13.9.22
Jesus, o pensamento grego e o envelhecimento
9.1.22
As bem-aventuranças
21.12.21
Davi
| Davi com a cabeça de Golias, Gilles Roussellet, c. 1645. |
Judite arranca a cabeça de Holofernes; Tomiris arranca a cabeça de Ciro; Herodíade pede por Salomé a cabeça arrancada de João Batista. Todas mulheres. Dessa galeria, Davi é o único homem. Mas, curiosamente, um homem cheio de traços "femininos". Davi era pequenino frente ao gigante Golias; era tão frágil a ponto de não suportar vestir uma armadura; tocava harpa e tinha voz melodiosa, capaz de acalmar o coração dos ouvintes; e tudo isso sem falar na ligação estreita e ambígua com Jônatas...
26.9.20
A história arquetípica da imaginação islâmica
Ao tomar conhecimento da traição da
mulher, um sultão decide que mandará matar ao amanhecer cada mulher com a qual
tiver se casado na noite anterior. E assim o faz, até que Xerazade tem um plano. E o
plano de Xerazade para manter-se viva é contar ao sultão a reencenação
interminável da própria condição. A cada noite Xerazade retoma a história
interrompida ao fim da noite anterior, quase invariavelmente a história de alguém que
conta uma história para escapar da morte, tantas vezes envolvendo mulheres
adúlteras. No fundo de todas as histórias, ressoando, a história arquetípica da
imaginação islâmica: a história de José. Aquele que escapa da morte e leva a
melhor sobre os que o queriam matar. Aquele que escapa do poço e chega ao
trono. Nesse sentido, José seria o primeiro conto escrito das Mil
e Uma Noites. Primeiro e talvez único: o conto que — como o quarto do
palácio de cem quartos dentro do qual há outro palácio de cem quartos — contém todos
os outros. Um conto com tanto poder sobre a imaginação islâmica, que a ele tiveram de acomodar até mesmo a história de Cristo, o qual não poderia senão ter escapado, na última hora,
de morrer sobre a cruz.
3.9.20
A Epopeia de Gilgamesh
15.5.20
Diários da Descoberta da América, Cristóvão Colombo
É muito significativo que o primeiro europeu a pisar em solo sul-americano não apenas planejava chegar a outro lugar, como acreditou que estava nesse outro lugar o tempo inteiro em que esteve aqui. Desde o primeiro momento a nossa parte das Américas parece condenada a não mais existir por e para si. Seja como for, esse europeu — mescla de doido, místico e charlatão — foi, segundo o juízo mais benevolente, uma espécie de Quixote avant la lettre. Havia lido tantos relatos antigos de viagem ao Oriente, que também queria sair e realizar a própria, mesmo contra o descrédito de todos. Vivia tão alucinado por essas leituras, que enxergava a realidade por meio delas, imune a qualquer prova em contrário. O que poderia a disposição geográfica do globo terrestre contra a força da cartografia fantástica de seus estudos? (Aliás, como não chorar com o mapa de Toscanelli, pelo qual Colombo se guiava?) Se Aristóteles dizia que “este mundo é pequeno e a porção de água é muito escassa”, então da Europa até o Oriente pelo Atlântico tinha de ser um pulo. Dessa forma, havendo planejado alcançar a Índia navegando rumo ao Poente (algo que os conhecimentos náuticos da época já suspeitavam não ser possível), Colombo chega às ilhas do Caribe acreditando estar em Cipango, o Japão, portanto muito próximo de realizar o sonho de encontrar o Grande Cã. Então o testemunhamos, ao longo do diário, enxergar Cipango na ilha de Cuba da mesmíssima forma que, um século depois, Cervantes imaginará o Quixote enxergando gigantes em moinhos de vento, donzelas em meretrizes, e assim por diante. Não satisfeito, à medida que a confiança e os favores da coroa espanhola diminuem, Colombo não apenas mantém a inabalável certeza de seu feito, como o encarece ainda mais. Porque, se regressou da primeira viagem afirmando ter chegado aos confins do Oriente, as viagens seguintes (ao todo foram quatro) o tornaram convicto de ter achado nada menos que a localização geográfica do Paraíso, perdida desde a expulsão de Adão e Eva, e não apenas isso, mas também a fonte de todo o ouro do Oriente, do qual davam notícia tanto as Sagradas Escrituras quanto a segunda Bíblia que tinha, o livro de Marco Polo.



