13.11.16

Irreversível

Regula Emblematica Sancti Benedicti, 1780.





















A ideia de honra esteve sempre muito relacionada à irreversibilidade dos meios com os quais se vivia. Uma palavra ouvida nunca pôde voltar a não ter sido pronunciada, nem um gesto testemunhado chegou alguma vez a ser desfeito; tampouco era possível ignorar a marca feita em uma pedra, ou apagar a tinta lançada sobre um material poroso. Hoje, porém, a rede permite que tudo seja editado, ou mesmo excluído. Mas, como precisamos manter as coisas como elas sempre foram, eis que fizeram o print, o histórico de alterações. Tudo precisa continuar definitivo, mesmo podendo já não ser. Aliás, não é por acaso que um dia do juízo seja a grande expectativa de religiões constituídas justamente em torno de livros — essa grande ferramenta de perpetuação das coisas humanas —, e que esse grande dia seja compreendido como o dia em que todos os atos e palavras dos homens serão lidos publicamente.

10.11.16

Opção

A qualidade do banquete muitas vezes compensa toda uma vida de migalhas. Comia-se muito melhor na escravidão do Egito do que na liberdade do deserto.

Mérito

O maior mérito do cristianismo — aquilo que o distingue para melhor de religiões em tudo o mais idênticas — é a capacidade de ostentar como vitórias do cristianismo as consequências mais irreversíveis das grandes derrotas do cristianismo. Assim, retrospectivamente, houve sempre ao menos um herói cristão a vencer batalhas contra o próprio cristianismo. E um novo verdadeiro cristianismo nunca deixou de sair vitorioso das derrotas de qualquer velho cristianismo verdadeiro.

Diferença

Como o esquerdismo sabe inconscientemente que é o Mal, seus agentes precisam se fazer passar por anjos de luz. Já na direita, dona de ideias tão indispensáveis, ninguém precisa deixar de ser o cretino mais ostensivo pra se tornar alguém digno de crédito.

9.11.16

Inutilidade

A inutilidade dos gestos alheios, diante da qual não apenas não desconfiaram da inutilidade dos próprios gestos, da inutilidade de todos os gestos, como conseguiram ainda os considerar fundamentais: então falta sentido a todos os gestos que não são os nossos... De onde a generosidade com que empenharam a vida a se fazerem imitados.

Apaziguador

O grande apaziguador de consciências terá como missão garantir que a superioridade do Ocidente resta quando menos em haver entre os ocidentais aqueles que se considerem os mais abjetos entre os homens. E que para a importância dos outros falta ainda quem a questione. E que ter inventado a culpa já redime de tê-la sempre em grande escala. 

15.9.16

Coadjuvantes

Nem sempre Deus pretende ensinar algo a todo aquele contra o qual se volta. A história de Jó assegura que alguns são atingidos só para que a lição seja possível a outros. Sete filhos homens e três filhas mulheres soterrados, apenas para que Jó aprendesse. Mesmo entre os sofredores a maioria é de coadjuvantes.

Apresentação

Uma apresentação de jazz é um tiroteio durante o qual nenhuma bala se perde.

27.8.16

Problema

O Livro do Gênesis é todo ele sobre o problema com o pai. O pai cobrando obediência aos filhos, no primeiro jardim da infância, e os filhos que o desobedecem pela primeira vez caindo na vida autônoma. O irmão que mata o outro irmão ao ver-se preterido pelo pai. O filho que é amaldiçoado por revelar a nudez do pai aos irmãos. O filho que deixa para trás a casa do pai para confirmar no mundo a própria descendência. O pai que abandona à morte um filho e desiste na última hora de se livrar do outro. As filhas que faltando a mãe embriagam o pai e se deitam com ele. O irmão que engana o irmão em busca da prioridade do pai, o mesmo que se faz passar pelo outro filho a fim de receber a última benção paterna. O filho preferido pelo pai que é vendido como escravo pelos irmãos. Acaba o Gênesis, e logo o Êxodo começa com o filho que é criado como adotivo pela própria família.

23.8.16

Mérito

Um grande mérito das monarquias, talvez mesmo o maior, é que os povos sempre mataram mais os próprios reis do que nós matamos nossos presidentes.

16.8.16

Desastre

Os trilhos são uma limitação da qual um trem só escapa por meio do desastre. 

12.8.16

Psicologia

Nada permanece novo por muito tempo, razão por que mesmo o conservadorismo se atualiza, pela incorporação de inovações assimiladas: o conservador é sempre mais parecido com os contemporâneos dos quais pretende se diferenciar do que com os antecessores dos quais se quer um continuador. O que os conservadores realmente conseguiram preservar de mudança, e de maneira até assustadora, é certa psicologia. De acordo com James Frazer, “qualquer novidade é capaz de suscitar o espanto e o pavor do selvagem”.

Adesão

A eficácia de um pregador (científico, político, estético, religioso) já não depende da qualidade dos sermões proferidos, e sim da maior ou menor adesão prévia dos ouvintes. Hoje em dia já nenhuma pregação converte, apenas confirma. 

*
No campo ideológico, já não há tal coisa como povos não alcançados. Nossos missionários não têm senão membros de igrejas para disputarem entre si. 

9.8.16

Menos

O excesso de opções paralisa. Daí a importância da adesão aos preconceitos de grupo, essa forma tão estúpida quanto eficaz de reduzir a angústia das escolhas por meio do estreitamento da vista. O que se ganha com descartar de antemão todo um mundo de possibilidades as mais legítimas, por uma questão de princípios arbitrários só racionalizados a posteriori, senão o conforto ilusório de se estar abrindo mão de menos?

8.8.16

Caminho

Inverter a direção é, por vezes, a única forma de não abandonar um caminho. 

Sobreviver

Canetti chama a atenção para o fato de que, segundo seus respectivos mitos, um número muito significativo de povos alega descender de sobreviventes, seja de uma guerra, seja de uma catástrofe natural, seja de uma doença. Por exemplo, segundo os judeus, a humanidade descende da família de Noé, sobrevivente de um dilúvio; segundo Virgílio, os romanos descendem de Eneias e outros sobreviventes da guerra de Troia; os kutenai — nativos do continente norte-americano —, por sua vez, têm como ancestrais os poucos sobreviventes de uma epidemia, e assim por diante. E não se furta de lembrar, mas muito a sério, que cada indivíduo é, pelo simples ato da concepção, um sobrevivente entre milhões. De modo que sobreviver é, para Canetti, o sentido fundamental da existência — a vontade de poder nietzschiana, o instinto de autopreservação dos naturalistas e sei lá mais o quê: para ele, tudo seria mais plenamente compreendido pela mera vontade de fazer-se o único a permanecer com vida sobre uma pilha de cadáveres.

Abertura

Fossemos menos vulneráveis, e talvez pudéssemos nos permitir alguma abertura a estranhos. Por outro lado, nenhuma cidade está efetivamente aberta enquanto não caem seus muros.

6.8.16

Olimpíadas

Ainda que não tivesse qualquer outra utilidade, a coisa serve ao menos para isso: reunir em um mesmo lugar a maior diversidade possível de rostos e talhes dentre os que existem espalhados pelo globo. Em meio a tanto efeito de gosto tão duvidoso, algo que indiscutivelmente admira: o cortejo dos mais variados tipos humanos, cada grupo observando uma ideia toda particular de elegância.

Ultraje

Não ser mais quem já se foi não é o bastante: segundo Whitman, é preciso ainda abandonar pelo caminho os cadáveres do antigo eu e só voltar a observá-los de longe. A quase totalidade das pessoas, porém, não só não se livra jamais desses cadáveres de si, como faz do seu ultraje a única razão de continuarem existindo.

Tecnologia

A leitura de McLuhan sugere toda uma compreensão alternativa da história das ideias. Por exemplo: do ponto de vista das novas tecnologias (que, segundo ele, são em si o próprio conteúdo), seria impossível que a invenção da palavra impressa não acarretasse algo da natureza de uma Reforma Protestante; assim como a superação dessa mesma palavra impressa como meio mais abrangente de comunicação — pelo rádio, pela televisão, pelo cinema, pelo telefone — não se daria sem acabar impondo um caráter marcadamente reacionário a parte considerável dos escritores modernos, a começar pela opção por um meio defasado.

2.8.16

Intimidade

“Um nativo — o único alfabetizado de seu grupo —, falando da sua função de leitor de cartas para os outros, disse que se sentia impelido a tapar os ouvidos, durante a leitura, para não violar a intimidade das cartas.”

Semelhança

Uma das maiores diversões que a leitura de Eliade proporciona é a de tornar possível a quem o lê a identificação no homem hipercivilizado do Ocidente e suas margens, em meio a tanta pretensão de superior racionalidade, a permanência daqueles mesmos hábitos mentais que eles só poderiam considerar supersticiosos e desprezar como primitivos. E isso porque acabo de topar com esse trecho dos Comentários Reais, crônica seiscentista da realidade nativa do Peru pré-colombiano, onde o autor descreve a postura dos índios peruanos com relação a tudo que dizia respeito à cidade de Cusco, capital do império Inca, — postura na qual fica muito reconhecível a da boa gente brasileira, bastando que se troque Cusco por uma e outra capital europeia:
Era de tal maneira sua adoração [por Cusco], que a demonstravam mesmo nas menores coisas: se dois índios de igual condição se encontravam no caminho, um deixando a cidade e o outro chegando até ela, o que a estava deixando era respeitado e acatado pelo que estava chegando como o superior o é pelo inferior, e isso apenas por ter estado na cidade, quanto mais se vivesse próximo a ela, ou mesmo se dela fosse natural. De igual modo se dava com as sementes e os legumes, ou qualquer outra coisa que levassem de Cusco a qualquer outro lugar; porque, mesmo que não se avantajasse em qualidade, só por ser daquela cidade era mais estimado que os de outras regiões e províncias.

26.7.16

Dinâmica

Uns têm virtudes e defeitos. E precisam ser colonizados por causa dos defeitos. Outros têm virtudes e defeitos. E podem colonizar por causa das virtudes.

21.7.16

Tempo

Ninguém conhece melhor a insuficiência do tempo que o desocupado. Nenhuma porção de tempo é mais insuficiente que a porção completa. É possível fazer algo de útil no parco tempo livre entre uma ocupação desnecessária e outra: impossível fazer algo de útil com todo o tempo livre. As vinte e quatro horas de um dia são tanto mais curtas quanto menor o número de compromissos ao longo delas. Quanto mais horas dedicadas aos interesses alheios, mais pronto alguém estará de aproveitar o esgotamento da folga. Em relação ao tempo, só é possível tirar proveito das migalhas: a visão de um banquete enfastia. A pessoa desocupada se torna muito sensível à mera ideia de ocupação. Pensar em ter que fazer inutiliza de modo cabal o não fazer nada. É preciso não dispor de tempo para ser possível a ilusão de que há maravilhas a serem feitas com ele. Do contrário logo se percebe que é igualmente desperdício não desperdiçá-lo. Não dedicar tempo ao que não interessa, aliás, priva de se achar o que interesse. O tempo livre clama por mais tempo livre. As vinte e quatro horas de um dia exigem a vigésima quinta hora a fim de se permitirem proveitosas.

18.7.16

Sebo

As pessoas já não frequentam estabelecimentos desse tipo, por isso cada vez mais raros. Se querem um livro, mesmo esgotado, elas o encomendam pela internet e o aguardam ser entregue pelos correios. Já não sabem o que é caminhar por entre livros desconhecedores do que terão pela frente. Chegaram finalmente a reproduzir com o livro usado a relação prática e sem mistério que estão acostumadas a ter com tudo: devolveram o livro usado ao universo impessoal do catálogo, do estoque. E isso quando, mais até do que livros, o que lugares como esse tinham a oferecer era certo tipo de experiência: a experiência da oportunidade quase única, do encontro talvez irrepetível, da convergência imponderável dos fatos.

14.7.16

Suspeita

Muito de vez em quando me inquieta a suspeita de que, se em determinada altura da vida optei por literatura, foi porque as obras literárias em geral custam menos do que as filosóficas ou teológicas, e de que se me mantive um desconhecedor quase completo de literatura contemporânea, movida a lançamentos, não foi senão porque as edições populares dos clássicos custam relativamente pouco.

11.7.16

Razões

É possível abandonar o cristianismo pelas mesmíssemas razões que conduziram até ele. Por exemplo, a inadaptação à vida. 

Side effect

Dar à luz é condenar à morte. 

5.7.16

Romantismos

A imagem que fazemos do romantismo — a arte enquanto expressão, a luta do sentimento contra convencionalismos artísticos e sociais, e coisas do tipo — é, de certo modo, um estereótipo devido, em grande parte, ao enorme impacto de um movimento artístico pré-romântico alemão chamado Sturm und Drang, que antecede em algumas décadas a primeira geração alemã propriamente romântica, a primeira geração alemã que se autointitula romântica — a do grupo de Jena, composto por Novalis e os irmãos Schlegel, os quais eram, bem ao contrário daqueles primeiros, até bastante racionais, reflexivos, dedicados ao estudo dos clássicos e a um rearranjo de toda a tradição. E isso logo nos faz pensar no Machado de Assis que a gente cresce ouvindo dizer que era romântico nos primeiros romances e realista nos romances da maturidade, quando a verdade é que nada mais próximo ao ideário — romântico — do grupo de Jena, com seu tão referido conceito de ironia, do que — pasmem — o Machado de Assis autor de Brás Cubas.

20.6.16

Inútil

Gostamos de ver na cegueira de Homero, claro que não sem razão, a metáfora de uma visão especial, superior, exclusiva. Mas há quem perceba nela o estigma fundamental do artista, convertido depois em preconceito no fundo jamais superado. Hefesto, outra figura de artífice do antigo mundo grego, também leva consigo a marca da limitação física. Fica parecendo que, para os primeiros homens, só poderiam se dedicar a esse tipo de mister aqueles incapacitados para outros, mais concretamente úteis, como por exemplo a guerra.

Proeza

Não é por acaso que somos absolutamente incapazes de amadurecimento: Adão e Eva, nossos primeiros pais, já nasceram adultos; nunca tiveram de cruzar o árduo caminho que vai da infância à vida adulta, o qual tornaram, com isso, intransponível, já que não nos legaram os meios inatos de fazê-lo. Para piorar, Cristo, o segundo Adão, de quem poderíamos aprender pelo exemplo, se é verdade que nasceu ainda um bebê, só voltou a nos ser apresentado já homem feito. Sobre como conseguiu a proeza de chegar aos 30 sem continuar nos 15, nós jamais saberemos. 

Arte

A arte nos consola do sofrimento na medida em que não o permite passar despercebido. 

Fronteiriço

A Comédia é um poema essencialmente medieval, que no entanto já carrega em si a marca do espírito renascentista, a começar pela orientação de Virgílio. Da mesma forma que o Quixote é um livro dedicado a uma instituição medieval, que presta no entanto o serviço de testemunhar o nascimento do homem moderno e sua crise. Curiosa ambiguidade, esse pertencimento a dois mundos (um que se abre, outro que se fecha), a dupla natureza obsoleta e atual desses livros.

20.5.16

10.5.16

Nem todos

Nem todos os cães ladram enquanto a caravana passa. Eu sou um que, por exemplo, mal a observa.

1.5.16

Otimismo

Considerar a vida um labirinto é já um grande otimismo, porque pressupõe a existência de ao menos um caminho, ainda que inencontrável.

30.4.16

Distância

Houve um tempo em que as pessoas estavam a tal ponto ligadas umas às outras, que dos gestos daqueles que ficavam dependia inteiramente a sorte daqueles que partiam. Houve um tempo em que nem mesmo a distância podia contra a eficácia dos gestos humanos. Houve um tempo em que a distância sequer existia.

17.4.16

Sono

Segundo o mito de criação dos nandi, um povo do Quênia, o indício de que os seres humanos eram maus, mesmo antes de iniciarem a carreira de maldades que mais tarde os caracterizaria, era a capacidade que sempre tiveram de se mexer durante o sono. “Que tipo de criatura é o homem? Ele consegue se virar de um lado para o outro mesmo enquanto dorme.”

12.4.16

Dilema

Sempre que se dirigiam a Cristo com uma questão que, pela forma redutora como era apresentada, só lhe possibilitava duas respostas, ambas em todo caso insuficientes, ele saía-se invariavelmente por uma terceira via alternativa. Apedrejar a mulher adúltera, sim ou não? Pagar tributo a César, sim ou não? Guardar o sábado, sim ou não?... Dentro do rol das grandes lições evangélicas mais desperdiçadas, eu acrescentaria ainda esta: não ceder à imposição de dilemas.

2.4.16

Máxima

Autor de um livro de máximas intitulado Poesias, Isidore Ducasse, também conhecido como Conde de Lautréamont, assim as explica:
A máxima não precisa dela para se provar. Um raciocínio exige um raciocínio. A máxima é uma lei que encerra um conjunto de raciocínios. Um raciocínio se completa à medida em que se aproxima da máxima. Tornado máxima, sua perfeição rejeita as provas da metamorfose.

1.4.16

O Livro de Jó talvez marque o momento exato em que surge, no pensamento judaico, a crise que o conduz à necessidade de uma perspectiva escatológica. Até então, o que eles tinham era a vida, regulada pela Lei em cada um de seus aspectos, mesmo mais corriqueiros, e ao longo de todas as suas fases, do berço ao túmulo. Mesmo o paraíso com que contavam era de natureza geográfica. Até que surge, para a sensibilidade de alguns, o escandaloso descompasso entre justiça pessoal e bem-aventurança: os justos eventualmente sofrem; os ímpios na quase totalidade dão-se bem. Ora, Deus onde está, que não recompensa os homens segundo a vida que vivem? Mais: um Deus que assim o faz pode ainda ser considerado justo? Os responsáveis pela tradição apressam-se com os panos quentes, mas em vão. Mesmo a submissão vai agora cheia de uma perplexidade inevitável, dada a carteirada de Deus: “Onde vocês estavam quando Eu criei o mundo?” Para o impasse, uma solução possível: a ressurreição dos justos para a vida, a dos ímpios para a morte. O céu. O inferno.

29.3.16

Caixa-preta

Também ao que se passa no coração dos homens só se costuma ter acesso a seguir a algum desastre.

26.3.16

Da coerência

Vivemos às margens de uma cultura que já foi capaz de punir com a morte tentativas falhadas de suicídio.

24.3.16

Sade

Entre os muitos autores franceses aos quais Nietzsche vivia fazendo referência, não lembro de ter encontrado o nome do Marquês de Sade. Mas, concluindo-se a leitura de seu A filosofia na alcova, resta evidente que a “transvalorização de todos os valores” proposta pelo alemão teve nele um precursor. O livro em questão é, na prática, um catecismo invertido, um manual de valores cristãos revirados ao avesso. Um resumo possível das lições morais de Dolmancé à jovem Eugénie é o seguinte: tudo quanto o cristianismo elogia deve ser repudiado, assim como deve ser defendido tudo quanto o cristianismo combate. Com essa possível diferença: enquanto o francês o faz baseado na sua visão de natureza, Nietzsche o faz nalguma espécie de idealização da nobreza. Sade quer a inversão do que chama de preconceito moral cristão porque os homens não passam de animais; Nietzsche a vai querer, depois, porque talvez pudessem chegar a ser deuses. Em todo caso, ainda mais interessante do que essa inversão moral defendida por Dolmancé é o seu método argumentativo. No referido livro, Sade põe na boca do preceptor de Eugénie, a par do naturalismo mais consequente, argumentos de cunho eminentemente antropológico. Está certo que a moral deve basear-se de maneira positiva na natureza humana, e que toda e qualquer moral que vá de encontro aos seus impulsos é uma moral preconceituosa, baseada em superstições religiosas. Porém a forma encontrada por Dolmancé para certificar-se de que a condenação a determinados atos por parte do cristianismo — tais como o incesto, a homossexualidade, a poligamia — era arbitrária foi apontar sua aceitação nas culturas mais diversas, espalhadas tanto no tempo quanto no espaço: afinal, um ato não pode ser contrário à natureza humana se foi, ou ainda é, não apenas praticado como encorajado por essa ou aquela parcela da humanidade. Em Sade, o relativismo cultural apenas intuído por Montaigne aparece já, talvez pela primeira vez, como programa. O raciocínio que Montaigne faz com certa timidez, almejando quando muito uma defesa, ou compreensão, da moral indígena do Novo Mundo, Sade o faz em desafio ostensivo à moral europeia: “Por causa dessas diferenças puramente geográficas [e também temporais, já que são frequentes as menções à Antiguidade], pouco caso devemos fazer da aprovação ou do desprezo dos homens, sentimentos ridículos e frívolos acima dos quais nos devemos situar.”

5.3.16

Resposta

O tempo foi me impondo uma série de perguntas para as quais só a literatura não prometia resposta. 

Solução

Toda solução agrava o problema enquanto não o extingue. 

24.2.16

Comprovação

Uma comprovação de que o desafio de uma perspectiva cultural não evolucionista é realmente uma forma viável de escapar à redutora disputa entre conservadorismo e progressismo foi o fato de Lévi-Strauss, um de seus proponentes mais reconhecidos, ter, ao longo de toda a carreira, as ideias combatidas tanto por conservadores quanto por marxistas, uma vez que ele tanto (segundo aqueles) diminuía as conquistas da civilização ocidental ao equipará-las quase patologicamente a toda sorte de selvageria, quanto (segundo estes) deslegitimava as forças revolucionárias do progresso que pela primeira vez se voltavam contra as injustiças de classe. Quer dizer: enquanto todos a seu redor se estapeavam buscando definir onde afinal residiria a superioridade da civilização europeia, se em seu passado ou em seu futuro, Lévi-Strauss sugeria que, diante de tudo que ainda se podia saber a respeito de uma série quase extinta de outras culturas, tal superioridade fosse ilusória, porque relativa.

21.2.16

Alternativa

Enquanto os estudos etnológicos caminhavam a passos largos rumo à superação definitiva do evolucionismo cultural (que é a ideia de uma contínua progressão cultural desde o homem primitivo até o europeu moderno; a ideia de que tudo que não seja a moderna sociedade europeia é o resquício de um estágio evolutivo já ultrapassado, uma forma de atraso), iam surgindo as grandes teses marxistas, freudianas (A origem da família, da propriedade privada e do estado; Totem e tabu; O futuro de uma ilusão), todas fundamentadas nesse mesmo evolucionismo cultural que a antropologia chegaria a desautorizar. E essa circunstância demonstra como a antropologia é, assim, uma alternativa efetiva, não abstencionista, ao cabo de guerra entre conservadorismo e progressismo, ambos nascidos de uma mesma ideia unilinear de progresso cultural, apenas disputando entre si sobre onde afinal encontrar-se-á o ápice, se no passado ou futuro da história europeia.

20.2.16

Explicado

É impossível tomar conhecimento de que a primeira população não-indígena do Brasil foi composta, ao longo de todo o século inicial de colonização, quase exclusivamente por degredados — isto é, por gente criminosa literalmente corrida da Metrópole — sem afinal achar que fica tudo explicado. Tal associação entre a má qualidade moral de ontem e a de hoje nos é tão tentadora, que não dá espaço para a mínima suspeita quanto à natureza do código penal então vigente e nossa absoluta desconformidade em relação a ele; e tão conveniente, que até nos impede de lembrar que, desde o nosso ponto de vista, poucas coisas na história da humanidade conseguem parecer tão estúpidas quanto o modo de pensar do contrarreformismo ibérico: pois se para nós, hoje, criminoso é o homicida, o violador, o ladrão e outras figuras que tais, para a coroa portuguesa do séc. XVI era igualmente criminoso — por isso digno igualmente de degredo — o homem que dizia mal da igreja, a velha analfabeta que tinha visões e prometia feitiços, a mulher casada que se deitava com um vizinho, o cristão-novo que persistia em não comer carne de porco...

8.2.16

Valorização

A valorização do reles, na arte como um todo, foi uma contribuição da estética realista. E não passa o impressionismo, sobretudo em pintura, do realismo levado à última consequência do instante. Van Gogh não chegou exatamente a ser um impressionista — estava já na fronteira do expressionismo —, mas sempre orbitou intelectualmente o movimento, além de ter sofrido muitas influências comuns, uma das quais ele revelará a seguir. Como consequência disso, tirando o sol e o céu estrelado, o holandês só teria olhos para coisas insignificantes: quando não camponeses jantando, ou cochilando, ou trabalhando, um par de botas rotas, um quartinho qualquer... E tudo isso porque, segundo ele: “Ao estudarmos a arte japonesa, veremos então um homem incontestavelmente sábio, filósofo e inteligente, que gasta todo o seu tempo de que forma? Estudando a distância que separa a terra da lua? Não. Estudando a política de Bismarck? Não. Apenas estudando uma folha de capim.”