5.11.15

Sensatez

La Rochefoucauld chama de sensatez a loucura apropriada a cada circunstância.

28.10.15

Mundo

Ninguém se aferra a uma ideia que não considera a mais exigente. Ninguém persevera num caminho que não julga o mais estreito. Jamais alguém deu um mísero passo que não tenha sido em desafio ao mundo.

Odisseia

Nada como o reencontro com a própria família, depois de tantos anos dedicados à destruição das alheias. 

24.10.15

Sensibilidade

A sensibilidade japonesa é tamanha, ou, em todo caso, de uma natureza tão diversa da nossa, que mesmo seus poemas dispensam aquelas pirotecnias sem as quais tudo nos fica parecendo banal. Nossos poetas precisam nos dizer que as gerações dos homens se assemelham às folhas das árvores, e não sei mais o quê. A um poeta japonês é suficiente que aponte uma árvore qualquer, ou a lua, ou uma garça sobre a neve, ou uma mosca, e tudo aparentemente fica dito.

Extremos

Se o século XVII foi o século da prosa oratória, grandiloquente, emaranhada, feita de períodos amplos, sinuosos, arrevesados (Antonio Vieira, Thomas Browne etc.), foi também o de alguns dos escritores mais concisos que já existiram (La Rochefoucauld, La Bruyère).

23.10.15

Utopia

Existe no pensamento de Cioran a respeito da utopia a seguinte tensão: muito embora lhe pareça incompreensível que as coisas sejam como são, ou melhor, que as pessoas tolerem as coisas como elas se apresentam, e muito embora julgue a utopia — isso é, a felicidade imaginada — como o motor do desenvolvimento histórico, e portanto esclerosada toda a sociedade que a tenha abandonado, — há nele um indisfarçado desprezo por quem, a essa altura, ainda é capaz de esperanças utópicas. Em outras palavras, se considera desprezíveis os homens que vivem sem ânsia por ideal, não considera menos aqueles ainda capazes de ansiá-lo. Os primeiros por serem cretinos, os segundos por serem ingênuos. Para Cioran, é certo que as coisas não deveriam ser como são, mas já igualmente certo que não podem ser muito melhores, e os homens, se acertam ao não se conformarem com o presente, se equivocam se ainda acreditam em futuro.

Elogio

O maior elogio que o proprietário pouco obstinado de uma boa biblioteca pode afinal fazer a um livro é terminá-lo.

20.10.15

Imprevisto

A velhice é o grande imprevisto da existência humana. Os homens — ou não foram feitos para envelhecer, conforme o Gênesis, — ou foram feitos para morrer ainda jovens, segundo a Ilíada. 

19.10.15

Revisão

É praticamente impossível solicitar uma revisão da história sem ter a nota corrigida para baixo.

Líder

Acho que foi Nietzsche quem disse que todo grande líder não passa de um psicólogo, no (mau) sentido de que nenhum grande líder cria uma necessidade para só depois supri-la com a própria liderança — o que seria algo realmente grande: criar, do nada, uma dependência generalizada de si —, mas, antes, apenas fareja uma ampla necessidade já existente e só então se candidata oportunisticamente a satisfazê-la, arrastando atrás de si o grande número.

15.10.15

Destro

Eu odiei a primeira professora que tive na vida simplesmente porque ela não era minha mãe. Apenas por isso, chorava com frequência durante as aulas, para as quais eu ia como que para a forca. A fim de que não atrapalhasse os demais, era mandado para a pequena biblioteca do colégio, onde tentavam me acalmar com livrinhos infantis em formato de bichos. Por sorte, não demoraram a perceber que eu não tinha condições de ficar sem ela, que por isso achou melhor me poupar do suplício até pelo menos o ano seguinte, quando então recomeçou meu tormento, dessa vez porque a responsável pela minha alfabetização decidiu que eu seria destro.

11.10.15

Chão

O à-vontade dos pés descalços sobre a terra batida e dos gestos em meio à poeira que sobe. A mais absoluta falta de prevenção contra o barro.

Vida

Cada linha é uma hora da página que é um dia nessa vida que é o livro.

10.10.15

Rio

Eu passava em frente a uma sala com o piso coberto por um tatame sobre o qual vários jovens de quimono se preparavam para um treino de jiu-jitsu, e na direção contrária vinha uma criança de aparência japonesa vestindo uma calça branca e uma corda colorida em torno da cintura a caminho da capoeira.

8.10.15

Nobel

O grande problema das eleições e premiações literárias, aquilo que realmente nos deixa rendidos, sem saber o que fazer com elas, nem é a multidão de merecedores preteridos em nome de figuras questionáveis, mas, bem ao contrário, o número nem um pouco menor de merecedores justamente lembrados. Se só os maus escritores fossem os premiados, e as escolhas fossem invariavelmente políticas, seria ótimo. Mas o que fazer com um Nobel que, se nunca premiou nem Tolstoi nem Joyce nem Borges nem Nabokov nem Roth, por acaso não deixou de premiar nem Thomas Mann, nem William Faulkner, nem Samuel Beckett, nem Octavio Paz, nem Wislawa Szymborska?

2.10.15

Se

De acordo com Tertuliano, se Deus quisesse que vestíssemos roupas coloridas, as ovelhas não seriam brancas.

1.10.15

Espaço

O que eu escrevo ocupa na página o espaço que eu ocupo na vida.

O riso

A sátira é um olhar desprezivo para o ridículo, nascido da superioridade. O cômico, por sua vez, é um olhar benevolente, fruto da identificação. No cômico, nós rimos de nós enquanto rimos dos outros; na sátira, rimos apenas dos outros. 

28.9.15

Apocalipse

O fundo inconsciente de todo conservadorismo é a crença primordial de que determinados gestos são as traves que sustentam o céu sobre as nossas cabeças, impedindo-o de desabar. Ou as coisas continuam da forma como disseram ao conservador que elas sempre foram, ou então o sol se tornará um imenso pedaço de carvão apagado, a lua gotejará sangue, os astros cairão por terra como caspa, e os montes se precipitarão no mar, que enfim escoará até não deixar uma gota. 

23.9.15

Origens

Nada explica melhor o Brasil do que a crônica das suas origens. Que outra coisa seria o “negro metido a inglês” lançado em meados do séc. XX por Graciliano Ramos contra Machado de Assis, além de mera atualização contextualizada do seiscentista “um paiaiá mui prezado de ser caramuru”, de Gregório de Matos?

21.9.15

Para sempre

Os contos de fadas operam a popularização medieval do herói mitológico, e o romance, a sua democratização burguesa. O herói romanesco tem nome, genealogia e endereço (ao menos até Kafka), assim como o dos mitos; ao passo que o herói dos contos de fada é a rigor qualquer menino ou menina — “príncipe” ou “princesa” —, filhos de pai e mãe quaisquer — genéricos “reis” e “rainhas” —, habitantes de um reino em geral não identificado em algum lugar “muito, muito distante”. Em outras palavras, porque os burgueses têm a pretensão da singularidade, seus heróis estão condenados ao fracasso, como estão os heróis trágicos; enquanto nos contos de fadas camponeses, satisfeitíssimos no seu anonimato — chamando-se quando muito João ou Maria, essa forma nominal de não ter nome —, lutando apenas contra problemas comezinhos da vida, próprios das existências mais banais — como o ciúme dos irmãos, a negligência dos pais, a perseguição da madrasta —, sem qualquer outra ambição para além de uma monótona sobrevivência, afinal podem, vencendo aqueles imprevistos, sonhar com terminarem “felizes para sempre”.

Volta

Esta parte das Américas também não era cristã quando os portugueses chegaram e vestiram os índios.

19.9.15

Lição

Em sebos, não existe outro meio eficaz de não perder para sempre um livro que se quer, e que por qualquer motivo não se pode comprar, além de escondê-lo, o que mais frequentemente se consegue apenas com trocá-lo de lugar — eu mesmo acabo de esconder um livro sobre o caminho percorrido entre a alquimia e a química, isto é, entre o pensamento mágico e o científico, num canto pouco acessível reservado aos livros sobre animais domésticos. Se há uma lição que importa a um frequentador de sebos, é a de que não convém o desprezo por prateleira alguma, mesmo as menos promissoras, justamente porque quanto mais mal-frequentada uma estante, mais ideal ela é como esconderijo — sem contar que nada impede a um livreiro desavisado colocar um volume do José Guilherme Merquior intitulado O elixir do Apocalipse na seção de escatologia bíblica. E é por isso que de tempos em tempos cada qual deve passar em revista inclusive os livros de gurus ocidentais com apelidos indianos e os romances psicografados pela Zíbia Gasparetto, entre os quais não faz nem quinze dias encontrei escamoteado o Pele negra, máscaras brancas do grande Franz Fanon.

18.9.15

Paródia

Segundo Kierkegaard, a paródia é o último estágio do desenvolvimento de qualquer processo (estágio a que Borges dará o nome de Barroco). Isso trocado em miúdos significaria que, pra Kierkegaard, a burocracia é a paródia das relações humanas, assim como a velhice é a paródia da infância e a dobra é a paródia da linha reta. 

Risco ou destino

O grande risco de todo esforço de preservação — se não mesmo seu destino inevitável — é a centralização dos gestos secundários.

17.9.15

Centro

Tratando da alegada facilidade do judeu europeu em adaptar-se ao exílio — “sem pátria mas radicado em um livro”, “em casa em qualquer lugar” —, Claudio Magris acrescenta que era como se para eles “o mundo inteiro fosse um bairro familiar” ou “a rua da infância em que se fala o próprio dialeto”. Imagem esta que, curiosamente, apenas invertida descreve com exatidão os contos de Bashevis Singer, os quais, se não apresentam muito mais do que os reles falantes de iídiche dos bairros judeus de Varsóvia, o fazem como se dessem a conhecer o centro do mundo.

9.9.15

Spinoza

No capítulo final de No tribunal de meu pai, Bashevis Singer menciona brevemente o deslumbramento que, para escândalo da ortodoxia paterna, o panteísmo do anatematizado Spinoza lhe causou. Descoberta da mais suma importância, já que é esse panteísmo que sem dúvida alguma explica a possibilidade da sua obra. Se Deus é tudo quanto existe, logo tudo leva em si a natureza da divindade, mesmo aquilo que há de mais desmerecido sobre a terra, como era a precária existência de tudo que o cercava. Se Spinoza estava certo, Singer não precisava deixar o seu fim de mundo para chegar ao centro, que de repente descobria estar em toda parte. E foi esse encarecimento do todo pela imanência de Deus que — desconfio — lhe permitiu escapar do horror provinciano pelo provincianismo.

Impossível

Não deixam de ser singulares as coisas a que se dão o mesmo nome. Nenhuma situação no mundo é realmente como outra. Os problemas dos homens repelem o rigor fácil das equações. Os dilemas e quem os protagoniza não são intercambiáveis. Cada ação iniciada ou abortada modifica. Jamais duas frases seguidas foram proferidas pela mesma pessoa. Toda incoerência é absolutamente impossível.

Ter

Por vezes o ganancioso se contenta em não ter menos.

7.9.15

Singer

Era limitadíssimo o ambiente do qual Bashevis Singer tirava suas personagens, suas histórias. Chamar provinciano a tudo que o cercava seria generosidade. Mais do que afastado do centro, aquele era um mundo isolado mesmo da periferia. Em seus contos, Singer não escreveu sobre europeus cosmopolitas, também não sobre os poloneses como um todo, e nem mesmo sobre os judeus poloneses em geral, — mas sobre um grupo ainda mais específico de homens e mulheres, fruto de circunstâncias ainda mais estreitamente determinadas: certo tipo, geralmente pobre e deseducado, de judeu polonês adepto do misticismo hassídico — esse grande resquício medieval —, habitante ora de cidadezinhas interioranas, ora de ruas absolutamente insignificantes do subúrbio de Varsóvia. Além de material tão desprestigioso, enclausura-se ainda mais escrevendo em uma língua que a Segunda Guerra deixou praticamente sem leitores. Apesar disso — ou precisamente por isso, quem sabe? —, é tão magnífico, que acaba traduzido para cerca de sessenta idiomas, ilustrando talvez melhor do que nenhum outro autor moderno o preceito tão disputado — atribuído a Tolstoi — segundo o qual a universalidade, em arte, estaria na pintura da própria aldeia.

31.8.15

Diferença

Semelhantemente a nós, os deuses também conheciam tudo sobre os homens, inclusive as intenções mais íntimas. A diferença é que sabiam perdoar.

Branco

Todos os discursos, de todas as áreas, já estão prontos. Um texto jurídico escreve-se a si mesmo. De igual modo o jornalístico, o acadêmico, o literário. Não há fenômeno mais raro do que a página em branco. 

29.8.15

Tempo

Não é porque um autor antigo faz sentido ainda hoje, que se trata de alguém à frente do seu tempo. Ainda que se discuta o porquê: talvez sejamos nós que andamos aquém do nosso, ou — melhor — seja o caso da circularidade que nos leva sempre ao mesmo. Mas não é porque um autor antigo faz sentido ainda hoje, que se trata de alguém à frente do seu tempo.

Se

Um dia pesquisadores europeus se reuniram, olharam para os não-europeus em geral, e então se perguntaram: “Se, contra todas as evidências, eles não são menos humanos do que nós, e é verdade que demônios não existem?...”

19.8.15

Silêncio

... o profundo silêncio que se foi acumulando pouco a pouco em nosso interior. Começamos a nos calar quando crianças, à mesa, ante nossos pais que ainda nos falavam com aquelas velhas palavras sangrentas e pesadas. Nós não abríamos a boca. Não abríamos a boca em protesto e por desdém. Não abríamos a boca para dar a entender a nossos pais que aquelas grandes palavras já não nos serviam mais. Tínhamos conosco outras palavras. Não abríamos a boca, cheios de confiança em nossas novas palavras. Utilizaríamos essas nossas palavras mais tarde, com gente que as compreendesse. Éramos ricos em nosso silêncio. Agora estamos envergonhados e desesperados, e conhecemos toda a miséria. Nunca mais nos livraremos dela. Aquelas grandes palavras velhas, que serviam aos nossos pais, já são moedas fora de circulação e ninguém mais as aceita. E com as novas palavras, que agora percebemos que não têm valor, não se compra nada. Não servem para estabelecer relações, são aguadas, frias, infecundas. Não nos servem para escrever livros, nem para manter ao nosso lado uma pessoa querida, nem para salvar um amigo.

(Natalia Ginzburg)

Excesso

Segundo Gracián, “o muito é descrédito”. Ou, por outra: “todo o demasiado é vicioso”. Por esse motivo — e em antecipação à suspeita de Brecht quanto aos grandes homens, que seriam pequenos demais para se contentar com a companhia de uma mulher: “os gigantes costumam ser os verdadeiros anões”.

7.8.15

Boas

De acordo com Franz Boas, o valor da antropologia estaria em (1º) nos fazer compreender as raízes da nossa civilização, (2º) nos incutir o valor relativo de todas as formas de cultura e (3º) nos impedir a hipervalorização do nosso próprio tempo, que alguns chegam ao cúmulo de julgar o estágio final da evolução humana — lições sem as quais, segundo ele, não só nos privamos dos benefícios que se adquirem com o conhecimento de outras culturas, como nos incapacitamos para uma crítica objetiva à nossa própria.

6.8.15

A última

Jamais teríamos chegado à primeira palavra sem a pretensão de que também fosse a última. 

Prêmio

O céu, que já foi uma compensação para o abandono da vida, é hoje prêmio dos que a conquistam.

4.8.15

Preferência

Os homens preferiram a possibilidade do inferno à certeza do esquecimento.

30.7.15

O riso

O riso antigo nasce do contraste com modelos existentes (o nobre que não age como os nobres devem agir, o político que não atende aos interesses da classe para a qual os políticos devem governar, os padres que não vivem conforme os padres devem viver etc.). O riso moderno, por sua vez, nasce do contraste com modelos ideias (o burguês que se obstina em não ser gente, o representante de uma ordem política que se deve substituir por uma nova, o sacerdote de uma igreja que já não faz sentido existir...). Daí por que o riso antigo é sempre ferramenta conservadora (Aristófanes, Gregório de Matos: grandes reacionários), enquanto o riso moderno já pode ser (embora nem sempre seja) subversivo. 

27.7.15

Linha

Alguém absolutamente incapaz de uma única linha a não ser sobre outras.

25.7.15

O começo

O que algumas pessoas mais gostariam de saber é quando aqueles que escrevem aforismos vão finalmente começar a escrever. 

Preparação

Não há sucesso que compense a paz da não preparação para o fracasso.

Obra

Se a condenação da violência é obra dos covardes, a do ressentimento é obra dos canalhas.

Propósito

O Brasil não foi feito para ser habitado. O Brasil foi feito para dispor as condições de ser deixado. 

O sentido

What's the point of forgetting
if it's followed by dying?

(Brodsky)

O Segredo

We dance round in a ring and suppose,
But the Secret sits in the middle and knows.

(Robert Frost)

20.7.15

Abuso

O que as crianças muitas vezes fazem quando não querem ter um doce repartido com as demais — não é lá muito diferente o que Joyce faz com o romance: abusa de tal forma dos procedimentos disponíveis, que depois quem teria ainda a coragem de retomá-los? 

A negligência

Há quem gostaria de ter lembrada a negligência com que se ocupou de não acabar esquecido.