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14.7.21

Os contos de amor e de morte de Kim Si-Seup


 

 

 

 

 

 

 

 

 


Não é que o “realismo” seja uma aquisição tardia da literatura. A realidade dos homens é que nem sempre foi tão estreita quanto a nossa. Daí por que nem faz muito sentido tratar como “fantástica” uma literatura apenas fiel a certa compreensão mais ampla da realidade humana, da qual participam igualmente mortos e divindades. A aparição de um fantasma na obra de um inglês do século XIX não significa o mesmo de uma aparição na obra de um coreano do século XV. Por esse motivo, se os personagens de Contos da Tartaruga Dourada, considerada a primeira obra ficcional da Coreia, podem por vezes não saber se estão acordados ou sonhando, diante de vivos ou de mortos, de homens ou de deuses, é justamente pela possibilidade admitida de interação com os habitantes de outros mundos. Já a respeito do título, que nada nos diz: ele se deve à mera circunstância de ter sido essa a localidade onde o autor escreveu o livro, que merecia muito mais o título que tem um livro de Arthur Schnitlzer — Contos de Amor e de Morte —, porque é exatamente disso que tratam: em meio a amores impossíveis, os personagens — jovens poetas, eruditos desafortunados, versados nos clássicos chineses — debatem com os deuses as grandes questões filosóficas do período, em torno da disputa política do confucionismo contra o budismo, então bastante combatido. Desse ponto de vista, aliás, os contos de Kim Si-Seup testemunham o início de uma crise com o sobrenatural budista, motivada pelo “naturalismo” taoísta, já que neles o sobrenatural participa amplamente, enquanto vai sendo discutido. 

25.4.20

Contos de Amor e Morte, Arthur Schnitlzler





















A partir da leitura deste livro, fica impossível reconhecer a legitimidade de qualquer lista de maiores contistas que não comece por Arthur Schnitzler, nem qualquer antologia de melhores contos já escritos que não tenha os contos “A profecia” e “O diário de Redegonda”. O contraste com Tchekhov (curiosamente, ambos médicos) é enorme — a vagueza e a abertura do russo, o cálculo e a precisão do austríaco; o olhar cheio de compreensão do primeiro para com as pessoas comuns, a perspectiva de condes e barões e burgueses tratada com ironia pelo segundo —, a não ser em uma coisa: a perfeição absoluta no efeito pretendido por cada qual. Os contos de Schnitzler são engrenagens perfeitas, sem uma frase a mais, uma palavra fora de lugar, um fio solto, tudo minuciosamente arranjado. Perto de um conto de Schnitzler, até a prosa de um Flaubert parece imprecisa. Contribui muito com isso a qualidade da tradução de George Bernard Sperber, num português excelente, e da edição, que não deixou escapar uma vírgula, uma gralha. Também chama a atenção o interesse cético de Schnitlzer pelos fenômenos sobrenaturais, pelo ocultismo tão em voga na Viena do seu tempo. E, por falar no ocultismo da Viena de seu tempo, as pessoas que vão até a nova série da Netflix em busca de Freud fiquem sabendo que o que a série oferece é o universo de Schnitzler: a série é uma novela menos sutil de Schnitzler com Freud como protagonista.

Bentinho às avessas

Enquanto o Bento Santiago de Machado de Assis repassa toda a vida em busca dos menores indícios que reforcem o caráter duvidoso de Capitu e assim deem peso a sua acusação de adultério contra a esposa, baseada na semelhança do filho do casal com o melhor amigo do marido, Andreas Thameyer — personagem autor de uma carta pré-suicídio que é um dos contos de Arthur Schnitzler, intitulado justamente A última carta de Andreas Thameyer — é um Bentinho às avessas que, munindo-se pela pesquisa erudita de vários casos registrados, ao longo da história da curiosidade humana e da ciência, de mulheres que tiveram filhos semelhantes não aos pais biológicos, mas a pessoas e a objetos que as impressionaram fortemente durante a gravidez, defende até o próprio fim, contra todas as evidências, a fidelidade da mulher que, igualmente branca como ele, havia acabado de dar à luz um filhinho preto. Ambos os textos, Dom Casmurro e A última carta, são de 1900.