 

Enquanto o Jesus de Lucas fala de condições concretas – a pobreza, o choro, a fome –, o Jesus de Mateus fala de disposições internas. Em vez de abençoar o pobre, a benção é ao “pobre no espírito”; em vez de abençoar o que tem fome, a benção é ao que tem “fome de justiça”. 

Significaria isso que mesmo os ricos, os felizes e os saciados (quer dizer, os amaldiçoados de Lucas) poderiam estar entre os bem-aventurados de Mateus? 

Ora, Mateus (Levi) escrevia para a comunidade judaica. E a grande acusação de Jesus contra o judaísmo era a piedade apenas exterior. Daí que, um pouco mais adiante no texto de Mateus, ao tratar do cumprimento apenas literal dos mandamentos, Jesus acrescente que não matar não é suficiente, e que é preciso também não odiar o próximo nem ofendê-lo. 

Assim, quando o Jesus de Mateus especifica que a pobreza bem-aventurada é a pobreza “no espírito”, ele não está querendo dizer que o rico também pode ser bem-aventurado. Antes, pelo contrário, está dizendo que só a pobreza exterior já não era o bastante: Jesus exigia também a pobreza interior. Da mesma forma que a fome física precisava ser acompanhada pela fome espiritual e que a pureza corporal precisava ser motivada pela pureza do coração.

21.12.21

Davi

Davi com a cabeça de Golias,
Gilles Roussellet, c. 1645.











Judite arranca a cabeça de Holofernes; Tomiris arranca a cabeça de Ciro; Herodíade pede por Salomé a cabeça arrancada de João Batista. Todas mulheres. Dessa galeria, Davi é o único homem. Mas, curiosamente, um homem cheio de traços "femininos". Davi era pequenino frente ao gigante Golias; era tão frágil a ponto de não suportar vestir uma armadura; tocava harpa e tinha voz melodiosa, capaz de acalmar o coração dos ouvintes; e tudo isso sem falar na ligação estreita e ambígua com Jônatas...

26.9.20

A história arquetípica da imaginação islâmica


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ao tomar conhecimento da traição da mulher, um sultão decide que mandará matar ao amanhecer cada mulher com a qual tiver se casado na noite anterior. E assim o faz, até que Xerazade tem um plano. E o plano de Xerazade para manter-se viva é contar ao sultão a reencenação interminável da própria condição. A cada noite Xerazade retoma a história interrompida ao fim da noite anterior, quase invariavelmente a história de alguém que conta uma história para escapar da morte, tantas vezes envolvendo mulheres adúlteras. No fundo de todas as histórias, ressoando, a história arquetípica da imaginação islâmica: a história de José. Aquele que escapa da morte e leva a melhor sobre os que o queriam matar. Aquele que escapa do poço e chega ao trono. Nesse sentido, José seria o primeiro conto escrito das Mil e Uma Noites. Primeiro e talvez único: o conto que — como o quarto do palácio de cem quartos dentro do qual há outro palácio de cem quartos — contém todos os outros. Um conto com tanto poder sobre a imaginação islâmica, que a ele tiveram de acomodar até mesmo a história de Cristo, o qual não poderia senão ter escapado, na última hora, de morrer sobre a cruz.

3.9.20

A Epopeia de Gilgamesh

É mesmo possível que tudo já esteja na Bíblia e em Homero. Eis, porém, onde já estavam tanto Homero quanto a Bíblia, e também Hesíodo, e Virgílio, e as sagas islandesas, e Dante, e a poesia mística medieval, e o romance moderno, e tudo o mais. O herói que tem seu amigo/duplo (Aquiles e Pátroclo, Davi e Jônatas, Quixote e Sancho), o herói que desce ao mundo dos mortos (Orfeu, Ulisses, Eneias, Dante), a guardiã do vinho que recomenda os prazeres da vida (Horácio, Eclesiastes, Khayyam), o herói matador de monstros (Hércules, Sigurd, Teseu), o herói que sobrevive a um cataclismo provocado como castigo pelos deuses (Noé, Deucalião, Ló), o herói que nega o amor de uma mulher para cumprir sua missão (Ulisses e Circe, Eneias e Dido, o cavaleiro andante), a mulher responsável pelo fim da harmonia entre o herói e o meio (Eva, Pandora), a inconformidade do herói ante o sofrimento e a morte (Jó, Sidarta, Ivan Ilitch), o herói que é meio humano e meio divino, o herói que perde no último instante aquilo que foi buscar, e deixa gravado em pedra aquilo que aprendeu dos deuses, a árvore da vida de cujo fruto o herói se vê privado, o herói que é livrado pelos deuses de passar pela morte sendo arrebatado, os deuses que guiam à vitória o exército comandado pelo herói, o pão e o vinho como oferta memorial ao herói finalmente morto, tudo isso já está nesse poema sumério que já devia ser recitado por volta de uns três mil anos antes de Cristo. Assustador.

15.5.20

Diários da Descoberta da América, Cristóvão Colombo





















É muito significativo que o primeiro europeu a pisar em solo sul-americano não apenas planejava chegar a outro lugar, como acreditou que estava nesse outro lugar o tempo inteiro em que esteve aqui. Desde o primeiro momento a nossa parte das Américas parece condenada a não mais existir por e para si. Seja como for, esse europeu — mescla de doido, místico e charlatão — foi, segundo o juízo mais benevolente, uma espécie de Quixote avant la lettre. Havia lido tantos relatos antigos de viagem ao Oriente, que também queria sair e realizar a própria, mesmo contra o descrédito de todos. Vivia tão alucinado por essas leituras, que enxergava a realidade por meio delas, imune a qualquer prova em contrário. O que poderia a disposição geográfica do globo terrestre contra a força da cartografia fantástica de seus estudos? (Aliás, como não chorar com o mapa de Toscanelli, pelo qual Colombo se guiava?) Se Aristóteles dizia que “este mundo é pequeno e a porção de água é muito escassa”, então da Europa até o Oriente pelo Atlântico tinha de ser um pulo. Dessa forma, havendo planejado alcançar a Índia navegando rumo ao Poente (algo que os conhecimentos náuticos da época já suspeitavam não ser possível), Colombo chega às ilhas do Caribe acreditando estar em Cipango, o Japão, portanto muito próximo de realizar o sonho de encontrar o Grande Cã. Então o testemunhamos, ao longo do diário, enxergar Cipango na ilha de Cuba da mesmíssima forma que, um século depois, Cervantes imaginará o Quixote enxergando gigantes em moinhos de vento, donzelas em meretrizes, e assim por diante. Não satisfeito, à medida que a confiança e os favores da coroa espanhola diminuem, Colombo não apenas mantém a inabalável certeza de seu feito, como o encarece ainda mais. Porque, se regressou da primeira viagem afirmando ter chegado aos confins do Oriente, as viagens seguintes (ao todo foram quatro) o tornaram convicto de ter achado nada menos que a localização geográfica do Paraíso, perdida desde a expulsão de Adão e Eva, e não apenas isso, mas também a fonte de todo o ouro do Oriente, do qual davam notícia tanto as Sagradas Escrituras quanto a segunda Bíblia que tinha, o livro de Marco Polo.

9.5.20

Lutero

O Lutero antissemita (o melhor jeito de batizar um judeu é amarrar-lhe uma pedra ao pescoço e lançá-lo de sobre uma ponte); anticapitalista (o agricultor que torna sua produção inacessível aos pobres por causa do preço é um assassino); filovegetariano (os animais foram criados para a glória de Deus; para nossa alimentação existem as plantas, razão por que Adão e Eva jamais comeram carne no Paraíso); o Lutero frugal, meio primitivista (o Paraíso não foi um jardim das delícias, mas um lugar pobre, precário, singelo; Adão e Eva quase como dois bons selvagens de tanga no meio do mato); o primeiro fundamentalista (uma mentira contada pela Bíblia não pode não ser verdade); o Lutero que troca o monge pelo burguês como ideal ascético (neste mundo, o maior desafio para o cristão é ser um bom profissional, um bom vizinho, bom pai de família); o Lutero obcecado pelo Diabo e por sua encarnação terrena, o Anticristo; o Lutero terapeuta, consolador das almas atormentadas, reconhecedor do abismo entre o que se acredita ser e o que se é de fato; o Lutero anti-humanista (quanto melhor uma pessoa, pior ela é, por causa da ilusão de mérito); do indivíduo fatalizado perante o insondável tribunal divino, totalmente à mercê do divino juiz (aos homens, é suficiente que se arrependam do pecado, com o pequeno complicador de que ninguém é capaz de se arrepender por conta própria, uma vez que o arrependimento é um efeito da salvação divina, não o contrário, de modo que só é absolvido por Deus quem Deus quer), o que faz de Kafka uma espécie de luterano sem esperança, crente perplexo predestinado à perdição; o Lutero teórico da tradução, também o das metáforas estapafúrdias (Cristo é a minhoca que Deus pôs no anzol pra pescar o Diabo, a Bíblia é a placenta dentro da qual a Igreja tem tudo que necessita pra viver, interpretar a Bíblia é coar o leite através do saco de carvão), etc.

Escrita e burocracia divina

Uma vez que o âmbito religioso foi o último a incorporar a escrita — nascida como ferramenta burocrática e comercial —, é claro que um Deus tão ligado a ela como o dos nossos monoteísmos não poderia se apresentar como outra coisa que um legislador, para quem, além do mais, é preciso registrar minuciosamente todas as perdas e ganhos que cada uma de suas criaturas vai adquirindo junto a ele, para afinal ter contabilizado o respectivo saldo, positivo ou negativo. Não é estranho que um Deus que escreve apareça desde o início ocupado com aquilo para o que a escrita foi originalmente inventada.

Os Patriarcas

Um irmão que mata o outro irmão; as filhas que engravidam do pai; a esposa que oferece outra mulher ao próprio marido; o pai que na última hora desiste de matar um dos filhos, depois de já ter abandonado o outro à própria sorte; o irmão que trapaceia o irmão; a mãe que ajuda um filho a enganar o outro filho; o filho que, com o auxílio da mãe, engana o pai já velho à beira da morte; o tio que engana e explora o sobrinho, que depois dá o troco ao tio e sequestra as primas; a nora que engravida do sogro; o irmão que é vendido pelos irmãos... E tudo isso, de acordo com o Gênesis, numa única família.

Assim como Paul Johnson escreveu um livro contra a influência das ideias progressistas contando fofocas a respeito de seus autores, e o chamou Os Intelectuais, imaginei um outro, nos mesmos moldes, contra as prerrogativas do monoteísmo abraâmico, intitulado Os Patriarcas...

Porque, se gregos e latinos gostavam de uma carnificina (donde os poemas épicos), os hebreus tinham clara preferência pela confusão entre parentes, o que faz do Gênesis um precursor desses programas dedicados à exposição de escândalos familiares. O autor de As Metamorfoses está para o José Luiz Datena do Cidade Alerta como o autor do Gênesis está para o Ratinho do Teste de DNA...

Inclusive, pode até ser que seja a isso a que as pessoas se referem quando falam em “civilização greco-judaico-cristã”: o encontro dessas duas preferências (sangue e vexame) na mesma grade de TV.

2.5.20

A prioridade daquele que vem depois

Há no Gênesis — um dos textos a que mais volto na vida — muitas reincidências, dentre as quais a seguinte: a disputa entre irmãos (por vezes gêmeos, mas nem sempre) pela preferência paterna, que de maneira intrigante recai sempre sobre os mais novos, em detrimento da prioridade natural dos mais velhos. Do início ao fim do livro — isto é, dos filhos de Adão aos filhos de José —, repete-se a vitória tumultuadora dos mais novos: Caim e Abel; Ismael e Isaque; Esaú e Jacó; Zara e Farés (gêmeos como Esaú e Jacó, tal como aqueles começam a competir ainda no ventre da mãe, já na hora do parto); Manassés e Efraim (os quais recebem do avô Jacó uma benção absurda, conferida com as mãos cruzadas, para que a mão direita pousasse sobre a cabeça do mais novo, naturalmente posto na direção da mão secundária, a mão esquerda)... Pensando nessa insistência pelo mais novo, pelo menor, pelo sem direito, parece estranho que o Cristo, para quem também “os últimos serão os primeiros”, “os humilhados serão exaltados”, tenha sido não o filho mais novo de Maria, mas justamente o primeiro, se não mesmo seu único filho (a depender da tradição), tal como, da parte de Deus, era desde o princípio o “primogênito de toda criação”, o “unigênito do Pai”, o Filho Único por excelência... Talvez por isso a importância de uma figura como João Batista, o precursor que anuncia a prioridade do que vem depois...

Sonho vingativo

A história de Noé, que escapa de perecer com todos os seres em terra firme flutuando num barco à deriva sobre as águas, só pode ser o sonho vingativo de algum náufrago.

Último refúgio do profetismo

A epidemiologia, o último refúgio do profetismo. Tal como os antigos profetas de Israel, o epidemiologista se apresenta e anuncia a catástrofe que se aproxima. Uma catástrofe da qual sempre só é possível escapar com uma condição, que é lhe dar ouvido. O profeta antigo chamava ao arrependimento, o atual chama a não sair de casa, aliás ao melhor estilo pascoal, com a Morte lá fora, passando em frente à casa das pessoas. Outra semelhança é que, então como agora, não faltam os desacreditadores e a acusação de alarmismo, oportunismo, sabotagem.

29.4.20

A importância de se ler a Bíblia como um livro antigo qualquer

No fundo, acho que não confio em escritores que não conhecem a Bíblia. Por exemplo, muito acima de Bandeira, Drummond e mesmo João Cabral, para mim está o Murilo leitor do Apocalipse. Esse talvez seja um critério eletivo do qual só agora vou tomando consciência e que talvez explique muita dificuldade minha com a literatura contemporânea em geral. As pessoas já não sabem que a Bíblia é preciosa demais para ser lida apenas por crentes apologetas ou refutadores ateístas, justamente os dois tipos de pessoas que menos proveito sabem tirar de tudo aquilo. Falta quem leia a Bíblia como um Machado a lia, ou um Melville, ou uma Dickinson, ou um Gide, ou um Mann, ou um Joseph Roth, ou um Faulkner, ou um Joyce, ou um Ruy Belo, ou um Torga, ou mesmo como um Tolstói ou um Dostoiévski, de certo modo crentes mas de um outro tipo. Talvez resida nisso a grande força dos judeus centro-europeus que tanto impacto causaram na literatura no início do século XX, grandes leitores da Bíblia que sobraram em meio a um mundo já secularizado. 

Isso com relação à literatura. Por outro lado, em que medida não caímos no buraco em que estamos justamente por termos abandonado a Bíblia na mão daqueles que só a sabem ler como critério da verdade? Em que medida uma cultura de leitura cética, livre, não dogmática, crítica, descrente, literária da Bíblia não evitaria tamanha influência evangélica nos rumos políticos do país? Talvez a solução contra um avanço evangélico na cultura não esteja exatamente na exclusão da Bíblia, mas antes na sua presença até a banalização. Não a Bíblia retirada da cultura e guardada como arma secreta nas igrejas a ser estourada a qualquer momento em praça pública pelo fundamentalismo, mas a Bíblia tratada quase vulgarmente como um livro antigo qualquer, fonte fundamental de leitura um pouco a despeito das crenças dos autores e das personagens.

25.4.20

Anaximandro, Lao Tsé, Jonas

Não é apenas no modo como se referem ao Tao e ao ápeiron que Lao Tsé e Anaximandro se assemelham (ambas designações do princípio imaterial, inesgotável, inapreensível da realidade), mas também na compreensão de como todas as coisas nascem a partir dos pares de opostos complementares de alguma forma derivados daquela unidade primordial: assim como Lao Tsé desdobra o Yin e Yang, Anaximandro aponta para a “separação dos contrários em consequência do movimento eterno” (também o Tao “flui sem cessar”), tais como “o quente e o frio, o seco e o úmido”, etc. Outra relação inesperada surge quando a Anaximandro se atribui a ideia de que os primeiros homens nasceram no interior dos peixes e de lá só foram expelidos para a vida na terra após terem amadurecidas as capacidades necessárias à preservação da nova espécie (além do mais Anaximandro foi o primeiro evolucionista), hipótese que dá a Jonas a aparência de um velho mito da criação do homem já esquecido, para o qual se arranjou depois outro significado.