3.8.21

O Silênco, de Shusaku Endo


Tudo nesse livro, que gira em torno à tentativa fracassada de cristianização do Japão no século XVII, é inesperado. A começar por ser o livro de um japonês, mas um japonês católico. Depois, por apresentar, em plena época de regime inquisitorial contrarreformista, padres portugueses e espanhóis não como perseguidores na Europa, mas como perseguidos no Japão. Por último, por transferir o foco desde a questão da perseguição religiosa (afinal, os japoneses não perseguem em nome de outra verdade) para a questão moral daquele que vai promover uma ideia em nome da qual inocentes serão mortos — além de várias outras questões como, por exemplo, em que medida o cristianismo de quem é catequizado é o mesmo cristianismo de quem catequiza? e se tudo não passa de um grande mal-entendido? e até que ponto renegar apenas superficialmente a religião torna alguém infiel ao cerne dessa religião? se boca e coração nem sempre estão de acordo na crença, por que também não poderiam estar separados na descrença apenas exterior? A rigor não é possível tornar-se mártir por vaidade, enquanto se pode ser um apóstata contrito? Além de que — e passei toda a leitura me fazendo essa pergunta —, quanto vale, em termos de testemunho de fé, o martírio de um povo com venerável tradição suicida?

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