20.7.15

Afastamento

Segundo Lévi-Strauss, as artes (a pintura, a poesia, a escultura, a música) nasceram todas como ritos de cujos propósitos mágicos originais os envolvidos foram com o tempo se afastando até se tornarem apreciadores. 

18.7.15

Provincianismo

Onde quer que se esteja hoje em dia, ouve-se falar na província, em tom de queixa ou autocensura. Nunca esteve mais difundido o medo de ser provinciano. Bem, ele é infundado, pois presume a existência de um centro a respeito do qual seria fácil concordar e cujo papel como árbitro em todas as questões intelectuais seria incontestável. Até agora atribuiu-se esse papel a duas ou três metrópoles europeias. Ele terminou, ou ao menos reduziram-se estas a meros locais de difusão. Falar em província e pensar em interior pode ter funcionado na Alemanha dos anos 20, diante do brilho de Berlim; mas hoje, nem Londres nem Paris têm a última palavra em matéria de juízo crítico. A velha expressão ‘aqui é capital, ali é província’ tinha sentido, tratando-se do próprio país, na época do nacionalismo, pois era em relação a outras regiões do mundo uma sublimação do pensamento imperialista. Na nossa situação histórica [o ensaio é de 1962], na qual até as poderosas forças coesivas das ideologias políticas já não bastam para canonizar uma nova Roma, e na qual nenhum ‘bloco’ mais pode estar seguro de sua estrutura monolítica, a diferença entre província e capital já não se pode ratificar, e falar de provincianismo assume novo sentido. Província é toda parte, porque o centro do mundo não está mais em parte alguma, ou, ao contrário, porque o seu omphalos, em princípio, pode ser presumido em qualquer parte. Nisso a literatura adiantou-se à política: a capital literária do mundo pode ser Dublin ou Alexandria. Fica em Svendborg ou Meudon, em Rutheford ou Meran. Uma ilha próxima à costa sul-americana do Pacífico, uma datscha nas florestas russas, uma cabana de toros num lago canadense não são menos centrais do que os modestos apartamentos em Londres, Paris ou Lisboa aos quais se recolheram autores como Eliot, Beckett ou Pessoa.

(Enzensberger)

6.7.15

Respostas

Estamos aqui dando respostas a perguntas que nunca nos fizeram, e quase totalmente sem a consciência de que, se nos toleram as palavras não solicitadas, é apenas porque estas lhes servem de motivo para as deles.

As pessoas não querem saber a opinião dos outros, e se por acaso a pedem é só pensando na réplica.

Caridade

Há na raiz de toda crítica, mesmo das mais ofensivas, um fundo de piedosa caridade. Quem aponta um erro deseja vê-lo corrigido, e quem já não erra acaba sendo aprovado. Mais maldosa que a pessoa dedicada aos equívocos alheios, mais maldosa que a pessoa cujo prazer é apontar publicamente esses equívocos, é aquela que se cala diante deles porque tira o seu prazer de vê-los repetidos.

Epos

Ulisses não é apenas um dia que são todos os dias na vida de um homem que são todos os homens: é também um romance que são todos os romances, o ponto final do epos ocidental, a última (des)aventura possível a um herói já impossível, após o que tudo é repetição, e repetição ingênua. 

Vazão

A violência é no coração do homem uma fonte de jorro ininterrupto. Os antigos, em reconhecimento desse fato, não fizeram mais do que canalizar sua vazão através de meios institucionais, contentando-se com administrá-la. Foram os modernos, na pretensão reformista de extingui-la por completo, pretensão a cuja ilusão de sucesso não poderiam chegar senão por meio do represamento, que conseguiram fazê-la infiltrar-se por absolutamente tudo, a tudo contaminando. 

5.7.15

Ápices

O Messi tem ápices que nenhum outro jogador em atividade é capaz de alcançar, incluindo ele mesmo.

30.6.15

Problema

O grande problema da linguística — talvez maior do que a defesa da língua como ela é — se deve a que, por trás de cada um desses muitos desvios cometidos espontaneamente, existe um fundamento bem menos óbvio a ser apreendido pelos semicultos do que as meras normas gramaticais que determinam os acertos. Em outras palavras, o grande problema da linguística é que a gramática é normativa, e reivindicar o acatamento é sempre ação mais cômoda que a de compreender as causas da desobediência. Compreender o porquê dos equívocos já banais que no dia a dia mesmo a gente escolarizada insiste em cometer com a naturalidade da inconsciência requer bastante mais do que o necessário para não cometê-los. Fica parecendo maluquice para a totalidade dos leigos e não baixo número de estudantes, mas acertar um uso, ou mesmo ser capaz de elucidar suas regras, é bem menos custoso, exige bem menos, do que escavar a razão de uma possível inobservância quase generalizada. 

27.6.15

Último a chegar

Quando eu ouvia dizer que Ulisses eram as 24h na vida de um homem, e que Joyce, se não foi seu criador, foi ao menos quem mais longe levou a técnica do fluxo de consciência, eu imaginava que o livro fosse todo ele um jorro interminável com os pensamentos de Leopold Bloom durante sua perambulação por Dublin — talvez por sugestão de Grande Sertão: Veredas, um monólogo aparentemente sem fim que eu algumas vezes mal comecei. Vou descobrindo agora que não é bem só isso — são muitos e variados os psiquismos a que vamos tendo acesso, não só ao de Bloom. E, para além disso, o livro — verdadeiro compêndio de procedimentos narrativos, repositório de toda forma possível de texto escrito: o jornalístico, o ensaístico, o propagandístico, o jurídico etc. — é uma colagem de tudo o que numa cidade perpassa a vida de um homem, concentrado num único dia que por sua vez são todos os dias. 

Agora

A privacidade nunca foi tão necessária quanto agora que temos todos a mesma vida. 

15.6.15

Comigo

Parece que, no princípio, a boa relação com Deus não passava pela boa relação com os homens. Todos os patriarcas foram, ao mesmo tempo que fieis guardadores da aliança com Javé, desavergonhados ou inescrupulosos no trato com os outros. Abraão mentiu sobre o status de sua relação com Sara para se proteger e abandonou à morte a serva Agar junto a seu filho Ismael; Isaac enganou o pai cego e tomou o que era devido ao irmão mais velho; Jacó enriqueceu à custa do sogro, de cuja casa depois que estava rico fugiu durante a noite, malocando consigo todo o rebanho dele; Moisés cometeu homicídio e depois guiou o povo para fora Egito carregando o máximo de tesouro alheio que conseguiam carregar; Davi, não satisfeito com pegar a mulher de um general seu, ainda mandou matá-lo pra ficar com ela só pra si... Nada que fosse suficiente para desaboná-los aos olhos de Deus, a quem estranhamente continuavam fieis, de quem estranhamente continuavam protegidos. E não terá sido esse, fico me perguntando, o tipo de relacionamento que Cristo buscou restaurar, com todo a defesa de publicanos e pecadores? “Danem-se os homens, o negócio voltou a ser comigo.”

Joyce

Todo o virtuosismo técnico de Ulysses não nos deve fazer esquecer a baixeza da matéria que o compõe. Pode ser que o livro esteja repleto de charadas eruditas — como se gosta de lembrar —, mas tanto quanto de imagens do mais profundo mau gosto. Por exemplo, esse trecho tão engenhosamente executado, em que a leitura de um jornal é apresentada em paralelo — ou em que a redação da imprensa diária é igualada — ao ato de... bem, leiam vocês, na pioneira tradução do Houaiss:
Refestelado no trono desdobrou o jornal virando as páginas sobre os joelhos nus. Algo novo e fácil. Não há grande pressa. Demorar-se um pouco. Nossa novidade premiada. O golpe-de-mestre de Matcham. Escrito pelo senhor Philip Beaufoy, clube dos Playgoers, Londres. Pagamento à razão de um guinéu por coluna foi feito ao autor. Três e meia. Três libras e três. Três libras treze e seis.
Calmamente ele lia, dominando-se, a primeira coluna e, cedendo mas resistindo, começou a segunda. A meio, uma última resistência cedendo, permitiu que os seus intestinos se aliviassem de todo enquanto lia, lendo ainda pacientemente, toda ida aquela ligeira prisão de ventre de ontem. Espero não seja demasiado grosso e provocar hemorroidas de novo. Não, está exato. Assim. Ah! Constipado, uma tablete de cáscara sagrada. Vida podia ser assim. Aquilo nem o agitava nem o comovia, mas era algo rápido e limpo. Imprime-se qualquer coisa hoje em dia. Época idiota. Lia adiante sentado calmo sobre o próprio odor montante. Limpo certamente. Matcham pensa frequentemente no golpe-de-mestre com que ganhou dessa bruxa gargalhante que agora. Começa e termina moralmente. A mão na mão. Sagaz. Remirou o que lera e, no que sentia verter sua água calmamente, invejou com carinho o senhor Beaufoy que escrevera aquilo e recebera de pagamento três libras treze e seis.

6.6.15

Nietzsche

Quando lemos Nietzsche, o espetáculo que testemunhamos é o de alguém que se põe a combater, ora triunfante, ora resignado, o surgimento de um mundo que nós, por nossa vez, já encontramos feito, já que nos deu à luz: um mundo em que todo o mundo tem direitos, um mundo em que todo o mundo tem razão, um mundo em que todo o mundo, se não é capaz de aprender, ao menos o é de se informar. O que Nietzsche passa todas aquelas páginas tentando fazer é nos alertar, a nós que o lemos hoje, para o fato de que a minha existência e a sua, tal como elas são, representam um retrocesso, um desperdício de séculos e séculos de história: não foi para a espécie chegar a gente como a gente que no princípio Homero e Sófocles existiram. Algo deu muito errado no caminho. E esse algo foi o cristianismo, grande responsável pela contaminação da Europa com o vírus da dignidade humana, que pôs tudo a perder.

Confessio

A minha têmpera tem na família um ilustre precursor, o irmão mais velho do meu pai, que por sua vez está entre os mais novos. Mesmo com quase nenhuma convivência (até hoje foram pouquíssimos os encontros, ainda mais escassas as conversas), tenho com ele pelo menos quatro grandes similaridades: tanto ele quanto eu fomos batistas durante a juventude; tanto ele quanto eu fomos seminaristas de nossas igrejas e nos dedicamos incompletamente ao estudo da Teologia, que depois ele trocou pelo Direito e eu pela Literatura; tanto ele quanto eu quase nunca estamos nas reuniões de família, acho que ele bem menos do que eu, que de vez em quando ainda dou as caras no Natal, ele nem isso; tanto ele quanto eu nos dedicamos aos livros, sobretudo aos usados, muito embora o interesse de meu tio seja um bocado mais desordenado que o meu: os meus poucos livros cabem num mísero cômodo, os dele demandam não sei quantos apartamentos. E tudo isso — percebo agora — me salva. Hoje minha madrinha — a pessoa em cuja casa eu, quando criança, tomava café todas as manhãs, e ao lado de quem lançava para um batalhão de pombos as bolinhas que fazíamos à mesa com o miolo que ela e meu padrinho me habituaram a retirar do pão, e que hoje em dia eu quase não visito — esteve aqui em casa e, na hora de se despedir, me chamou sorrindo pelo nome do irmão mais velho, como que me desculpando pelas negligências todas.

29.5.15

O trono, a coroa

Sem ter o que fazer, observou o carro de lixo e logo tentou empurrá-lo, acabando apoiado nos varais. A montanha de lixo tremeu, deixando escorregar pelos lados avalanches de cascas, verdes e vermelhas. Descobrindo afinal uma utilidade, Fraji pôs o pé direito sobre uma das rodas, segurou-se na grade e subiu. Hesitante, enfiou suas perninhas no lixo podre e retesou-se. Olhou em torno de si: via-se mais alto que todos nós, mais alto que o mundo inteiro, sobre um trono multicor de papéis amarrotados, cascas de ovo e legumes. Desassossegadas, as moscas verdes e douradas aureolavam-no de uma coroa movediça, que brilhava ao sol. Então, levantou os braços ao céu e gritou, convencido como um galo: — Eu sou o rei! Eu sou o rei!

— Albert Memmi, A estátua de sal.

Heterogeneidade

Há tantas direitas no Brasil quantos são os motivos de autodesprezo. 

Grande marcha

Grande marcha em favor do que ninguém é contra.

Providências

Todas as vezes que acredito ter algo de muito importante a comunicar, a primeira providência que tomo é garantir que não haja quem me escute. A segunda é permanecer calado.

Passado

Duas perguntas que nunca se devem fazer a um homem: o que ele cometeu para ser preso, como ele adquiriu sua fortuna.

28.5.15

Extemporânea

Octavio Paz sobre o lugar da poesia no mundo moderno:
Em toda sociedade funciona um sistema de proibições e autorizações: o domínio do que se pode fazer e do que não se pode fazer. Há outra esfera, geralmente mais ampla, dividida também em duas zonas: o que se pode dizer e o que não se pode dizer. As autorizações e as proibições compreendem uma gama rica de matizes e que varia de sociedade para sociedade. Não obstante, umas e outras podem dividir-se em duas grandes categorias: as expressas e as implícitas. A proibição implícita é a mais poderosa: é o que “por sabido se cala”, o que se obedece automaticamente e sem reflexão. O sistema de repressões vigente em cada sociedade repousa sobre esse conjunto de inibições que sequer requerem o assentimento de nossa consciência./ No mundo moderno, o sistema de autorizações e proibições implícitas exerce influência sobre os autores por meio dos leitores. Um autor não lido é um autor vítima da pior censura: a da indiferença. É uma censura mais efetiva que a do Índice eclesiástico. Não é impossível que a impopularidade de certos gêneros — a da poesia, por exemplo, desde Baudelaire e dos simbolistas — seja o resultado de uma censura implícita da sociedade democrática e progressista. O racionalismo burguês é, por assim dizer, constitucionalmente avesso à poesia. Daí que a poesia, desde as origens da era moderna — ou seja: desde o fim do século XVIII — se tenha manifestado como rebelião. A poesia não é um gênero moderno, sua natureza profunda é hostil ou indiferente aos dogmas da modernidade: o progresso e a supervalorização do futuro. É verdade, alguns poetas têm crido sincera e apaixonadamente nas ideias progressistas, mas o que dizem realmente suas obras é algo muito diferente. A poesia, qualquer que seja o conteúdo manifesto do poema, é sempre uma transgressão da racionalidade e da moralidade da sociedade burguesa. Nossa sociedade crê na história — periódicos, rádio, televisão: o agora — e a poesia é, por natureza, extemporânea.

23.5.15

Solução

Para a segurança das pessoas de bem — que até podem ser assassinadas, desde que por outras pessoas de bem —, fazer de cada morro e favela um presídio de segurança máxima, espécie de bairro penitenciário com uma única entrada e saída estritamente controlada pela polícia, do qual seus moradores só pudessem sair, depois de minuciosamente revistados e com hora certa para voltar, mediante a apresentação de um passaporte, no caso um documento que lhes comprovasse o subemprego. 

22.5.15

Homens do mundo

De A fazenda africana, da baronesa Karen Blixen (dinamarquesa que viveu por 17 anos numa fazenda de café no Quênia), livro que tem duas traduções para o português, uma já antiga do Per Johns e outra mais recente pela Cosac Naify:
A falta de preconceito dos nativos é uma coisa extraordinária para quem espera encontrar os tenebrosos tabus dos povos primitivos. Ela se deve, acredito, ao seu contato com uma grande variedade de raças e tribos, e ao animado intercâmbio humano de que a África Oriental foi palco, trazido primeiro pelos antigos mercadores de marfim e de escravos e, em nossos dias, pelos colonos e aventureiros. Quase todos os nativos, até o mais insignificante jovem pastor das planícies, teve em algum momento contato com uma enorme variedade de nações, tão diferentes entre si e em relação a ele, como um siciliano é diferente de um esquimó: ingleses, judeus, bôeres, árabes, indianos, somalis, suaílis, massais e kavirondos. No que concerne à receptividade de ideias, o nativo é mais homem do mundo do que o colono ou missionário suburbano ou provinciano, que se desenvolveu numa comunidade uniforme, com um conjunto estável de ideias. Em grande parte os desentendimentos entre brancos e nativos decorrem desse fato.

21.5.15

A volta

Nunca sair de um local para onde não se gostaria de voltar. 

No princípio (2)

É muito compreensível que os hebreus — um povo nômade — tenham concebido o castigo pelo pecado sob a forma de expulsão de um paraíso. Concepção compreensível no caso deles, mas que faria pouquíssimo sentido para outros povos — sedentários, moradores de regiões férteis —, em cujos mitos, não por acaso, é relativamente frequente a figura do deus criador que, ante a desobediência dos homens, em vez de expulsá-los de sua presença, antes os abandona à própria sorte retirando-se de entre eles. De fato: como poderiam supor que haviam sido expulsos de um jardim, se continuavam a viver em meio a um?

No princípio

No mito suaíli da criação do mundo — de inspiração islâmica, aparentemente sufi —, Deus ama tanto a alma de Maomé que acaba de moldar a partir da luz, que então decide criar os homens só para que tivesse a quem enviá-lo. Depois, cria para si um trono coberto por um tapete que se estende pelos céus até o limite do espaço, feito com as cores do arco-íris. A terceira coisa que Deus cria é uma tábua imensa que contém a descrição completa e detalhada de rigorosamente todos os eventos, assim do passado como do futuro. Essa tábua é chamada a Mãe dos Livros, porque todos os livros escritos, em todas as línguas, contêm apenas fragmentos de seu conteúdo. Dentre os vários anjos que residem no céu, há um anjo de mil cabeças, com mil bocas em cada cabeça, e cada boca proclamando a glória de Deus em um idioma diferente. Além desse anjo, chama a atenção um outro, cuja metade esquerda é de fogo e a direita é de neve, e a neve não apaga o fogo nem o fogo derrete a neve, porque sob as ordens de Deus a conciliação dos contrários é possível, razão pela qual os homens coexistem.

18.5.15

Constante

A grande constante da experiência humana: a violência. As guerras têm nome porque são familiares como os filhos. Quase nunca cessam, já que não há no mundo um único empenho que, quando menos, não as justifique. Inclusive e sobretudo o empenho pela paz, cujo sentido, não por acaso, dá-se por via negativa: breve intervalo de tempo estranhamente caracterizado pela ausência das agressões que o possibilitaram.  

17.5.15

Da utilidade

Sobre o “Canto de Débora” — poema do capítulo 5 de Juízes, em celebração a uma vitória dos invasores hebreus contra os habitantes locais —, oferece o assiriólogo francês Jean Bottéro, em Nascimento de Deus: a Bíblia e o historiador, uma grande refutação da ideia segundo a qual a poesia é inútil:
Tratava-se apenas de um punhado de homens, microscópicos, perdidos num momento qualquer da história, que lutavam sob a chuva por um lote de terra, sem que a ridícula agitação que faziam tivesse, na verdade, contribuição alguma para o homem e seu progresso, e que permaneceriam, eles e sua agitação, escondidos e esquecidos, como infinitos outros, sob a poeira do tempo, se esse canto imortal não os alçasse a um plano cósmico, universal e eterno, e os transformasse, aos olhos dos leitores, num momento crucial da história do mundo.

16.5.15

Leitura

Nenhuma leitura merece tanta desconfiança quanto aquelas que nos corroboram.

27.4.15

Pássaro do real

Sophia de Mello Breyner Andresen: “Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso.”

26.4.15

Esfera da poesia

A esfera da poesia não se encontra fora do mundo, qual fantástica impossibilidade de um cérebro de poeta: ela quer ser exatamente o oposto, a indisfarçada expressão da verdade, e precisa, justamente por isso, despir-se do atavio mendaz daquela pretensa realidade do homem civilizado.

— Nietzsche, Nascimento da tragédia, trad. Guinsburg.

Signo da falta

Vinda do liceu, ou já em férias, só me restavam forças para, na imobilidade, ler, acrescentando-lhes o gozo ilícito do meu próprio corpo. Sob o signo da falta, eu gozava e lia e, agitando-me, sem violência, nesta contradição fundava a escrita. 
De Um falcão no punho, da portuguesa Maria Gabriela Llansol. Quanta coisa em tão poucas frases. A literatura associada à masturbação, ambas nascendo da falta. A leitura como masturbação: gozo imóvel. A escrita como masturbação: agitação sem violência. A contradição em que se funda a literatura: viver por meio de palavras, agir por escrito... 

Gênesis

Quando Deus anuncia a intenção de criar o homem, ele diz que o fará “à sua imagem e semelhança”, — semelhança esta que, segundo o próprio Deus, no capítulo seguinte, o homem só alcança com a queda, quando se torna “um de nós” — no princípio Deus falava no plural —, devido ao conhecimento do bem e do mal adquirido com a ingestão do fruto proibido.

Os homens andavam nus diante do Deus que se encarrega, ele mesmo, de confeccionar as túnicas com que, fora do Éden, se ocultarão uns dos outros.

Pela morte do irmão, Caim é condenado a ser um “errante fugitivo sobre a terra”. Mas assim que é expulso do solo que antes cultivava ele encaminha-se a outra região e logo funda uma cidade. 

20.4.15

Rodin

Reunião de conversas entre Auguste Rodin e seu discípulo Paul Gsell, transcritas por este. Gsell tem uma necessidade meio pretensiosa — francesa? — de escrever bonito, como alguém com muita sensibilidade escreveria — o que por vezes o leva a descrições do que não chega a nos interessar, ou a mais adjetivos do que o necessário. Mas nada, rigorosamente nada que inviabilize a leitura e nos impeça de aprender horrores quando finalmente sai de cena e deixa a palavra com o mestre. A edição ainda vem ilustrada por algumas esculturas, ora quando mencionadas, ora quando lançam luz sobre o tema discutido. Eu, que já passei por tantas e tantas edições do livro do Rilke a respeito de Rodin — de quem foi secretário —, agora me arrependo.

Relatividade

Quando o homem moderno se encontra em face de uma estátua grega primitiva ou de uma igreja românica ou de um quadro barroco, não é lícito dizer: o artista ainda não sabia esculpir uma estátua à maneira de Fídias ou ainda não sabia construir uma catedral gótica ou já não sabia pintar como Rafael. Isto é falso classicismo. É preciso admitir que aqueles artistas pretendiam fazer coisas diferentes, porque a sua atitude em face da natureza e da vida era diferente. Não há “épocas primitivas” nem “épocas decadentes”; só há épocas que compreendemos bem porque a nossa própria atitude é parecida, e outras que compreendemos menos ou só com dificuldade porque diferem muito da nossa. E essas apreciações não permanecem iguais para sempre e até o fim do mundo — como acreditava o classicismo — mas mudam conosco. Só assim se explica que o século XIX tivesse descoberto a beleza das catedrais góticas, quando até então a palavra gótico tinha sentido pejorativo. O termo barroco percorreu a mesma evolução, ao passo que outras épocas da arte, outrora celebérrimas, hoje nos agradam menos.

(Carpeaux)

9.4.15

O ridículo da generosidade

A grandeza de Dom Quixote a seus próprios olhos não depende do rebaixamento de todo o mundo à volta. A autoimagem impropriamente elevada que faz de si não surge do contraste com uma imagem impropriamente diminuída que faz do mundo — a nossa forma de ridículo. Dom Quixote julga-se indispensável a um mundo que entretanto é absolutamente digno de alguém tão extraordinário quanto ele. Não apenas o valor de suas coisas é exagerado — o seu pangaré que é o maior de todos os cavalos; a pobre lavradora, objeto de seus afetos, que é uma princesa e grã-senhora —, mas também qualquer vendinha de beira de estrada é uma fortaleza; o dono de qualquer espelunca é um nobre castelão; qualquer prostituta é uma “dama graciosa”, uma “donzela formosa”...

5.4.15

Fortuna

A Roda da Fortuna chegou trazida ao país mas, por falta de manutenção, logo deixou de girar.

24.3.15

A vidinha como ideal

No primeiro capítulo do romance, Robinson Crusoé aparece um misto de Filho Pródigo com Jonas, que decide abandonar a casa paterna para se aventurar pelo mundo, levando desgraça a toda uma embarcação com sua presença, já que chega até ela depois de o pai lhe assegurar uma vida de infortúnio caso se negasse a cumprir o fácil destino que lhe estava reservado. E que destino era esse? O da mediocridade burguesa, elevada aí a verdadeira sabedoria, a verdadeira bem-aventurança. Assim como Jonas carrega consigo o naufrágio quando desobedece a Deus e foge, da mesma forma Robinson Crusoé desperta a ira divina ao rebelar-se contra a tranquilidade inócua de sua arqui-invejada “condição média”, e isso em troca ou “dos sofrimentos e das asperezas, dos trabalhos e das dores da fração mecânica da humanidade”, ou “dos embaraços que o orgulho, o luxo, a ambição e a inveja podem trazer para a camada superior”.

20.3.15

Amizade

A amizade não foi inventada contra a solidão mas contra o ridículo. A grande atribuição do amigo, a única absolutamente indispensável, é rir com você de quem ri de você.

12.3.15

Imitatio

Por que a história do cristianismo é tão pródiga em movimentos refratários à autoridade religiosa, invariavelmente fundamentados em hermenêuticas legitimadas pela relação toda especial do insubmisso com Deus?

Porque os cristãos foram chamados à imitação de Cristo.

11.3.15

Nada melhor

Contra o ridículo em nome de uma ideia, não se pensa em nada mais eficiente que o ridículo em nome da contrária.

6.3.15

Motivo ideal

Acabar com a barbárie alheia foi sempre o motivo ideal para a imposição da própria. 

Divergência

Ninguém discorda que a desigualdade seja a causa principal da violência no Brasil. Se alguma divergência ainda existe, é apenas quanto ao que afinal precisaria ser exterminado, se a pobreza ou os pobres.

Privilégio

De todas as privações que o grosso da população brasileira padece desde o princípio, aquela menos contemplada por todos os governos, que até hoje nada fizeram no sentido de remediá-la, é a de se livrar do país. Entre as muitas coisas das quais nossos pobres estão impedidos, escapar ao Brasil lhes é sem dúvida a mais distante. Além do acesso amplo e irrestrito a qualificação profissional, a ensino superior, a tratamento médico, a moradia e a saneamento básico, à totalidade dos pobres falta ainda a liberdade em relação a onde nasceram. Convém, e com urgência, que as autoridades busquem uma solução para todos os brasileiros que, apesar de asfixiados pelo país, não disponham das condições para trocá-lo. Nossa justiça social não estará completa enquanto essa triste realidade não for mudada. Desertar não pode ser para sempre um privilégio.

1.3.15

Aventura

O máximo de aventura a que se permitiu na vida foi ir de ônibus aonde teria chegado de metrô.

21.2.15

Regresso

Com a provável exceção dos indígenas, que já cá estavam antes de todos sem que disso parecessem se queixar — e se digo provável é porque nada nos garante que não se queixassem antes da chegada dos demais e que só tenham passado a valorizar a terra depois de a verem perdida —, com essa provável exceção, como eu ia dizendo, a totalidade da população brasileira foi composta, em sua origem, por gente que, se pudesse, ou tivesse outra melhor opção, de modo algum teria vindo para o país, desde sempre o pior de todos os destinos, mesmo quando não o menos lucrativo. Ninguém, rigorosamente ninguém jamais veio em definitivo para o Brasil senão pelas impossibilidades ou de continuar onde estava ou de se encaminhar a outra parte mais promissora. Ninguém. Circunstância que torna demasiado compreensível que agora, quatrocentos, trezentos, cem, setenta, quarenta anos depois, tirada já a corda do pescoço familiar ou a própria barriga da miséria, seus netos desejem com entusiasmo o regresso ao paraíso do qual os avós, ou por inépcia, ou por oportunismo, ou por puro desespero, se viram privados. No fundo não se trata, portanto, de deixar o Brasil. Mas, antes, de nunca terem sequer chegado a ele, a não ser fisicamente, esse pormenor que todos sabem da mais absoluta insignificância, mesmo antes do telégrafo, do telefone, do rádio, da televisão, da internet.

16.2.15

Mesmo verso

O que Gerardo Diego disse do rio Douro, não poderíamos nós também dizer dos homens, todos —
a cantar siempre el mismo verso,
pero con distinta agua?

10.2.15

Volta

Um dos grandes benefícios dos sonhos é nos dispensarem do caminho de volta.

Ideia

Se todas as sociedades sempre terem sido injustas como são — isto é, hierarquicamente divididas em classes sociais profundamente desiguais às quais se pertence segundo a transmissão imerecida de um suposto mérito familiar — é motivo para a rejeição de toda e qualquer idealização utópica de como as sociedades deveriam ser — p. ex. igualitárias, sem classes, meritocráticas etc. — , como admitir um padrão de humanidade que seja determinado não pelo que os homens sempre foram em todas as épocas — inclusive cruéis o quanto possível —, mas por uma ideia elevada e contranatural, própria de anjo, do que necessitam chegar a ser?

2.2.15

Nada

Chuang Tzu: “A Vila do Nada, cujo ermo se espraia em todas as direções rumo a Lugar Nenhum.”

Experiência

É diretamente da luta contra heterodoxias tão influentes como a dos cátaros e a dos valdenses, entre algumas outras, que surgem na Igreja, em princípios do séc. XIII, instituições tão decisivas como a Ordem de São Domingos, com a mescla do atraente ideal de pobreza imposto pelos heréticos (o que também explica, nesse mesmo período, o surgimento dos franciscanos: é por falta de pobreza que essa gente abandona a Igreja? então segurem aí essas ordens mendicantes) a um rigoroso empenho apologético, e o aparato agora permanente da Inquisição, não por acaso quase sempre (ou mesmo sempre, não sei) em mãos dominicanas. A experiência albigense lhes havia ensinado: melhor do que arrancar o mal pela raiz é impedir que ele seja semeado.