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18.5.21

Uma analogia cristã


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Um discípulo sugere a Mêncio que o homem virtuoso está para a natureza humana como a escultura está para a madeira. Trata-se, curiosamente, da mesma analogia utilizada por Antônio Vieira, mil e novecentos anos depois, no Sermão do Espírito Santo: os gentios são pedras que os missionários esculpem. Mas Mêncio logo descarta a imagem da virtude como violência à natureza (esculpir implica cinzelar, martelar) por considerá-la nociva e contraproducente. 
 
Em seguida, Mêncio afirma que a natureza humana tende à virtude como a água tende para baixo. E que, assim como a água só deixa de correr espontaneamente para baixo mediante um impedimento exterior, assim também o homem no que diz respeito à virtude: são as circunstâncias que o corrompem. Já um aproveitamento cristão da analogia proposta por Mêncio diria, ao contrário, que um homem virtuoso é uma água que corre para cima.

11.5.20

Duas associações indevidas

Um mal-entendido na chegada dos portugueses à Índia, talvez determinante na relação dos colonizadores com os nativos do Brasil: a confusão auditiva entre Krishna/Cristo, que fez alguns da esquadra considerarem a região dividida entre cristãos indianos e mouros islâmicos. Quando, poucos anos depois, chegam ao Brasil (o Bartolomeu Dias que chega com Cabral ao Brasil havia chegado com Vasco da Gama a Calicute) e não deparam a mesma religião encontrada na Índia, com templos, imagens, sacerdotes, logo cogitam a degeneração dessa gente, já sem qualquer memória do cristianismo decerto aprendido no início com o apóstolo Tomé, segundo a tradição o evangelizador dos indianos. Partindo dessas duas associações — entre índios e indianos, entre religião indiana e algum tipo de cristianismo —, os primeiros colonizadores do Brasil só conseguirão enxergar, no contraste com as notícias recebidas da Índia, aquilo que faltava aos indígenas, ou melhor, aquilo que os indígenas haviam perdido. De modo que, se a outros ocorria especular quanto à natureza primitiva dos habitantes do Novo Mundo, isto é, sua maior proximidade aos estágios iniciais da humanidade, aos portugueses só era possível enxergar neles a inconstância, a decadência, o embrutecimento.