A primeira seleção a que eu assisti, em Copa, tinha ninguém menos que o Romário no comando do ataque. As seguintes, tiveram o Ronaldo, depois o Adriano. Que dor no coração estar vivo pra ver Jô substituindo Fred. (Agora, é verdade que, entre Ronaldo e Fred, contamos com Luís Fabiano, etapa de uma descensão tão regular que inclusive nos permite o vislumbre do que nos aguarda em 2018.)
3.7.14
Estratégia
Agora que perdeu a hegemonia do meio editorial, e já circula no Brasil um número considerável de autores conservadores e liberais dos quais nunca antes se tinha ouvido falar, parte dos esforços da militância esquerdista tem migrado para as livrarias, — uma vez que, se já não conseguem impedir que sejam publicados, que ao menos impeçam de serem vendidos, desencorajando à boca do caixa o máximo possível de clientes. A estratégia por enquanto vai despercebida. Mas é de se esperar o dia em que, descoberta, receberá também sua denúncia, quando então veremos a livre associação de pessoas interessadas na saúde intelectual da população brasileira, em iniciativas presumivelmente intituladas “Meu livreiro mentiu pra mim”, “Livraria sem partido”...
26.6.14
“To disengage myself from those corpses of me”
O LIVING ALWAYS, ALWAYS DYING
O living always, always dying!
O the burials of me past and present,
O me while I stride ahead, material, visible, imperious as ever;
O me, what I was for years, now dead, (I lament not, I am content;)
O to disengage myself from those corpses of me, which I turn and look at where I cast them,
To pass on, (O living! always living!) and leave the corpses behind.
(Walt Whitman)
O living always, always dying!
O the burials of me past and present,
O me while I stride ahead, material, visible, imperious as ever;
O me, what I was for years, now dead, (I lament not, I am content;)
O to disengage myself from those corpses of me, which I turn and look at where I cast them,
To pass on, (O living! always living!) and leave the corpses behind.
(Walt Whitman)
23.6.14
O lirismo
O lirismo é uma tentativa de fazer face a essa situação: o homem expulso da redoma protetora da infância deseja entrar no mundo, mas ao mesmo tempo, porque tem medo deste mundo, modela a partir de seus próprios versos um mundo artificial e de substituição. Faz girar ao seu redor os seus poemas como planetas ao redor do sol; torna-se o centro de um pequeno universo onde nada é estranho, onde sente-se em casa como a criança dentro da mãe, porque aqui tudo é moldado pela única substância de sua alma. Aqui ele pode depois terminar tudo o que é tão difícil fora; aqui ele pode, como o estudante Wolker, marchar com a multidão de proletários para fazer a revolução e, como o rapazola Rimbaud, remexer as suas pequenas apaixonadas, porque essa multidão e essas apaixonadas não são moldadas pela substância hostil de um mundo estranho, mas pela substância de seus próprios sonhos, são portanto ele mesmo e só rompem a unidade do universo que ele construiu para si mesmo.
20.6.14
Dívida
Megalômano tal qual é (autoproclamado maior intelectual brasileiro vivo, e se você não concorda, então aponte outro que saiba tanto e tantas matérias quanto ele ou o vença num debate sobre um tema da própria escolha), Olavo de Carvalho conseguiu criar aparentemente sozinho todo um repertório facilmente reconhecível de alegações fundamentadas numa luta meio neurótica do indivíduo contra forças totalitárias não tão ocultas assim (é preciso que cada um tenha sua arma e tire os filhos de sob a influência comunizante do MEC, porque Nossa Senhora apareceu em Fátima e disse qualquer coisa a respeito), além de um público amplo e heterogêneo de leitores-ouvintes, alunos ou não, — tão incondicionalmente favoráveis, uns, quanto ostensivamente contrários, outros, mas todos infalíveis no acompanhamento que fazem dele —, possibilitando com isso a emergência de meia dúzia de jovens parafraseadores de verve, os quais, tão logo cativam um público junto ao dele e o consolidam, garantem que pessoalmente não lhe devem nada.
14.6.14
Requisito
Antes de começarem a lutar pela mudança do mundo, era conveniente aguardarem pelo menos a mudança de voz.
7.6.14
Remorso
Daquelas matérias para as quais eu era impermeável, a mais alienígena à minha compreensão foi sempre a química. As matemáticas me falavam dos números e das figuras geométricas, e eu os conhecia ainda que de vista; a física, por sua vez, me falava de móveis indo de um ponto A a um ponto B, e conquanto me fizesse perguntas a que eu era incapaz de responder, nunca me foi difícil ter em mente do que se tratava. Já a química, de que diabos me falava? Muito por negligência minha, terminei o ensino fundamental bastante longe de saber. Por isso o meu espanto com um livro como A Tabela Periódica, de Primo Levi, — livro autobiográfico em que cada capítulo narra um episódio de sua vida de judeu italiano e químico profissional envolvendo um dos elementos em particular da tabela. Primo Levi discorre sobre uma série de coisas para as quais eu toda vida fui surdo, mas de forma não apenas vagamente compreensível como também cheia de interesse. E tudo porque, além da significância das personagens que relembra e recria, Primo Levi procura dar caráter humano às reações químicas com as quais trabalhava, tirando delas implicações filosófico-existenciais, — ao menos nisso lhes atribuindo uma carga simbólica como a dos antigos alquimistas, sem nunca resvalar, porém, no misticismo. Por exemplo, ao explicar tecnicamente as propriedades reativas do zinco impuro (?), é a situação do judeu numa Itália já sob a vigência das leis raciais que ele ilustra, e assim por diante. Que mundo rico de sentido Primo Levi faz a química parecer, e de quanto remorso vai a leitura me enchendo por ter sido sempre o mais completo ignorante dela.
30.5.14
Questão de tempo
Aquela história de que quem ateia fogo em livro é porque ainda vai ateá-lo em gente me enche de preocupação toda vez que rasgo algum volume demasiado velho da minha estante: quanto tempo, meu Deus, até que eu esteja por aí esquartejando idosos?
29.5.14
“Beleza da intenção”
Um poema de António Botto (uma pequena poética, aliás) que reforça a queixa de Gide, segundo a qual não se faz literatura com bons sentimentos:
Busco a beleza na forma;E jamais
Na beleza da intenção
A beleza que perdura.
Só porque o bronze é de boa qualidade
Não se deve
Consagrar uma escultura.
A par disso, as três repetições de “beleza” ainda na primeira estrofe (a beleza que o poeta busca) revelando sozinhas todo seu projeto estetizante, em que a obra vale ou deixa de valer por si mesma, isto é, por sua forma, indiferentemente à matéria de que é feita (o bronze: os valores morais, as ideias) e a qualquer outro propósito que não o de perduração.
23.5.14
Diálogo
Eu sei que não há nada mais obsoleto que a polêmica da semana anterior. É só que, folheando aqui o meu Assim falou Zaratustra, esbarrei com o que bem poderia ser uma resposta de ninguém menos que Nietzsche à famigerada campanha promovida por Neymar. Fiquei achando o diálogo tão insólito e digno de acontecer que, apesar do atraso e da consequente falta de propósito da coisa, reproduzo a contraparte do alemão, a título de curiosidade. Então quer dizer que somos todos macacos? Foi o tempo. Hoje “o homem é ainda mais macaco do que qualquer macaco”.
20.5.14
Armistício
A música sempre ameaça dissolver a palavra, fazer dela instrumentalidade “vacante”, cerrar as portas do sentido reduzindo a linguagem à tautologia do sonoro. A palavra, por sua vez, põe em perigo a renúncia a toda tradução, a toda paráfrase, a toda redução ao unívoco da verdade analítica e pragmática, renúncia esta que é própria da música. Irmãs para sempre inimigas que entretanto não podem deixar de se encontrar em uma intimidade indissolúvel lá onde a poesia reclama, revoca (estas palavras tão “vocais”) o que nela é canto.
Patinho
Lembro muito bem que uma das razão que me convenceram a ler António Botto — uma das, porque houve outras — foram os elogios de escritores célebres que entremeavam o volume em que estavam coligidas suas “canções”. Eram de vários e vários, mas um em particular teve peso mais decisivo: Miguel de Unamuno. Folheando o voluminho, lá para as tantas, logo antes do início de uma nova série, vinha lá um baita elogio do basco: porque o António Botto isso, a poesia do António Botto aquilo. Ora, se Unamuno o leu e o recomenda...
Até que outro dia, passando desavisadamente por um ensaio sobre a mitomania de outro poeta, dessa vez a do brasileiro Bruno Tolentino — lido e elogiado por não sei que grande poeta francês, casado com a filha de não sei que outro figurão, professor convidado de não sei que universidade inglesa —, o autor, já não recordo quem, mencionava que, caso similar ao deste, talvez só o do — acreditem — António Botto, que parece havia inventado loas e mais loas de escritores de tudo quanto é nacionalidade à sua obra, escritores os quais muito provavelmente nem nunca o leram.
17.5.14
Cruzada
Acabado o vídeo do gato que salvou uma criança do ataque de um cachorro, de repente me sinto capaz de iniciar uma cruzada contra essa espécie abjeta que é a canina — cuja maior virtude é justo algo tão deplorável quanto a sujeição, máximo defeito que compensa e anula uma multidão de outros, e a respeito da qual estão certos os povos muçulmanos, para quem a figura do cão é das mais insultuosas.
Evidente que estou sendo injusto. Tão injusto com os cães quanto seus donos, esses caluniadores, são com os gatos, bichos “traiçoeiros”, que “se apegam mais ao lugar que ao dono”, e sei lá mais quantas merdas incansavelmente ditas e reditas.
Com a diferença de que, se eles são injustos a vida inteira, eu quero ser injusto apenas hoje: os cães não valem nada e merecem a sorte que têm na China.
12.5.14
Ao pai
Não bastasse Kafka passar a carta inteira se dirigindo ao pai como quem se justifica diante de Deus, ainda no final lhe concede a palavra e imagina por ele os possíveis contra-argumentos, fazendo da carta um perfeito Livro de Jó. Bizarro.
8.5.14
Diferença
É verdade que nada que os povos europeus tenham feito de condenável ao longo e a partir do período colonial não foi praticado em igual ou maior escala, antes ou depois, pelos mais diversos povos do mundo — como seus defensores se apressam em lembrar —, com a diferença de que nenhum destes o fez imbuído da caridade cristã e da salvação do mundo.
2.5.14
Admissão
Foi duro mas inevitável chegar ao fim da adolescência e me ver obrigado a admitir que não, eu não era melhor do que o tempo em que vivia, nem mesmo melhor do que o país em que havia nascido, do qual aliás nem teria meios de me livrar caso quisesse. Foi duro, inevitável e cheio de consequências talvez incalculáveis, dentre as quais a principal eu conheço e é a seguinte: desde então, nada se tornou pra mim mais inútil, mais incompatível comigo, mais inconveniente, que o discurso daqueles que — ora pelo apego a uma ideia parcial do passado, ora pela filiação a uma cultura estrangeira mais prestigiosa, ora pela participação no agenciamento de determinado futuro — falam como se de fora do tempo em que vivem, do país em que nasceram, da espécie a que pertencem...
Ameaça
A liberdade foi uma estratégia criada para que se pudesse perseguir em paz aqueles acusados de ameaçá-la.
Tentativa
Quem sabe se tentando ser melhor do que pode o homem não acabou muito pior do que precisa?
24.4.14
Um retrato nem só do artista não só quando jovem
Um dia em que todos os alunos, na hora do recreio, comprimiam-se diante do quadro-negro, ele achou que o momento finalmente havia chegado; aproximou-se sem ser visto de uma garota da classe que ficara sozinha em seu lugar; há muito ela lhe agradava e frequentemente trocavam longos olhares; sentou-se ao lado dela. Ao fim de um instante, quando os alunos, sempre levados, repararam neles, aproveitaram a ocasião para fazer uma brincadeira: saíram da sala de aula cacarejando e fecharam a porta a chave atrás deles.
Enquanto estava cercado pelo ombro de seus colegas, sentia-se natural e à vontade, mas no momento em que se viu sozinho com a garota na sala de aula, teve a impressão de que estava num palco iluminado. Tentou disfarçar seu embaraço com observações espirituosas (finalmente aprendera a dizer coisas diferentes das frases previamente preparadas). Disse que o gesto dos colegas era o exemplo da conduta mais ridícula; não trazia vantagem para quem a cometera (agora eles teriam que esperar no corredor com uma curiosidade insatisfeita) e era vantajosa para aqueles a quem pretendiam atingir (eles estavam a sós como haviam desejado). A jovem concordou e disse que precisavam aproveitar a ocasião. O beijo estava suspenso no ar. Bastava inclinar-se sobre ela. Mas seus lábios estavam inacessivelmente longe; ele falava, falava, e não a beijava.
O sino tocou, o que significava que o professora chegaria de um momento para outro, obrigando os alunos reunidos em frente à porta a abrir a sala. Aquela ideia excitava-os. Jaromil disse que a melhor maneira de vingar-se dos colegas seria fazer com que sentissem inveja ao vê-los se beijando. Ele tocou com o dedo os lábios da garota (onde ia buscar tal audácia?) e disse que o beijo em lábios tão maquiados certamente deixaria uma marca bem visível em seu rosto. Novamente ela concordou, dizendo que era uma pena que não tivessem se beijado, e assim que acabou de dizê-lo, pôde-se ouvir a voz irritada do professor atrás da porta.
Jaromil disse que era uma pena que nem o professor nem os colegas vissem no seu rosto a marca do beijo, e novamente quis inclinar-se sobre a jovem, novamente seus lábios parecendo-lhe tão inacessíveis quanto o monte Everest.
— Sim, eles precisariam nos invejar — disse a jovem, e tirou da bolsa um batom e um lenço, pintou o lenço de vermelho e borrou o rosto de Jaromil.
A porta se abriu, o professor enfurecido precipitou-se para dentro da sala de aula seguido pela tropa de alunos. Jaromil e a jovem levantaram-se como os alunos devem fazer quando um professor entra em sala: eram os únicos em meio às fileiras de bancos vazios, frente a uma multidão de espectadores que tinham os olhos fixos no rosto de Jaromil coberto de magníficas manchas vermelhas. E ele se ofereceu ao olhar de todos, orgulhoso e feliz.
(KUNDERA, Milan. A vida está em outro lugar. Trad. Denise Rangé Barreto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. p. 132-133.)
(KUNDERA, Milan. A vida está em outro lugar. Trad. Denise Rangé Barreto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991. p. 132-133.)
21.4.14
“Comidos pela raiva”
PAISAGEM
Os insetos atarefados,
os cavalos cor de sol,
os burros cor de nuvem,
as nuvens, rochas enormes que não pesam,
os montes como céus desabados,
a manada de árvores bebendo no arroio,
todos estão aí, felizes em seu estar,
diante de nós que não estamos,
comidos pela raiva, pelo ódio,
pelo amor comidos, pela morte.
(Octavio Paz)
Os insetos atarefados,
os cavalos cor de sol,
os burros cor de nuvem,
as nuvens, rochas enormes que não pesam,
os montes como céus desabados,
a manada de árvores bebendo no arroio,
todos estão aí, felizes em seu estar,
diante de nós que não estamos,
comidos pela raiva, pelo ódio,
pelo amor comidos, pela morte.
(Octavio Paz)
Distância
Cada vez que ouço uma conversa a respeito de ambiente de trabalho compreendo um pouco mais os vagabundos.
Preparação
O grande esforço das mulheres é o de reproduzir na viagem a experiência de abrir o guarda-roupa e não ter o que vestir.
9.4.14
8.4.14
O pedido
Não me lembrava de em toda minha vida ter visto uma mulher madura, mãe de família, figura de matrona, mal se aguentando em pé de tão bêbada a caminho de casa, na rua já vazia da madrugada, num expediente tão masculino. Realmente não lembrava. E se não bastasse o impacto já grande da visão — uma mulher que bem poderia ter filhos da minha idade, com suas quatro sacolas de supermercado nas mãos, duas de cada lado, um vestido protocolar até o joelho, botões frontais de cima a baixo, a cor mais neutra, mais discreta possível, envergada, ziguezagueando pela calçada —, aconteceu ainda de ela, no momento exato em que nos cruzávamos, ter parado e perguntado, a voz o próprio desconsolo: “Você me desculpa?” Desculpar o quê, minha senhora? o estado em que volta pra casa? — fiquei pensando, enquanto respondia ainda confuso, mais pra mim do que pra ela e sem exatamente me deter: “Desculpo, claro que desculpo.”
6.4.14
Mudez
Se alguém me perguntasse, eu diria que Lêdo Ivo é o poeta da mudez das coisas. Mudo deve ser o adjetivo que mais usa. De cabeça, lembro de vê-lo aplicado ao céu, ao mundo, ao chão, ao mar, ao corpo... E porque as coisas nada lhe dissessem, estava convocado a proclamar o que elas sonegavam, a dizer tanto a primeira palavra quanto a última, tanto a palavra primordial quanto a definitiva.
Sentido
O sentido da minha vida está nalgum serviço que não descobri a um próximo que não reconheço.
4.4.14
3.4.14
Memória
Os homens acreditam que um dia há milhões de anos desceram das árvores, onde viviam mais seguros. Quando o único lugar do qual desceram, na verdade, foi o colo dos pais, e há nem muitas décadas assim.
2.4.14
31.3.14
Irmãos de dor
Imaginem a cara que não fiz ao tomar conhecimento de que Anna Akhmátova — a mulher de perfil triste mas forte — verteu para o russo um poema de ninguém menos que Antero de Quental. Quer dizer então que ela sabia português?! Não, de fato não sabia, tendo por isso trabalhado sobre uma tradução justalinear feita por outrem. O que não deixa de ser significativo, e não deixa de fazer todo sentido: ninguém cantou o sofrimento de forma tão constante e sublime quanto os dois. O poema em questão chama-se “Zara”, na verdade um epitáfio escrito para o túmulo da menina que dá nome à peça, irmãzinha de um amigo, — poema o qual Antero preferia que nem fosse publicado, mas permanecesse reservado à lápide, só ao alcance de parentes e amigos da família.
ZARA
Feliz de quem passou, por entre a mágoa
E as paixões da existência tumultuosa,
Inconsciente, como passa a rosa,
E leve, como a sombra sobre a água.
Era-te a vida um sonho. Indefinido
E tênue, mas suave e transparente...
Acordaste... sorriste... e vagamente
Continuaste o sonho interrompido.
26.3.14
Uma suspeita
Eu não gosto de crianças, nem de adolescentes, nem de jovens, nem de idosos. Suspeito que gostaria muito dos adultos, caso existissem.
22.3.14
21.3.14
“Roubar com muito”
Do “Sermão do bom ladrão”, de Antônio Vieira, que com isso quase se redime:
Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo mar Eritreu a conquistar a Índia; e como fosse trazido à sua presença um pirata, que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém ele que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: Basta, senhor, que eu porque roubo em uma barca sou ladrão, e vós porque roubais em uma armada, sois imperador? Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres.
18.3.14
Melhor dos casos
No melhor dos casos, o professor é um picareta que começou a ensinar mesmo antes de acabar de aprender.
Impaciência
TROCA DE PNEU
Sento-me à beira da estrada.
O motorista troca o pneu.
Não quero estar lá, de onde venho.
Não quero estar lá, aonde vou.
Por que assisto à troca do pneu
com impaciência?
(Bertold Brecht, trad. Ricardo Domeneck. Poema que me lembra isto.)
Sento-me à beira da estrada.
O motorista troca o pneu.
Não quero estar lá, de onde venho.
Não quero estar lá, aonde vou.
Por que assisto à troca do pneu
com impaciência?
(Bertold Brecht, trad. Ricardo Domeneck. Poema que me lembra isto.)
15.3.14
“Os tiros dos combates”
Gregório de Matos, num dos raros momentos de folga à cretinice, sobre a dissimulação, tão cara ao XVII e tão caluniada a partir do XIX:
Largo em sentir, em respirar sucinto,
Peno e calo, tão fino e tão atento,
Que fazendo disfarce do tormento
Mostro que o não padeço, e sei que o sinto.
O mal, que fora encubro, ou que desminto,
Dentro no coração é que o sustento,
Com que para penar é sentimento,
Para não se entender é labirinto.
Ninguém sufoca a voz nos seus retiros;
Da tempestade é o estrondo efeito:
Lá tem ecos a terra, o mar suspiros.
Mas oh! do meu segredo alto conceito!
Pois não me chegam a vir à boca os tiros
Dos combates que vão dentro no peito.
Miramar
Os temporais de Alexandria. A voz do vento nas janelas. O céu com suas nuvens — obsessivamente lembradas. O Mediterrâneo quebrando sobre a beira-mar. A volta para casa já ao fim da vida. O reencontro com o passado. A decadência.
Mais a sabedoria do velho Amer Wagdi, tão protetor; o cinismo do acuado Tolba Marzuq, nunca antipático, por mais que tente; a beleza bruta e incultivada de Zohra, tão querida; a introversão de Mansur Bahi e seus dilemas, tão compreensíveis; o destino de Sarhan Al-Biheiri, tão merecido...
Um único episódio (o confuso desfecho dos transtornos causados pela presença de uma mulher como Zohra em meio a tantos homens), contado desde a perspectiva de alguns desses personagens, verdadeiramente inesquecíveis.
14.3.14
13.3.14
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