2.6.26

Mimeses, de Erich Auerbach


Auerbach elege a representação séria do cotidiano como o máximo que a literatura pode atingir e então passa a julgar as obras de todas os tempos a partir desse critério. Assim, época após época, Auerbach vai apontando o progresso, nem sempre linear, em direção a esse ideal finalmente alcançado pelos romancistas da primeira metade do século XX, coincidentemente a mesma época em que o autor viveu. 

Parte essa leitura de um evidente preconceito que só não nos incomoda porque é também o nosso: a dignidade do homem comum. A partir desse valor que nem todas as épocas cultivaram, ele hierarquiza em mais ou menos desenvolvidas as obras literárias de todas as épocas, desde o limitado e aristocrático Homero ao democrático romance moderno. 

Muito distante de uma definição estreita de realismo como princípio literário nascido no séc. XIX, para Auerbach cada época teve o seu realismo, isto é, sua maneira de representação literária da realidade. Em compensação, nenhuma tão eficaz quanto o nosso. (Agora, o que é mais antipático: dar uma definição de realismo que exclua a literatura de todas as épocas anteriores ao século XIX, ou dizer que cada época teve o seu realismo, mas todos extremamente insuficientes quando comparados com o de Balzac?) 

Em todo caso, Mimesis oferece duas possibilidades de leitura: uma leitura avulsa, cada ensaio valendo pelas obras e épocas comentadas por Auerbach (e nisso seus estudos são insuperáveis em abrangência e acuidade); ou no conjunto, um ensaio após o outro segundo a ordem, catando nas entrelinhas as pressuposições do autor, essas sim discutíveis.

Notas sobre O Asno de Ouro, de Apuleio


Apuleio inicia sua narração anunciando que ela será feita no estilo milesiano, o qual aparentemente consiste em o narrador ir acumulando muitas outras histórias ao longo da própria. Ora, não é esse o mesmo estilo utilizado por Cervantes no Quixote? 

Assim como, em Homero, tudo que surge precisa ter a origem narrada em primeiro plano (a cicatriz de Ulisses que, bem no momento da revelação, nos leva até a infância do herói em casa do avô Autólico; o encontro entre Glauco e Diomedes que, no meio do campo de batalha, nos leva à velha amizade entre seus avôs), em Apuleio toda pessoa que aparece precisa contar ela mesma uma história qualquer que ocupe toda a atenção do leitor e o faça quase esquecer a história principal do romance. 

Devido à natureza ostensiva da transformação sofrida por Lúcio, o romance de Apuleio escancara o mecanismo do romanesco: o sujeito que se vê de repente transformado, voluntária ou involuntariamente, em alguma outra coisa (o Quixote em cavaleiro andante; Crusoé em náufrago; Gregor Samsa em inseto; Bentinho em corno), e todas as agruras decorrentes disso. Diante de um herói de romance, perguntar: no que foi que ele se transformou?

Dois tipos de romance: as muitas aventuras de um único e mesmo personagem do início ao fim; vários personagens e cada uma de suas respectivas histórias. Um terceiro tipo, anterior aos dois primeiros: um único personagem que a cada passo interrompe a própria história para ouvir e nos contar as histórias dos outros.