O grande problema das eleições e premiações literárias, aquilo que realmente nos deixa rendidos, sem saber o que fazer com elas, nem é a multidão de merecedores preteridos em nome de figuras questionáveis, mas, bem ao contrário, o número nem um pouco menor de merecedores justamente lembrados. Se só os maus escritores fossem os premiados, e as escolhas fossem invariavelmente políticas, seria ótimo. Mas o que fazer com um Nobel que, se nunca premiou nem Tolstoi nem Joyce nem Borges nem Nabokov nem Roth, por acaso não deixou de premiar nem Thomas Mann, nem William Faulkner, nem Samuel Beckett, nem Octavio Paz, nem Wislawa Szymborska?
8.10.15
2.10.15
Se
De acordo com Tertuliano, se Deus quisesse que vestíssemos roupas coloridas, as ovelhas não seriam brancas.
1.10.15
O riso
A sátira é um olhar desprezivo para o ridículo, nascido da superioridade. O cômico, por sua vez, é um olhar benevolente, fruto da identificação. No cômico, nós rimos de nós enquanto rimos dos outros; na sátira, rimos apenas dos outros.
28.9.15
Apocalipse
O fundo inconsciente de todo conservadorismo é a crença primordial de que determinados gestos são as traves que sustentam o céu sobre as nossas cabeças, impedindo-o de desabar. Ou as coisas continuam da forma como disseram ao conservador que elas sempre foram, ou então o sol se tornará um imenso pedaço de carvão apagado, a lua gotejará sangue, os astros cairão por terra como caspa, e os montes se precipitarão no mar, que enfim escoará até não deixar uma gota.
23.9.15
Origens
Nada explica melhor o Brasil do que a crônica das suas origens. Que outra coisa seria o “negro metido a inglês” lançado em meados do séc. XX por Graciliano Ramos contra Machado de Assis, além de mera atualização contextualizada do seiscentista “um paiaiá mui prezado de ser caramuru”, de Gregório de Matos?
21.9.15
Para sempre
Os contos de fadas operam a popularização medieval do herói mitológico, e o romance, a sua democratização burguesa. O herói romanesco tem nome, genealogia e endereço (ao menos até Kafka), assim como o dos mitos; ao passo que o herói dos contos de fada é a rigor qualquer menino ou menina — “príncipe” ou “princesa” —, filhos de pai e mãe quaisquer — genéricos “reis” e “rainhas” —, habitantes de um reino em geral não identificado em algum lugar “muito, muito distante”. Em outras palavras, porque os burgueses têm a pretensão da singularidade, seus heróis estão condenados ao fracasso, como estão os heróis trágicos; enquanto nos contos de fadas camponeses, satisfeitíssimos no seu anonimato — chamando-se quando muito João ou Maria, essa forma nominal de não ter nome —, lutando apenas contra problemas comezinhos da vida, próprios das existências mais banais — como o ciúme dos irmãos, a negligência dos pais, a perseguição da madrasta —, sem qualquer outra ambição para além de uma monótona sobrevivência, afinal podem, vencendo aqueles imprevistos, sonhar com terminarem “felizes para sempre”.
Volta
Esta parte das Américas também não era cristã quando os portugueses chegaram e vestiram os índios.
19.9.15
Lição
Em sebos, não existe outro meio eficaz de não perder para sempre um livro que se quer, e que por qualquer motivo não se pode comprar, além de escondê-lo, o que mais frequentemente se consegue apenas com trocá-lo de lugar — eu mesmo acabo de esconder um livro sobre o caminho percorrido entre a alquimia e a química, isto é, entre o pensamento mágico e o científico, num canto pouco acessível reservado aos livros sobre animais domésticos. Se há uma lição que importa a um frequentador de sebos, é a de que não convém o desprezo por prateleira alguma, mesmo as menos promissoras, justamente porque quanto mais mal-frequentada uma estante, mais ideal ela é como esconderijo — sem contar que nada impede a um livreiro desavisado colocar um volume do José Guilherme Merquior intitulado O elixir do Apocalipse na seção de escatologia bíblica. E é por isso que de tempos em tempos cada qual deve passar em revista inclusive os livros de gurus ocidentais com apelidos indianos e os romances psicografados pela Zíbia Gasparetto, entre os quais não faz nem quinze dias encontrei escamoteado o Pele negra, máscaras brancas do grande Franz Fanon.
18.9.15
Paródia
Segundo Kierkegaard, a paródia é o último estágio do desenvolvimento de qualquer processo (estágio a que Borges dará o nome de Barroco). Isso trocado em miúdos significaria que, pra Kierkegaard, a burocracia é a paródia das relações humanas, assim como a velhice é a paródia da infância e a dobra é a paródia da linha reta.
Risco ou destino
O grande risco de todo esforço de preservação — se não mesmo seu destino inevitável — é a centralização dos gestos secundários.
17.9.15
Centro
Tratando da alegada facilidade do judeu europeu em adaptar-se ao exílio — “sem pátria mas radicado em um livro”, “em casa em qualquer lugar” —, Claudio Magris acrescenta que era como se para eles “o mundo inteiro fosse um bairro familiar” ou “a rua da infância em que se fala o próprio dialeto”. Imagem esta que, curiosamente, apenas invertida descreve com exatidão os contos de Bashevis Singer, os quais, se não apresentam muito mais do que os reles falantes de iídiche dos bairros judeus de Varsóvia, o fazem como se dessem a conhecer o centro do mundo.
9.9.15
Spinoza
No capítulo final de No tribunal de meu pai, Bashevis Singer menciona brevemente o deslumbramento que, para escândalo da ortodoxia paterna, o panteísmo do anatematizado Spinoza lhe causou. Descoberta da mais suma importância, já que é esse panteísmo que sem dúvida alguma explica a possibilidade da sua obra. Se Deus é tudo quanto existe, logo tudo leva em si a natureza da divindade, mesmo aquilo que há de mais desmerecido sobre a terra, como era a precária existência de tudo que o cercava. Se Spinoza estava certo, Singer não precisava deixar o seu fim de mundo para chegar ao centro, que de repente descobria estar em toda parte. E foi esse encarecimento do todo pela imanência de Deus que — desconfio — lhe permitiu escapar do horror provinciano pelo provincianismo.
Impossível
Não deixam de ser singulares as coisas a que se dão o mesmo nome. Nenhuma situação no mundo é realmente como outra. Os problemas dos homens repelem o rigor fácil das equações. Os dilemas e quem os protagoniza não são intercambiáveis. Cada ação iniciada ou abortada modifica. Jamais duas frases seguidas foram proferidas pela mesma pessoa. Toda incoerência é absolutamente impossível.
7.9.15
Singer
Era limitadíssimo o ambiente do qual Bashevis Singer tirava suas personagens, suas histórias. Chamar provinciano a tudo que o cercava seria generosidade. Mais do que afastado do centro, aquele era um mundo isolado mesmo da periferia. Em seus contos, Singer não escreveu sobre europeus cosmopolitas, também não sobre os poloneses como um todo, e nem mesmo sobre os judeus poloneses em geral, — mas sobre um grupo ainda mais específico de homens e mulheres, fruto de circunstâncias ainda mais estreitamente determinadas: certo tipo, geralmente pobre e deseducado, de judeu polonês adepto do misticismo hassídico — esse grande resquício medieval —, habitante ora de cidadezinhas interioranas, ora de ruas absolutamente insignificantes do subúrbio de Varsóvia. Além de material tão desprestigioso, enclausura-se ainda mais escrevendo em uma língua que a Segunda Guerra deixou praticamente sem leitores. Apesar disso — ou precisamente por isso, quem sabe? —, é tão magnífico, que acaba traduzido para cerca de sessenta idiomas, ilustrando talvez melhor do que nenhum outro autor moderno o preceito tão disputado — atribuído a Tolstoi — segundo o qual a universalidade, em arte, estaria na pintura da própria aldeia.
31.8.15
Diferença
Semelhantemente a nós, os deuses também conheciam tudo sobre os homens, inclusive as intenções mais íntimas. A diferença é que sabiam perdoar.
Branco
Todos os discursos, de todas as áreas, já estão prontos. Um texto jurídico escreve-se a si mesmo. De igual modo o jornalístico, o acadêmico, o literário. Não há fenômeno mais raro do que a página em branco.
29.8.15
Tempo
Não é porque um autor antigo faz sentido ainda hoje, que se trata de alguém à frente do seu tempo. Ainda que se discuta o porquê: talvez sejamos nós que andamos aquém do nosso, ou — melhor — seja o caso da circularidade que nos leva sempre ao mesmo. Mas não é porque um autor antigo faz sentido ainda hoje, que se trata de alguém à frente do seu tempo.
Se
Um dia pesquisadores europeus se reuniram, olharam para os não-europeus em geral, e então se perguntaram: “Se, contra todas as evidências, eles não são menos humanos do que nós, e é verdade que demônios não existem?...”
19.8.15
Silêncio
... o profundo silêncio que se foi acumulando pouco a pouco em nosso interior. Começamos a nos calar quando crianças, à mesa, ante nossos pais que ainda nos falavam com aquelas velhas palavras sangrentas e pesadas. Nós não abríamos a boca. Não abríamos a boca em protesto e por desdém. Não abríamos a boca para dar a entender a nossos pais que aquelas grandes palavras já não nos serviam mais. Tínhamos conosco outras palavras. Não abríamos a boca, cheios de confiança em nossas novas palavras. Utilizaríamos essas nossas palavras mais tarde, com gente que as compreendesse. Éramos ricos em nosso silêncio. Agora estamos envergonhados e desesperados, e conhecemos toda a miséria. Nunca mais nos livraremos dela. Aquelas grandes palavras velhas, que serviam aos nossos pais, já são moedas fora de circulação e ninguém mais as aceita. E com as novas palavras, que agora percebemos que não têm valor, não se compra nada. Não servem para estabelecer relações, são aguadas, frias, infecundas. Não nos servem para escrever livros, nem para manter ao nosso lado uma pessoa querida, nem para salvar um amigo.
Excesso
Segundo Gracián, “o muito é descrédito”. Ou, por outra: “todo o demasiado é vicioso”. Por esse motivo — e em antecipação à suspeita de Brecht quanto aos grandes homens, que seriam pequenos demais para se contentar com a companhia de uma mulher: “os gigantes costumam ser os verdadeiros anões”.
7.8.15
Boas
De acordo com Franz Boas, o valor da antropologia estaria em (1º) nos fazer compreender as raízes da nossa civilização, (2º) nos incutir o valor relativo de todas as formas de cultura e (3º) nos impedir a hipervalorização do nosso próprio tempo, que alguns chegam ao cúmulo de julgar o estágio final da evolução humana — lições sem as quais, segundo ele, não só nos privamos dos benefícios que se adquirem com o conhecimento de outras culturas, como nos incapacitamos para uma crítica objetiva à nossa própria.
6.8.15
4.8.15
30.7.15
O riso
O riso antigo nasce do contraste com modelos existentes (o nobre que não age como os nobres devem agir, o político que não atende aos interesses da classe para a qual os políticos devem governar, os padres que não vivem conforme os padres devem viver etc.). O riso moderno, por sua vez, nasce do contraste com modelos ideias (o burguês que se obstina em não ser gente, o representante de uma ordem política que se deve substituir por uma nova, o sacerdote de uma igreja que já não faz sentido existir...). Daí por que o riso antigo é sempre ferramenta conservadora (Aristófanes, Gregório de Matos: grandes reacionários), enquanto o riso moderno já pode ser (embora nem sempre seja) subversivo.
27.7.15
25.7.15
O começo
O que algumas pessoas mais gostariam de saber é quando aqueles que escrevem aforismos vão finalmente começar a escrever.
Propósito
O Brasil não foi feito para ser habitado. O Brasil foi feito para dispor as condições de ser deixado.
O Segredo
We dance round in a ring and suppose,
But the Secret sits in the middle and knows.
(Robert Frost)
But the Secret sits in the middle and knows.
(Robert Frost)
20.7.15
Abuso
O que as crianças muitas vezes fazem quando não querem ter um doce repartido com as demais — não é lá muito diferente o que Joyce faz com o romance: abusa de tal forma dos procedimentos disponíveis, que depois quem teria ainda a coragem de retomá-los?
A negligência
Há quem gostaria de ter lembrada a negligência com que se ocupou de não acabar esquecido.
Afastamento
Segundo Lévi-Strauss, as artes (a pintura, a poesia, a escultura, a música) nasceram todas como ritos de cujos propósitos mágicos originais os envolvidos foram com o tempo se afastando até se tornarem apreciadores.
18.7.15
Provincianismo
Onde quer que se esteja hoje em dia, ouve-se falar na província, em tom de queixa ou autocensura. Nunca esteve mais difundido o medo de ser provinciano. Bem, ele é infundado, pois presume a existência de um centro a respeito do qual seria fácil concordar e cujo papel como árbitro em todas as questões intelectuais seria incontestável. Até agora atribuiu-se esse papel a duas ou três metrópoles europeias. Ele terminou, ou ao menos reduziram-se estas a meros locais de difusão. Falar em província e pensar em interior pode ter funcionado na Alemanha dos anos 20, diante do brilho de Berlim; mas hoje, nem Londres nem Paris têm a última palavra em matéria de juízo crítico. A velha expressão ‘aqui é capital, ali é província’ tinha sentido, tratando-se do próprio país, na época do nacionalismo, pois era em relação a outras regiões do mundo uma sublimação do pensamento imperialista. Na nossa situação histórica [o ensaio é de 1962], na qual até as poderosas forças coesivas das ideologias políticas já não bastam para canonizar uma nova Roma, e na qual nenhum ‘bloco’ mais pode estar seguro de sua estrutura monolítica, a diferença entre província e capital já não se pode ratificar, e falar de provincianismo assume novo sentido. Província é toda parte, porque o centro do mundo não está mais em parte alguma, ou, ao contrário, porque o seu omphalos, em princípio, pode ser presumido em qualquer parte. Nisso a literatura adiantou-se à política: a capital literária do mundo pode ser Dublin ou Alexandria. Fica em Svendborg ou Meudon, em Rutheford ou Meran. Uma ilha próxima à costa sul-americana do Pacífico, uma datscha nas florestas russas, uma cabana de toros num lago canadense não são menos centrais do que os modestos apartamentos em Londres, Paris ou Lisboa aos quais se recolheram autores como Eliot, Beckett ou Pessoa.
(Enzensberger)
6.7.15
Respostas
Estamos aqui dando respostas a perguntas que nunca nos fizeram, e quase totalmente sem a consciência de que, se nos toleram as palavras não solicitadas, é apenas porque estas lhes servem de motivo para as deles.
As pessoas não querem saber a opinião dos outros, e se por acaso a pedem é só pensando na réplica.
As pessoas não querem saber a opinião dos outros, e se por acaso a pedem é só pensando na réplica.
Caridade
Há na raiz de toda crítica, mesmo das mais ofensivas, um fundo de piedosa caridade. Quem aponta um erro deseja vê-lo corrigido, e quem já não erra acaba sendo aprovado. Mais maldosa que a pessoa dedicada aos equívocos alheios, mais maldosa que a pessoa cujo prazer é apontar publicamente esses equívocos, é aquela que se cala diante deles porque tira o seu prazer de vê-los repetidos.
Epos
Ulisses não é apenas um dia que são todos os dias na vida de um homem que são todos os homens: é também um romance que são todos os romances, o ponto final do epos ocidental, a última (des)aventura possível a um herói já impossível, após o que tudo é repetição, e repetição ingênua.
Vazão
A violência é no coração do homem uma fonte de jorro ininterrupto. Os antigos, em reconhecimento desse fato, não fizeram mais do que canalizar sua vazão através de meios institucionais, contentando-se com administrá-la. Foram os modernos, na pretensão reformista de extingui-la por completo, pretensão a cuja ilusão de sucesso não poderiam chegar senão por meio do represamento, que conseguiram fazê-la infiltrar-se por absolutamente tudo, a tudo contaminando.
5.7.15
Ápices
O Messi tem ápices que nenhum outro jogador em atividade é capaz de alcançar, incluindo ele mesmo.
30.6.15
Problema
O grande problema da linguística — talvez maior do que a defesa da língua como ela é — se deve a que, por trás de cada um desses muitos desvios cometidos espontaneamente, existe um fundamento bem menos óbvio a ser apreendido pelos semicultos do que as meras normas gramaticais que determinam os acertos. Em outras palavras, o grande problema da linguística é que a gramática é normativa, e reivindicar o acatamento é sempre ação mais cômoda que a de compreender as causas da desobediência. Compreender o porquê dos equívocos já banais que no dia a dia mesmo a gente escolarizada insiste em cometer com a naturalidade da inconsciência requer bastante mais do que o necessário para não cometê-los. Fica parecendo maluquice para a totalidade dos leigos e não baixo número de estudantes, mas acertar um uso, ou mesmo ser capaz de elucidar suas regras, é bem menos custoso, exige bem menos, do que escavar a razão de uma possível inobservância quase generalizada.
27.6.15
Último a chegar
Quando eu ouvia dizer que Ulisses eram as 24h na vida de um homem, e que Joyce, se não foi seu criador, foi ao menos quem mais longe levou a técnica do fluxo de consciência, eu imaginava que o livro fosse todo ele um jorro interminável com os pensamentos de Leopold Bloom durante sua perambulação por Dublin — talvez por sugestão de Grande Sertão: Veredas, um monólogo aparentemente sem fim que eu algumas vezes mal comecei. Vou descobrindo agora que não é bem só isso — são muitos e variados os psiquismos a que vamos tendo acesso, não só ao de Bloom. E, para além disso, o livro — verdadeiro compêndio de procedimentos narrativos, repositório de toda forma possível de texto escrito: o jornalístico, o ensaístico, o propagandístico, o jurídico etc. — é uma colagem de tudo o que numa cidade perpassa a vida de um homem, concentrado num único dia que por sua vez são todos os dias.
15.6.15
Comigo
Parece que, no princípio, a boa relação com Deus não passava pela boa relação com os homens. Todos os patriarcas foram, ao mesmo tempo que fieis guardadores da aliança com Javé, desavergonhados ou inescrupulosos no trato com os outros. Abraão mentiu sobre o status de sua relação com Sara para se proteger e abandonou à morte a serva Agar junto a seu filho Ismael; Isaac enganou o pai cego e tomou o que era devido ao irmão mais velho; Jacó enriqueceu à custa do sogro, de cuja casa depois que estava rico fugiu durante a noite, malocando consigo todo o rebanho dele; Moisés cometeu homicídio e depois guiou o povo para fora Egito carregando o máximo de tesouro alheio que conseguiam carregar; Davi, não satisfeito com pegar a mulher de um general seu, ainda mandou matá-lo pra ficar com ela só pra si... Nada que fosse suficiente para desaboná-los aos olhos de Deus, a quem estranhamente continuavam fieis, de quem estranhamente continuavam protegidos. E não terá sido esse, fico me perguntando, o tipo de relacionamento que Cristo buscou restaurar, com todo a defesa de publicanos e pecadores? “Danem-se os homens, o negócio voltou a ser comigo.”
Joyce
Todo o virtuosismo técnico de Ulysses não nos deve fazer esquecer a baixeza da matéria que o compõe. Pode ser que o livro esteja repleto de charadas eruditas — como se gosta de lembrar —, mas tanto quanto de imagens do mais profundo mau gosto. Por exemplo, esse trecho tão engenhosamente executado, em que a leitura de um jornal é apresentada em paralelo — ou em que a redação da imprensa diária é igualada — ao ato de... bem, leiam vocês, na pioneira tradução do Houaiss:
Refestelado no trono desdobrou o jornal virando as páginas sobre os joelhos nus. Algo novo e fácil. Não há grande pressa. Demorar-se um pouco. Nossa novidade premiada. O golpe-de-mestre de Matcham. Escrito pelo senhor Philip Beaufoy, clube dos Playgoers, Londres. Pagamento à razão de um guinéu por coluna foi feito ao autor. Três e meia. Três libras e três. Três libras treze e seis.
Calmamente ele lia, dominando-se, a primeira coluna e, cedendo mas resistindo, começou a segunda. A meio, uma última resistência cedendo, permitiu que os seus intestinos se aliviassem de todo enquanto lia, lendo ainda pacientemente, toda ida aquela ligeira prisão de ventre de ontem. Espero não seja demasiado grosso e provocar hemorroidas de novo. Não, está exato. Assim. Ah! Constipado, uma tablete de cáscara sagrada. Vida podia ser assim. Aquilo nem o agitava nem o comovia, mas era algo rápido e limpo. Imprime-se qualquer coisa hoje em dia. Época idiota. Lia adiante sentado calmo sobre o próprio odor montante. Limpo certamente. Matcham pensa frequentemente no golpe-de-mestre com que ganhou dessa bruxa gargalhante que agora. Começa e termina moralmente. A mão na mão. Sagaz. Remirou o que lera e, no que sentia verter sua água calmamente, invejou com carinho o senhor Beaufoy que escrevera aquilo e recebera de pagamento três libras treze e seis.
6.6.15
Nietzsche
Quando lemos Nietzsche, o espetáculo que testemunhamos é o de alguém que se põe a combater, ora triunfante, ora resignado, o surgimento de um mundo que nós, por nossa vez, já encontramos feito, já que nos deu à luz: um mundo em que todo o mundo tem direitos, um mundo em que todo o mundo tem razão, um mundo em que todo o mundo, se não é capaz de aprender, ao menos o é de se informar. O que Nietzsche passa todas aquelas páginas tentando fazer é nos alertar, a nós que o lemos hoje, para o fato de que a minha existência e a sua, tal como elas são, representam um retrocesso, um desperdício de séculos e séculos de história: não foi para a espécie chegar a gente como a gente que no princípio Homero e Sófocles existiram. Algo deu muito errado no caminho. E esse algo foi o cristianismo, grande responsável pela contaminação da Europa com o vírus da dignidade humana, que pôs tudo a perder.
Confessio
A minha têmpera tem na família um ilustre precursor, o irmão mais velho do meu pai, que por sua vez está entre os mais novos. Mesmo com quase nenhuma convivência (até hoje foram pouquíssimos os encontros, ainda mais escassas as conversas), tenho com ele pelo menos quatro grandes similaridades: tanto ele quanto eu fomos batistas durante a juventude; tanto ele quanto eu fomos seminaristas de nossas igrejas e nos dedicamos incompletamente ao estudo da Teologia, que depois ele trocou pelo Direito e eu pela Literatura; tanto ele quanto eu quase nunca estamos nas reuniões de família, acho que ele bem menos do que eu, que de vez em quando ainda dou as caras no Natal, ele nem isso; tanto ele quanto eu nos dedicamos aos livros, sobretudo aos usados, muito embora o interesse de meu tio seja um bocado mais desordenado que o meu: os meus poucos livros cabem num mísero cômodo, os dele demandam não sei quantos apartamentos. E tudo isso — percebo agora — me salva. Hoje minha madrinha — a pessoa em cuja casa eu, quando criança, tomava café todas as manhãs, e ao lado de quem lançava para um batalhão de pombos as bolinhas que fazíamos à mesa com o miolo que ela e meu padrinho me habituaram a retirar do pão, e que hoje em dia eu quase não visito — esteve aqui em casa e, na hora de se despedir, me chamou sorrindo pelo nome do irmão mais velho, como que me desculpando pelas negligências todas.
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