2.6.26
Mimeses, de Erich Auerbach
Notas sobre O Asno de Ouro, de Apuleio
Assim como, em Homero, tudo que surge precisa ter a origem narrada em primeiro plano (a cicatriz de Ulisses que, bem no momento da revelação, nos leva até a infância do herói em casa do avô Autólico; o encontro entre Glauco e Diomedes que, no meio do campo de batalha, nos leva à velha amizade entre seus avôs), em Apuleio toda pessoa que aparece precisa contar ela mesma uma história qualquer que ocupe toda a atenção do leitor e o faça quase esquecer a história principal do romance.
Devido à natureza ostensiva da transformação sofrida por Lúcio, o romance de Apuleio escancara o mecanismo do romanesco: o sujeito que se vê de repente transformado, voluntária ou involuntariamente, em alguma outra coisa (o Quixote em cavaleiro andante; Crusoé em náufrago; Gregor Samsa em inseto; Bentinho em corno), e todas as agruras decorrentes disso. Diante de um herói de romance, perguntar: no que foi que ele se transformou?
Dois tipos de romance: as muitas aventuras de um único e mesmo personagem do início ao fim; vários personagens e cada uma de suas respectivas histórias. Um terceiro tipo, anterior aos dois primeiros: um único personagem que a cada passo interrompe a própria história para ouvir e nos contar as histórias dos outros.
