18.6.26

As Aventuras de Robinson Crusoé, de Daniel Defoe

Numa época em que grupos de homens iam e vinham pelo oceano ao encontro de povos inteiros e os espoliavam, catequizavam, descreviam, e criavam vilas e cidades e colônias, um inglês imagina a história insuportável de um grande solitário que não fala de outra coisa além de si. 

Quer dizer que, se no princípio de tudo, Apuleio imagina um homem que, transformado em asno, vai pelo caminho muito atento a todas as histórias que ouve narradas diante de si, mil e quinhentos anos depois Defoe imagina um homem preso numa ilha deserta com apenas uma única e interminável história para contar: a própria. Chegamos a um desinteresse quase monstruoso pelo outro. 

Quanto a essa história, ao opor-se à viagem do filho, o pai do jovem Crusoé dá o retrato perfeito da então nova classe intermediária, destinada só ao conforto e ao bem-estar, uma vez que podia se manter afastada dos dois extremos que eram a miséria dos pobres e a sede de glória dos grandes senhores. O único pecado dessa nova classe, ou seu pecado original, segundo o náufrago: a insatisfação. 

Crusoé era puritano. Assim, viver solitário numa ilha também lhe conferia uma série de vantagens, já que o mantinha apartado da corrupção do mundo e da perseguição da igreja oficial. Nessa ilha, Crusoé não tem distrações nem tentações, apenas o trabalho. Também não tem autoridades clericais com que disputar a liberdade de culto, nem qualquer outra fonte de conhecimento religioso além da leitura repetitiva da Bíblia auxiliada pelo Espírito Santo. Para que mais?

Além de puritano, ou talvez mesmo antes de ser puritano, Crusoé era filho de mercador. De maneira que, a partir de agora, sempre que pensar na relação entre protestantismo e capitalismo, eu, que nunca li Max Weber, vou pensar no consolo espiritual obtido por Crusoé ao fazer o registro contábil, num livro de débitos e créditos, das desgraças e dos benefícios recebidos de Deus por ocasião do naufrágio.

2.6.26

Mimeses, de Erich Auerbach


Auerbach elege a representação séria do cotidiano como o máximo que a literatura pode atingir e então passa a julgar as obras de todas os tempos a partir desse critério. Assim, época após época, Auerbach vai apontando o progresso, nem sempre linear, em direção a esse ideal finalmente alcançado pelos romancistas da primeira metade do século XX, coincidentemente a mesma época em que o autor viveu. 

Parte essa leitura de um evidente preconceito que só não nos incomoda porque é também o nosso: a dignidade do homem comum. A partir desse valor que nem todas as épocas cultivaram, ele hierarquiza em mais ou menos desenvolvidas as obras literárias de todas as épocas, desde o limitado e aristocrático Homero ao democrático romance moderno. 

Muito distante de uma definição estreita de realismo como princípio literário nascido no séc. XIX, para Auerbach cada época teve o seu realismo, isto é, sua maneira de representação literária da realidade. Em compensação, nenhuma tão eficaz quanto o nosso. (Agora, o que é mais antipático: dar uma definição de realismo que exclua a literatura de todas as épocas anteriores ao século XIX, ou dizer que cada época teve o seu realismo, mas todos extremamente insuficientes quando comparados com o de Balzac?) 

Em todo caso, Mimesis oferece duas possibilidades de leitura: uma leitura avulsa, cada ensaio valendo pelas obras e épocas comentadas por Auerbach (e nisso seus estudos são insuperáveis em abrangência e acuidade); ou no conjunto, um ensaio após o outro segundo a ordem, catando nas entrelinhas as pressuposições do autor, essas sim discutíveis.

Notas sobre O Asno de Ouro, de Apuleio


Apuleio inicia a narração anunciando que ela será feita no estilo milesiano, o qual aparentemente consiste em o narrador ir acumulando muitas outras histórias ao longo da própria. Ora, não é esse o mesmo estilo utilizado por Cervantes no Quixote? 

Assim como, em Homero, tudo que surge precisa ter a origem narrada em primeiro plano (a cicatriz de Ulisses que, bem no momento da revelação, nos leva até a infância do herói em casa do avô Autólico; o encontro entre Glauco e Diomedes que, no meio do campo de batalha, nos leva à velha amizade entre seus avôs), em Apuleio toda pessoa que aparece precisa contar ela mesma uma história qualquer que ocupe toda a atenção do leitor e o faça quase esquecer a história principal do romance. 

Devido à natureza ostensiva da transformação sofrida por Lúcio, o romance de Apuleio escancara o mecanismo do romanesco: o sujeito que se vê de repente transformado, voluntária ou involuntariamente, em alguma outra coisa (o Quixote em cavaleiro andante; Crusoé em marinheiro; Gregor Samsa em inseto; Bentinho em marido de Capitu), e todas as agruras decorrentes disso. Diante de um herói de romance, perguntar: no que foi que ele se transformou?

Dois tipos de romance: as muitas aventuras de um único e mesmo personagem do início ao fim; vários personagens e cada uma de suas respectivas histórias. Um terceiro tipo, anterior aos dois primeiros: um único personagem que a cada passo interrompe a própria história para ouvir e nos contar as histórias dos outros.