12.12.14

Ainda

Não basta saber o que eles sabem: é preciso ainda desconhecer o que eles desconhecem.

Estabelecimento

A vida é um breve e rápido intervalo de tempo durante o qual nos dedicamos a estabelecer o que é melhor pros outros.

Civilidade

Mesmo depois dos problemas que tivemos, nunca deixou de me apertar a mão com firmeza, se bem que agora a imaginando meu pescoço. 

11.12.14

Andar

Correr, nós já nascemos sabendo. O difícil é aprender a andar. 

22.11.14

Tudo

Não fosse tudo
Como uma criança que a fingir sobe
Uns degraus que pintou no chão...

(Pessoa)

A vida

A vida é assim, Senhor?
Desabam mesmo
a pele do rosto e os sonhos?

(Adélia Prado)

Água

Há mil potes
para uma água
imutável.

(Nauro Machado)

A sorte

Renard: “Nunca tive a sorte nem mesmo de perder um trem que depois se acidentasse.”

Um monstro

Um monstro de três cabeças e dez braços. Enquanto uma diz “Sim!”, outra diz “Não!”, outra “Talvez”. Enquanto oito mãos matam e roubam, duas cuidam, consolam, se lamentam e denunciam.

19.11.14

Ben Sirac

Do livro Sabedoria de Ben Sirac, do séc. II, em trad. de Benjamin Carreira de Oliveira:
Enorme dificuldade foi criada para todos os homens,
pesado jugo para os filhos de Adão,
desde o dia em que saíram do ventre materno,
até o dia em que voltarem para a mãe comum.
O objeto de seus pensamentos, o temor de seu coração,
é a espera angustiosa do dia da morte.
Desde o que está sentado no trono, na glória,
até o miserável sentado na terra e na cinza,
desdo o que traz a púrpura e a coroa,
até o que se veste com linho cru,
não é senão furor, inveja, perturbação, agitação,
medo da morte, ressentimento, lutas.
E na hora do repouso, no leito,
o sono da noite apenas muda as preocupações:
apenas iniciado o repouso,
imediatamente, ao dormir, como em pleno dia,
ele é agitado por pesadelos,
como quem fugiu da linha de batalha.
No momento de salvar-se acorda,
admira-se de que nada havia para temer.
Assim sucede com toda criatura, do homem ao animal:
a morte, o sangue, a luta e a espada,
a miséria, a fome, a tribulação, a calamidade.
E ainda:
Como as roupas, toda carne vai envelhecendo,
porque a morte é lei eterna.
Como folhagem verdejante em árvore frondosa
tanto cai como brota,
assim a geração de carne e sangue:
esta morre, aquela nasce.
Toda obra corruptível perece
e aquele que a fez irá com ela.

Mudança

Muito surpreso porque já entre os deuses greco-romanos havia mudança de sexo. Talvez ainda não tenha chegado a ler nem uma dúzia de mitos entre as se não me engano duas centenas deles costurados por Ovídio em suas Metamorfoses, e já conto dois casos. Um deles, o do adivinho Tirésias, que foi mulher durante “sete outonos”. O outro, o de uma mulher que, depois de violentada por Netuno, pede ao deus como desagravo que lhe concedesse o favor de nunca mais correr o risco de passar por aquilo. Como? Virando homem. E virou. De Cenide passou a assinar Ceneu, adquirindo posteriormente fama de guerreiro invulnerável.

14.11.14

Ideal

Vivemos num mundo tão distante do ideal, que pra alcançá-lo só mesmo de avião. 

8.11.14

Briga

Ninguém discorda que já tudo deu errado. A única briga é decidir em que continuar insistindo.

5.11.14

Arte e realidade

Foucault: “A descrição não é reprodução, é decifração.”

Cintio Vitier, poeta cubano: “el espejo no copia al reflejar/ (el cuarto solitario/ esplende en otro tiempo fabuloso,/ el hombre que se asoma no eres tú/ sino tu víctima o tu juez)”.

A primeira

O mundo condescende com toda e qualquer forma de reação. A coisa mais importante pra quem almeja ter as más ações legitimadas é convencer de que se trata de simples reações em sentido exatamente oposto. Conseguido isso, estão abertas todas as possibilidades, apagados todos os limites. Tudo na vida se resume a determinar quem fez a merda primeiro, porque depois que se estabelece quem fez a primeira merda, estão absolutamente desculpadas todas as seguintes.

3.11.14

As cordas

Li Ye, poeta chinesa da Dinastia Tang (618-905 d.C.), trad. Ricardo Portugal e Tan Xiao:
CANTO DE SAUDADE
Profundo, dizem do mar, suas águas
tão mais ao fundo chega a saudade
Mar sem margens, larga a sua praia
e mais longe alcança meu sentimento
Tomo o alaúde, subo as escadas
só no terraço, com a lua cheia
e esta canção que diz: estou triste
toco e arrebento as cordas, as tripas

Passadismo

Ezra Pound, Canto XV:
and the laudatores temporis acti
claiming that the shit used to be blacker and richer
Ou, na tradução de Grünewald:
e os laudatores temporis acti
a reclamar que a merda já fora mais escura e fértil

Miseráveis

É 15 de julho de 1949, e Camus está no carro do poeta Augusto Frederico Schmidt, então uma grande referência nas letras brasileiras apesar de hoje completamente esquecido, — Schmidt que havia cometido a grande infâmia de enriquecer como empresário, algo indigno de um vocacionado pelas Musas, sobretudo por Musas como as dele, espirituais, místicas, bíblicas, francesas, católicas: foi dono de uma prosaica rede de supermercados, entre outros empreendimentos. Mas, como eu ia dizendo, é 15 de julho de 1949, e Camus está no carro do poeta e empresário Augusto Frederico Schmidt, e nos conta:
No automóvel, peço que não me levem a um restaurante de luxo. E o poeta emerge de seus 150 quilos e me diz, com o dedo em riste: “Não há luxo no Brasil. Somos pobres, miseráveis”, dando tapinhas afetuosos no ombro do motorista engalanado que dirige seu enorme Chrysler.
(Além de judeu e católico, poeta e empresário bem-sucedido, místico e obeso, Augusto Frederico Schmidt foi presidente do Botafogo. Que biografia.)

29.10.14

The Cantos

A pilhagem de todas as civilizações pelas hordas bárbaras de um homem só. O amontoamento, no mesmo sítio, de todas as ruínas do globo. O refluxo não digerido de mil banquetes pantagruélicos.

27.10.14

Protagonismo

Eu gosto da democracia porque tudo que ela me exige em troca da sensação de protagonismo no drama da redenção cósmica é que eu digite o número certo.

As mortes

A morte como problema a ser vencido (o pecado original, a ressurreição, a reencarnação, a necromancia). A morte como problema a ser aceito (o aproveite enquanto é tempo). A morte como solução que se aguarda (o conforto do nada, o fim das dores). Finalmente, a morte não como problema nem solução, mas como fato natural, de peso igual ao nascimento, nem um pouco digna de choro ou indisposição (tudo se transforma, reorganiza-se).

Retas paralelas

Herman Melville e Walt Whitman nasceram ambos no mesmo ano de 1819, no mesmo estado de Nova Iorque, e de pais da mesma nacionalidade, anglo-holandesa. O primeiro foi de importante família calvinista; o segundo, de uma simples família quaker. Em 1851 Melville publicou Moby Dick, sua principal obra; Whitman publicou a primeira edição de Leaves of Grass em 1855. Melville morreu em setembro de 1891, seis meses antes de Whitman, que morreu em março de 1892. Apesar de tantas proximidades, parece que nunca nem se esbarraram.

22.10.14

O sangue

Poema da colombiana María Mercedes Carranza (1945-2003), tirado de El canto de las moscas (versión de los acontecimientos), livro de 1998, composto de 24 poemas muito breves dedicados cada um a uma região da Colômbia que foi cenário de algum episódio marcante de violência. O tanto de coisas em tão poucos versos: a assonância trivial de “rosas rojas”, do 3º verso, alongada pelas sibilantes “es”/“as” do verso seguinte, o único com 7 sílabas, dividindo o poema em duas partes de três versos com 3 ou 6 sílabas cada, a primeira parte a da ilusão embelezadora (o lugar comum, o verbo “poético”: “rosas rojas esparcidas”), a segunda a do choque do desvendamento (as coisas como elas são: “No son rosas, es la sangre”); o sangue que deixa de correr nas veias pra correr em “otros caminos”, os do rio; rio que é “dulce”, isto é, de águas mais densas que a água pura, graças à viscosidade do sangue...

DABEIBA
El río es dulce aquí
en Dabeiba
y lleva rosas rojas
esparcidas en las aguas.
No son rosas,
es la sangre
que toma otros caminos.

O eco e o terror

Homero, Ilíada, IV, 446-455, trad. Frederido Lourenço:
Quando chegaram ao mesmo sítio para se enfrentarem uns aos outros,
brandiram todos juntos os escudos, as lanças e a fúria de homens
de brônzeas couraças; e os escudos cravados de adornos
embateram uns contra os outros e surgiu um estrépido tremendo.
Então se ouviu o gemido e o grito triunfal dos homens
que matavam e eram mortos. A terra ficou alagada de sangue.
Tal como os rios invernosos se precipitam das montanhas,
atirando juntos o enorme caudal para a embocadura de dois vales,
e das poderosas nascentes vêm lançar as águas num oco desfiladeiro,
e lá longe nas montanhas o pastor chega a ouvir-lhes o estrondo —
assim era o eco e o terror dos que embatiam uns contra os outros.

19.10.14

Peculiaridade

Só mesmo o Brasil pra dar ao mundo essa espécie tão peculiar de artista recluso: o artista recluso que sempre aparece.

18.10.14

A lembrança

Havia dias em que a única razão por que não abandonava os livros pra se fazer motorista de ônibus era a lembrança de que não sabia dirigir. 

O fim

O mundo está pra acabar desde o anoitecer do primeiríssimo dia, que já Adão temeu que fosse último. 

17.10.14

Silêncio perfeito

QUANDO OUVI O ASTRÔNOMO ERUDITO

Quando ouvi o astrônomo erudito;
Quando as provas e as cifras foram dispostas em colunas à minha frente;
Quando me apresentaram mapas e diagramas para os somar, dividir e mensurar;
Quando, sentado, ouvi o astrônomo, no auditório onde ele palestrava sob aplauso;
Logo e sem explicação fiquei cansado e farto;
Até que, me levantando e saindo, caminhei a sós,
Pelo úmido e místico ar da noite, e a intervalos
olhava em perfeito silêncio pras estrelas.

§

WHEN I HEARD THE LEARN'D ASTRONOMER

When I heard the learn’d astronomer;
When the proofs, the figures, were ranged in columns before me;
When I was shown the charts and the diagrams, to add, divide, and measure them;
When I, sitting, heard the astronomer, where he lectured with much applause in the lecture-room,
How soon, unaccountable, I became tired and sick;
Till rising and gliding out, I wander’d off by myself,
In the mystical moist night-air, and from time to time,
Look’d up in perfect silence at the stars.

(Walt Whitman)

16.10.14

Prêmio

Prêmio de pior melhor metáfora da literatura ocidental (pior pelo mau gosto, melhor pela propriedade) para o pré-socrático Empédocles de Agrigento, que, segundo a tradução na qual o li, aparece chamando o mar de o “suor da Terra”.

A quantidade

“Não compensa nem um pouco ir a um show de jazz. A pessoa paga por uma hora de apresentação, durante a qual tem a oportunidade de ouvir — o quê? — três músicas? Um roubo...”

Solução

Buscando esvaziar um recipiente com água já até a metade, não bastará que o deixem apenas de encher. Outra medida indispensável será entorná-lo.

Origem

Sonhei que lembrava a Ilíada a quem reclamava comigo de o samba só falar de abandono e traição. “A literatura ocidental se inaugura com o drama de um corno.”

12.10.14

Equívoco

Estranho equívoco do repertório poético ocidental: as duas estrelas brilhando nos olhos da gente clara feito o dia. 

10.10.14

Injustiça

Se há uma coisa na vida que ele em hipótese alguma admite, é que se cometam injustiças na sua frente, razão pela qual vira rapidamente as costas.

29.9.14

Os melhores

Todo o problema norte-americano com o futebol se resume ao fato de que só pode haver algo de fundamentalmente muito equivocado com um esporte no qual eles não conseguem ser os melhores.

Precursor

Há um pseudoepígrafo chamado Livro dos Segredos de Enoque, ou Segundo Livro de Enoque, ou ainda Enoque Eslavo — já que o único manuscrito que existia era em tradução para o eslavo, até que se acharam fragmentos dele em copta —, uma grande loucura apocalíptica que busca lançar luz sobre episódios canônicos mais enigmáticos, como por exemplo o envolvendo a impiedade dos nefilim, entre outros. Ninguém sabe ao certo quando foi escrito — século I é a data mais provável —, nem a língua — provavelmente em grego —, nem se de autoria judaica ou cristã — possivelmente judaica.

Mas isso tudo apenas pra dizer que fui folheá-lo outro dia e, de cara, duas coisas me chamaram a atenção:

— o livro começa no mesmíssimo e tão conhecido clima kafkiano, com Enoque acordando de uma incômoda noite de sono e enxergando ao pé da cama dois homens — anjos de aspecto terrível — que o comunicam a intimação divina para uma visita aos céus;

— e o mais surpreendente: Enoque acompanha os tais anjos indo de céu em céu: 1º céu, 2º céu, 3º céu, 4º céu, e assim por diante, até o 7º céu, se não me engano. E depois conta o que viu em cada círculo: anjos, arcanjos, o trono de Deus... Sim, sim. Exatamente a viagem que Dante, mil e duzentos anos depois, vai refazer.

28.9.14

O pedido

Eu era capaz de jurar que somente pessoas vestidas como destaque de carro alegórico estavam autorizadas a chegar a um balcão de lanchonete e pedir um copo de morango com amora batidos na água de coco. Mas parece que não.

25.9.14

Nosso

Segundo o senhor Antônio Cândido, a literatura brasileira é, no conjunto, um Chevette caindo aos pedaços que, se é verdade que não vale nada, pelo menos é nosso.

20.9.14

Parte da realidade

¿Podemos hoy imaginar el mundo sin Don Quijote? Cuesta mucho. ¿Sin Hamlet? Cuesta mucho. Sin embargo, hubo una época en que no existían. Hoy ellos forman parte de la realidad porque fueron imaginados; lo que se imagina se convierte entonces en parte de la realidad indisoluble y ya no puedes entender la realidad sin lo que imaginó el escritor.

(Carlos Fuentes)

Desimportância

Carlos Fuentes, escritor mexicano falecido não faz muito, é autor de um ensaio belíssimo chamado, vejam vocês a consideração, “Machado de La Mancha”. Nunca o li, mas soube que nele Fuentes chama de milagre pra cima ao nosso Machado — um herdeiro solitário de Cervantes em pleno realismo romântico e naturalista oitocentista e, não bastasse isso, ainda por cima no Brasil, esse grande cu do mundo.

Acontece que Fuentes foi muito amigo de Milan Kundera, compartilhando com este a mesma concepção alternativa de romance. Se conheceram primeiro ainda na República Tcheca, quando Fuentes foi até Praga com García Márquez e Cortázar só pra conhecê-lo. E depois que Kundera se exilou na França, passaram a se frequentar com regularidade, já que Fuentes era embaixador do México em Paris justo naquele período, anos 60 ou 70, nem sei.

E se relembro esses dois fatos aparentemente sem relação é apenas porque de repente fiquei imaginando Fuentes falando pra Kundera sobre Machado, um autor que este certamente teria colocado em seu panteão, assinalando-o como precursor junto de Sterne, Diderot, Musil, Broch. E fiquei lembrando o que o próprio Kundera diz sobre o isolamento das línguas periféricas. Segundo ele, qual seria hoje a importância mundial de Kafka, tivesse este escrito em tcheco? Nós, infelizmente, sabemos a resposta.

A nossa e a deles

Entre a nossa ociosidade e a deles, há páginas de diferença.

14.9.14

A outra palavra

Hoy, al leer en un periódico una noticia sobre no sé qué película, tropecé con esta frase: el hombre no es un pájaro. Y pensé: decir que el hombre no es un pájaro es decir algo que por sabido debe callarse. Pero decir que un hombre es un pájaro es un lugar común. Entonces… entonces el poeta debe encontrar la otra palabra, la palabra no dicha y que los puntos suspensivos de “entonces” designan como silencio. Así, luche con el silencio.
 
(Octavio Paz, em carta de 23 de abril de 1967, ao também poeta Pere Gimferrer.)

10.9.14

Música

É incrível como todos os deuses do mundo ensejam boa música, mesmo os verdadeiros. 

7.9.14

Aplicativo

Hoje em dia já está quase tão difícil tomar um táxi sem o auxílio de um aplicativo pra celular quanto manter uma conversa.

Unanimidade

O único desacordo entre os homens é quanto ao que afinal justifica a violência.

6.9.14

Consciência

É preciso que as pessoas se conscientizem de que já são muitas as câmeras espalhadas para que se continue possível ser humano impunemente.

5.9.14

A invenção da barbárie

O mundo está terminantemente proibido de tudo quanto a Europa se cansa. 

Perspectiva

Os europeus que conquistaram as Américas e as civilizaram: colonizadores. Os mouros que civilizaram a Península depois de a conquistarem: invasores. 

Reconquista, o nome dado à expulsão dos colonos mouros, depois de quase oitocentos anos de presença na Europa. Depois de míseros quinhentos anos nas Américas, alguma chance de retomada indígena junto ao invasor europeu?