7.5.12

Final

O jogo de ontem talvez tenha revelado mais um aspecto da complexa psicologia alvinegra, em parte já bem conhecida de todos. Digo isso porque não tenho esbarrado com reclamações acintosas contra a arbitragem, quando eu, sinceramente, as esperava encontrar: tiveram, além de um jogador expulso (a causa mesma do passeio), o que eles chamariam, em uma final contra o Flamengo, de pênalti não marcado sobre Loco Abreu. A pergunta é: por que o silêncio? Eis uma resposta possível. Não é que não se sintam lesados. É que deixam a exacerbação para ocasiões que lhes permitam a ilusão de superioridade. Tivessem perdido por um 2 x 1 apertado, ou nas cobranças alternadas, e sem dúvida veríamos reeditado o show de anos anteriores. Mas, com um placar daqueles, e com (além do placar) o baile tomado, encolhem-se, limitados a uma e outra insinuação, sempre oblíqua. “Não foi responsável pela derrota, mas atrapalhou o espetáculo.” Que é outro modo de dizer: “Perderíamos de qualquer forma.”  

4.5.12

Prazos

Os prazos são para mim a casca de banana da piada. Quanto mais dilatados, maior a culpa pela certeza prévia de perdê-los. 

Falta

Falta pelo que acordar a quem não tem após o que dormir. 

3.5.12

A desforra das cigarras mágicas

Profecia

Poetas: esperemos com paciência!
Que a Humanidade, um dia, (quase morta,
À mingua d'alma, a Civilização),
Vergada ao peso inglório da ciência,
Há-de vir mendigar à nossa porta
A esmola duma canção!

QUEIROZ, Carlos. Obra poética. Lisboa: Edições Ática, 1984.

Frio

O frio estraga com o maior prazer do carioca, que é se incomodar com o calor. 

1.5.12

Quoque tu, Brute

Recebo de uma amiga o seguinte e-mail: “Gustavo Nagel! Como vai de férias?”. Inocente, adianto que, pelo contrário, a expectativa é de um semestre mais ocupado que os anteriores, listando os porquês. Ao que ela, então, me responde: “Eu me referia ao Menguinho.”

29.4.12

Providência

Deus só pôde garantir que não alagaria o mundo uma segunda vez porque sabia ser impossível que, duma final entre Vasco e Botafogo, ambos saíssem derrotados.

26.4.12

Coisa

Não há coisa viva mais morta que um gato fundamente adormecido.

Confissão

No futebol, tudo que não é Flamengo tem pés como de barro. 

Mundo

O que varia entre as mulheres é o que compreendem por mundo, ao redor do qual (vá ele até onde for) todas desejam viajar. 

17.4.12

Últimos


Aborto

— Um feto anencéfalo? Ai, credo. Vai que sobrevive.

Confusão

Sonhei que estava num sebo, e que o sebo era minha casa, uma vez que o funcionário que fazia a manutenção da porta de entrada ia deixando meus gatos, que nunca saem, fora dela. Corri a tempo de pô-los para dentro e o adverti. Passado o susto, logo voltei às estantes, que ficavam no que é o quarto, onde não guardo livros. Uma prateleira em particular me consumia a atenção, e era a de poesia. Dessa prateleira, que me dava a sensação de ter tudo quanto sempre quis comprar, com os melhores preços, um livro se destacou, permanecendo até agora na memória. Era um híbrido esquisito de três autores sem qualquer ligação aparente. Tinha o formato que tem meu volume único com os Ensaios de Montaigne, da Pensadores; intitulava-se Seppia, que para mim é parte do nome de um dos livros de Eugênio Montale — Ossi di seppia: sendo sépia, ou siba, conforme descobri ao acordar, um molusco —; e vinha como escrito — o mais estranho — por Keats, que nunca li. De mais não lembro. 

13.4.12

Zumbi

Há uma hora da noite a partir da qual falta a disposição até para dormir. 

12.4.12

Evolução

Modernamente, mais desafiador que escrever aforismos, é dar ao que se escreve um caráter próprio, fugindo à fórmula convencional com um esforço ora mais livre, ora ainda mais específico. Seus melhores autores já não escrevem máximas, simplesmente, ao velho estilo francês. Escrevem aquilo que escrevem, isto é, algo mais ou menos novo, surgido de uma ênfase particular, indefinível às vezes. Razão pela qual, se um Lichtenberg e um Jules Renard nem sequer classificam o que produzem — um preenchia seus cadernos, enquanto o outro redigia seus diários —, nos deixou um Gómez Dávila, mais recentemente, seus escólios, como um Antônio Porchia, suas vozes, e um Gómez de la Serna, suas greguerías

11.4.12

Justo

Eu talvez achasse mais razoável a permissão de aborto para os casos de estupro se a visse acompanhada da necessária castração dos homens envolvidos. Pois, se a mulher não pode se ver obrigada a levar adiante uma gestação provocada, contra sua vontade, por um crime, por que então não haveríamos de cortar (literalmente) o mal pela raiz, impossibilitando ao criminoso a reincidência? Mas, curiosamente, livrar-se de um feto se afigura, hoje, ato muito mais humano que castrar alguém que não mereça, a rigor, menos que a cova.

10.4.12

Monk

País

Os que mais se queixam do país são justo os que menos precisam de o deixar para evitá-lo.

Insignificância

O que separa o avaro do invejoso é a insignificância da posse. Ou, por outra: A avareza é a inveja possível aos que têm.

7.4.12

Pensando alto

Se eu me propusesse a escrever cada vez mais quanto menos fosse lido, acabaria o mais prolífico da terra. 

5.4.12

Pannonica

Baronesa Pannonica de Koenigswarter. Nascida Kathleen Annie Pannonica Rothschild (Pannonica por causa de uma espécie de mariposa descoberta pelo pai na região da Panônia, Europa Central, terra da mãe), mais conhecida, porém, por Nica. Para escândalo da família, depois de abandonar no México o marido, parte rumo à Nova Iorque, onde se torna a grande mecenas do jazz, a grande mecenas, sobretudo, de Thelonious Monk (já um gênio reconhecido antes de sua aparição, mas um gênio até então miserável), com quem mantém uma relação platônica (insiste-se nisso) até o fim da vida.

 

Son(h)o

Nenhum tirano é capaz de aplicar um édito contra os sonhos, muito menos proscrever o sono em seus domínios. [...] Então, entreguemo-nos todos aos sonhos, homens e mulheres, jovens e velhos, ricos e pobres, cidadãos particulares e magistrados, habitantes da cidade ou do campo, artesãos e oradores. Não há ninguém privilegiado, seja pelo sexo, pela idade, pela fortuna ou pela profisssão. O sono oferece-se a todos. 

— Bispo Sinésio de Cirene, século IV.

Sina

Nos jogos do Flamengo, sempre que joga o Daivid, acabamos convencidos de não haver no mundo zagueiro pior, nos esquecendo do Welinton, seu agora reserva imediato. Quando, como ontem, é o Welinton quem joga, mudamos rápido de idéia, logo esquecidos do Daivid.

4.4.12

Outros

Todo patriotismo nos é indecente, salvo o dos outros. Bem ao contrário dos outros, para quem todo patriotismo é indecente, salvo o deles. 

Més que un club

O Barcelona é o que o Duque de Caxias seria se o Zito fosse prefeito da Catalunha. 

3.4.12

Chico

O que não vi dizerem é que Chico Anysio sozinho nos deu mais personagens que toda a literatura brasileira junta.

2.4.12

Millôr

A morte de Millôr me deu a oportunidade de finalmente ler um pouco de seus aforismos, talvez até alguns de seus melhores, confiado que estou na seleção feita e publicada na Veja desse fim de semana. É preciso admitir: há mesmo idéias muito bem sacadas. Mas a meu ver incapazes de compensar a birra infantil contra Machado de Assis (nem a chamá-lo de enrustido Millôr resistiu), numa vontade de iconoclastia tão arbitrária que eu reputo sintoma de qualquer coisa muito digna da minha distância. 

A semana

Uma das coisas que mais lamento no meu protestantismo é a falta de aptidão para calendários litúrgicos. Falta que me faz sentir, nessa época do ano em especial, um peixe fora d’água. Um negligente. Um ímpio. É certo que também celebro a Páscoa, mas, infelizmente, não a vivo passo a passo, dia a dia: a mim só interessa, a bem dizer, a ressurreição e seus efeitos soteriológicos. Enquanto todos acompanham sentidos a entrada em Jerusalém, com suas folhas de palmeira, que faço eu? Nada, além de aguardar o próximo domingo. Mais alguns dias, enquanto um número enorme de pessoas recuará quase de modo físico até o Gólgota, eu decerto estarei, muito biblicamente, alheio a tudo. “Onde está escrito que não se pode comer carne na sexta?”

Em minha defesa, digo que nem sempre foi assim, e que já malhei Judas. 

30.3.12

Uma questão psico-etimológica

Gnoscere, um dos verbos latinos para conhecer. Acrescente-se-lhe o prefixo de negação, e eis o verbo desconhecer, ignorar? Curiosamente, não. Ignosco, eu perdôo, eu desculpo. Em latim, a idéia de perdoar viria, pois, da de não tomar conhecimento da ofensa, ou já não lembrar-se dela. Fácil conclusão imediata, daquelas que dariam um best-seller nas mãos de um Augusto Cury.

Mas, logo abaixo, continuando o verbete, aventa o autor do dicionário Francisco Torrinha — outra possibilidade, que exigiria processo psicológico exatamente inverso. Diz ele que ao verbo gnoscere pode ter sido acrescentado, em vez do prefixo de negação in, suposição a meu pobre ver mais óbvia, o de movimento — também in, como em invidere, olhar obcecadamente para algo, isto é, invejá-lo —, que daria à palavra, intensificando-a, o sentido de conhecer mais a fundo, de buscar compreender a razão por trás dos atos ofensivos. Compreensão essa que implicaria a justificação deles. “Tudo compreender é tudo perdoar”, como se diz.

Não saber ou esgotar. 

29.3.12

Dúvida

Talvez não haja maior prova da existência de certas realidades que nunca nos livrarmos da dúvida quanto a se existem. 

Oferta

Há de fato os que nunca se venderam, mas por pura falta de oferta, mesmo a mais pobre. Os que nunca se venderam, é verdade, mas de muito bom grado se dariam, gratuitamente, soubessem de interessados em os carregar.

24.3.12

Dalí et caterva

Há quem não seja homem o suficiente nem pra ser viado.

Thor

O problema de casos como o envolvendo o filho do homem mais rico do país e o pobre de um pedreiro é que durante quatro quintos de nossa curta história houve parcela da população excluída, oficialmente, do direito à justiça. E mesmo depois do chamado princípio da isonomia, na prática, até hoje, a distinção se verifica. De modo que, a meu ver, a grita acaba por se justificar, em função do óbvio. Tirando os tidos e havidos como ressentidos revanchistas, não há brasileiro que de fato ache justo conspurcar a tão prometedora vida de um herdeiro bilionário pela perda de um morto de fome qualquer. Dado o abismo entre as respectivas contas-correntes, aquele sujeito estaria errado ainda que fosse atropelado no quintal de casa — se é que tinha quintal; se é que tinha casa.

22.3.12

Caro crítico

Envio por e-mail uma recolha de pequenos textos meus — publicados quase todos em alguma das várias encarnações deste blog, a partir de 2008 — a um crítico cujo interesse pelo gênero eu conhecia, pedindo a gentileza de uma leitura e o favor de algum direcionamento. Não muitos dias depois, recebo como resposta uma tabela de preços tão bem discriminada (tantos reais por lauda impressa em Times New Roman, corpo 12, espaço duplo, mais forma de pagamento e prazo para o relatório), que só me deixou com uma dúvida: a de quantos elogios o pacote incluía.

Mas, brincadeira à parte, sendo improvável que ele não tenha passado as vistas pelo PDF, ainda que para cálculo do possível lucro, lendo aqui e ali, até sem querer, alguma frase minha, a cobrança serve ela mesma de veredito.

15.3.12

Espanto

Os lugares em que se retalia a morte de compatriotas inocentes com a explosão de outros. 

13.3.12

Benefício

O grande benefício que o dinheiro proporciona é o de dispensar quem o tem de consegui-lo. 

12.3.12

Dos livros

As livrarias são a TV aberta das letras. Encontra-se nelas apenas o que prometa o máximo de audiência. Quando muito (Cultura, Travessa, Da Vinci), chegam a TV por assinatura. Algo mais seletivo, ligado ainda aos interesses do tempo, claro, mas a interesses sobretudo estrangeiros, bem menos populares. Já os sebos, por sua vez, são nosso Youtube literário. Nestes, depende-se basicamente da sorte, isto é, de outras almas com bom gosto uparem conteúdo, o que fazem limpando as bibliotecas; e de o encontramos antes de ele ser deletado, que é ser vendido. E, muito embora acumulem tanta porcaria quanto a pior TV, o que neles há de bom é bom de um modo que já nem existe.

11.3.12

Piores

Racismo é se gloriarem os piores da pertença à pretensa raça dos melhores. 

10.3.12

Sãos

Releiam lá o Sermão do Monte, seus beatos. Cristianismo não é não praticar o mal, mas não ter ganas de fazê-lo. Não é não externar uma má intenção, reprimindo-a. É, antes, não nutri-la. Diferença da mais alta importância, já que não era outro o problema de Cristo com os de seu tempo. A ele já não bastava a conformidade exterior pela conformidade exterior. Estava demonstrado: a prática da justiça por parte de corações ímpios não produzira senão orgulho. Que houvesse dos homens maus ao menos o reconhecimento de que o fossem: de onde a preferência por publicanos e pecadores, sem a blindagem das boas ações. A preferência pelos doentes, em detrimento dos sãos, deixados à própria sorte. Meus amigos, uma vez surgido o mau desejo, e já não há diferença fundamental entre quem o consuma e quem o constrange, podendo o primeiro ser tão temente a Deus quanto o último um grande dum canalha. 

8.3.12

Conclusão

Conclusão retirada da última aula de latim: Não confiar na acuidade filosófico-psicológica de povos cujas línguas não possuam voz média nem verbos depoentes. 

Com efeito, um povo capaz de dizer: “A criança vai nascer amanhã” e “Fulano morreu ontem”, está nesse mundo a trabalho ou a passeio, não sabendo nada de nada.

7.3.12

Falta

Entre os que dizem na cara e os que dizem pelas costas, aqueles a que falta mesmo o que calar. 

4.3.12

Defeitos

Aqueles (poucos) cujos defeitos eu tolero já não toleram os meus. 

A diferença

O samba talvez não existisse sem algumas escolas (Estácio, Portela, Mangueira, Império). Algumas escolas talvez não existissem sem a Globo.