3.11.14

As cordas

Li Ye, poeta chinesa da Dinastia Tang (618-905 d.C.), trad. Ricardo Portugal e Tan Xiao:
CANTO DE SAUDADE
Profundo, dizem do mar, suas águas
tão mais ao fundo chega a saudade
Mar sem margens, larga a sua praia
e mais longe alcança meu sentimento
Tomo o alaúde, subo as escadas
só no terraço, com a lua cheia
e esta canção que diz: estou triste
toco e arrebento as cordas, as tripas

Passadismo

Ezra Pound, Canto XV:
and the laudatores temporis acti
claiming that the shit used to be blacker and richer
Ou, na tradução de Grünewald:
e os laudatores temporis acti
a reclamar que a merda já fora mais escura e fértil

Miseráveis

É 15 de julho de 1949, e Camus está no carro do poeta Augusto Frederico Schmidt, então uma grande referência nas letras brasileiras apesar de hoje completamente esquecido, — Schmidt que havia cometido a grande infâmia de enriquecer como empresário, algo indigno de um vocacionado pelas Musas, sobretudo por Musas como as dele, espirituais, místicas, bíblicas, francesas, católicas: foi dono de uma prosaica rede de supermercados, entre outros empreendimentos. Mas, como eu ia dizendo, é 15 de julho de 1949, e Camus está no carro do poeta e empresário Augusto Frederico Schmidt, e nos conta:
No automóvel, peço que não me levem a um restaurante de luxo. E o poeta emerge de seus 150 quilos e me diz, com o dedo em riste: “Não há luxo no Brasil. Somos pobres, miseráveis”, dando tapinhas afetuosos no ombro do motorista engalanado que dirige seu enorme Chrysler.
(Além de judeu e católico, poeta e empresário bem-sucedido, místico e obeso, Augusto Frederico Schmidt foi presidente do Botafogo. Que biografia.)

29.10.14

The Cantos

A pilhagem de todas as civilizações pelas hordas bárbaras de um homem só. O amontoamento, no mesmo sítio, de todas as ruínas do globo. O refluxo não digerido de mil banquetes pantagruélicos.

27.10.14

Protagonismo

Eu gosto da democracia porque tudo que ela me exige em troca da sensação de protagonismo no drama da redenção cósmica é que eu digite o número certo.

As mortes

A morte como problema a ser vencido (o pecado original, a ressurreição, a reencarnação, a necromancia). A morte como problema a ser aceito (o aproveite enquanto é tempo). A morte como solução que se aguarda (o conforto do nada, o fim das dores). Finalmente, a morte não como problema nem solução, mas como fato natural, de peso igual ao nascimento, nem um pouco digna de choro ou indisposição (tudo se transforma, reorganiza-se).

Retas paralelas

Herman Melville e Walt Whitman nasceram ambos no mesmo ano de 1819, no mesmo estado de Nova Iorque, e de pais da mesma nacionalidade, anglo-holandesa. O primeiro foi de importante família calvinista; o segundo, de uma simples família quaker. Em 1851 Melville publicou Moby Dick, sua principal obra; Whitman publicou a primeira edição de Leaves of Grass em 1855. Melville morreu em setembro de 1891, seis meses antes de Whitman, que morreu em março de 1892. Apesar de tantas proximidades, parece que nunca nem se esbarraram.

22.10.14

O sangue

Poema da colombiana María Mercedes Carranza (1945-2003), tirado de El canto de las moscas (versión de los acontecimientos), livro de 1998, composto de 24 poemas muito breves dedicados cada um a uma região da Colômbia que foi cenário de algum episódio marcante de violência. O tanto de coisas em tão poucos versos: a assonância trivial de “rosas rojas”, do 3º verso, alongada pelas sibilantes “es”/“as” do verso seguinte, o único com 7 sílabas, dividindo o poema em duas partes de três versos com 3 ou 6 sílabas cada, a primeira parte a da ilusão embelezadora (o lugar comum, o verbo “poético”: “rosas rojas esparcidas”), a segunda a do choque do desvendamento (as coisas como elas são: “No son rosas, es la sangre”); o sangue que deixa de correr nas veias pra correr em “otros caminos”, os do rio; rio que é “dulce”, isto é, de águas mais densas que a água pura, graças à viscosidade do sangue...

DABEIBA
El río es dulce aquí
en Dabeiba
y lleva rosas rojas
esparcidas en las aguas.
No son rosas,
es la sangre
que toma otros caminos.

O eco e o terror

Homero, Ilíada, IV, 446-455, trad. Frederido Lourenço:
Quando chegaram ao mesmo sítio para se enfrentarem uns aos outros,
brandiram todos juntos os escudos, as lanças e a fúria de homens
de brônzeas couraças; e os escudos cravados de adornos
embateram uns contra os outros e surgiu um estrépido tremendo.
Então se ouviu o gemido e o grito triunfal dos homens
que matavam e eram mortos. A terra ficou alagada de sangue.
Tal como os rios invernosos se precipitam das montanhas,
atirando juntos o enorme caudal para a embocadura de dois vales,
e das poderosas nascentes vêm lançar as águas num oco desfiladeiro,
e lá longe nas montanhas o pastor chega a ouvir-lhes o estrondo —
assim era o eco e o terror dos que embatiam uns contra os outros.

19.10.14

Peculiaridade

Só mesmo o Brasil pra dar ao mundo essa espécie tão peculiar de artista recluso: o artista recluso que sempre aparece.

18.10.14

A lembrança

Havia dias em que a única razão por que não abandonava os livros pra se fazer motorista de ônibus era a lembrança de que não sabia dirigir. 

O fim

O mundo está pra acabar desde o anoitecer do primeiríssimo dia, que já Adão temeu que fosse último. 

17.10.14

Silêncio perfeito

QUANDO OUVI O ASTRÔNOMO ERUDITO

Quando ouvi o astrônomo erudito;
Quando as provas e as cifras foram dispostas em colunas à minha frente;
Quando me apresentaram mapas e diagramas para os somar, dividir e mensurar;
Quando, sentado, ouvi o astrônomo, no auditório onde ele palestrava sob aplauso;
Logo e sem explicação fiquei cansado e farto;
Até que, me levantando e saindo, caminhei a sós,
Pelo úmido e místico ar da noite, e a intervalos
olhava em perfeito silêncio pras estrelas.

§

WHEN I HEARD THE LEARN'D ASTRONOMER

When I heard the learn’d astronomer;
When the proofs, the figures, were ranged in columns before me;
When I was shown the charts and the diagrams, to add, divide, and measure them;
When I, sitting, heard the astronomer, where he lectured with much applause in the lecture-room,
How soon, unaccountable, I became tired and sick;
Till rising and gliding out, I wander’d off by myself,
In the mystical moist night-air, and from time to time,
Look’d up in perfect silence at the stars.

(Walt Whitman)

16.10.14

Prêmio

Prêmio de pior melhor metáfora da literatura ocidental (pior pelo mau gosto, melhor pela propriedade) para o pré-socrático Empédocles de Agrigento, que, segundo a tradução na qual o li, aparece chamando o mar de o “suor da Terra”.

A quantidade

“Não compensa nem um pouco ir a um show de jazz. A pessoa paga por uma hora de apresentação, durante a qual tem a oportunidade de ouvir — o quê? — três músicas? Um roubo...”

Solução

Buscando esvaziar um recipiente com água já até a metade, não bastará que o deixem apenas de encher. Outra medida indispensável será entorná-lo.

Origem

Sonhei que lembrava a Ilíada a quem reclamava comigo de o samba só falar de abandono e traição. “A literatura ocidental se inaugura com o drama de um corno.”

12.10.14

Equívoco

Estranho equívoco do repertório poético ocidental: as duas estrelas brilhando nos olhos da gente clara feito o dia. 

10.10.14

Injustiça

Se há uma coisa na vida que ele em hipótese alguma admite, é que se cometam injustiças na sua frente, razão pela qual vira rapidamente as costas.

29.9.14

Os melhores

Todo o problema norte-americano com o futebol se resume ao fato de que só pode haver algo de fundamentalmente muito equivocado com um esporte no qual eles não conseguem ser os melhores.

Precursor

Há um pseudoepígrafo chamado Livro dos Segredos de Enoque, ou Segundo Livro de Enoque, ou ainda Enoque Eslavo — já que o único manuscrito que existia era em tradução para o eslavo, até que se acharam fragmentos dele em copta —, uma grande loucura apocalíptica que busca lançar luz sobre episódios canônicos mais enigmáticos, como por exemplo o envolvendo a impiedade dos nefilim, entre outros. Ninguém sabe ao certo quando foi escrito — século I é a data mais provável —, nem a língua — provavelmente em grego —, nem se de autoria judaica ou cristã — possivelmente judaica.

Mas isso tudo apenas pra dizer que fui folheá-lo outro dia e, de cara, duas coisas me chamaram a atenção:

— o livro começa no mesmíssimo e tão conhecido clima kafkiano, com Enoque acordando de uma incômoda noite de sono e enxergando ao pé da cama dois homens — anjos de aspecto terrível — que o comunicam a intimação divina para uma visita aos céus;

— e o mais surpreendente: Enoque acompanha os tais anjos indo de céu em céu: 1º céu, 2º céu, 3º céu, 4º céu, e assim por diante, até o 7º céu, se não me engano. E depois conta o que viu em cada círculo: anjos, arcanjos, o trono de Deus... Sim, sim. Exatamente a viagem que Dante, mil e duzentos anos depois, vai refazer.

28.9.14

O pedido

Eu era capaz de jurar que somente pessoas vestidas como destaque de carro alegórico estavam autorizadas a chegar a um balcão de lanchonete e pedir um copo de morango com amora batidos na água de coco. Mas parece que não.

25.9.14

Nosso

Segundo o senhor Antônio Cândido, a literatura brasileira é, no conjunto, um Chevette caindo aos pedaços que, se é verdade que não vale nada, pelo menos é nosso.

20.9.14

Parte da realidade

¿Podemos hoy imaginar el mundo sin Don Quijote? Cuesta mucho. ¿Sin Hamlet? Cuesta mucho. Sin embargo, hubo una época en que no existían. Hoy ellos forman parte de la realidad porque fueron imaginados; lo que se imagina se convierte entonces en parte de la realidad indisoluble y ya no puedes entender la realidad sin lo que imaginó el escritor.

(Carlos Fuentes)

Desimportância

Carlos Fuentes, escritor mexicano falecido não faz muito, é autor de um ensaio belíssimo chamado, vejam vocês a consideração, “Machado de La Mancha”. Nunca o li, mas soube que nele Fuentes chama de milagre pra cima ao nosso Machado — um herdeiro solitário de Cervantes em pleno realismo romântico e naturalista oitocentista e, não bastasse isso, ainda por cima no Brasil, esse grande cu do mundo.

Acontece que Fuentes foi muito amigo de Milan Kundera, compartilhando com este a mesma concepção alternativa de romance. Se conheceram primeiro ainda na República Tcheca, quando Fuentes foi até Praga com García Márquez e Cortázar só pra conhecê-lo. E depois que Kundera se exilou na França, passaram a se frequentar com regularidade, já que Fuentes era embaixador do México em Paris justo naquele período, anos 60 ou 70, nem sei.

E se relembro esses dois fatos aparentemente sem relação é apenas porque de repente fiquei imaginando Fuentes falando pra Kundera sobre Machado, um autor que este certamente teria colocado em seu panteão, assinalando-o como precursor junto de Sterne, Diderot, Musil, Broch. E fiquei lembrando o que o próprio Kundera diz sobre o isolamento das línguas periféricas. Segundo ele, qual seria hoje a importância mundial de Kafka, tivesse este escrito em tcheco? Nós, infelizmente, sabemos a resposta.

A nossa e a deles

Entre a nossa ociosidade e a deles, há páginas de diferença.

14.9.14

A outra palavra

Hoy, al leer en un periódico una noticia sobre no sé qué película, tropecé con esta frase: el hombre no es un pájaro. Y pensé: decir que el hombre no es un pájaro es decir algo que por sabido debe callarse. Pero decir que un hombre es un pájaro es un lugar común. Entonces… entonces el poeta debe encontrar la otra palabra, la palabra no dicha y que los puntos suspensivos de “entonces” designan como silencio. Así, luche con el silencio.
 
(Octavio Paz, em carta de 23 de abril de 1967, ao também poeta Pere Gimferrer.)

10.9.14

Música

É incrível como todos os deuses do mundo ensejam boa música, mesmo os verdadeiros. 

7.9.14

Aplicativo

Hoje em dia já está quase tão difícil tomar um táxi sem o auxílio de um aplicativo pra celular quanto manter uma conversa.

Unanimidade

O único desacordo entre os homens é quanto ao que afinal justifica a violência.

6.9.14

Consciência

É preciso que as pessoas se conscientizem de que já são muitas as câmeras espalhadas para que se continue possível ser humano impunemente.

5.9.14

A invenção da barbárie

O mundo está terminantemente proibido de tudo quanto a Europa se cansa. 

Perspectiva

Os europeus que conquistaram as Américas e as civilizaram: colonizadores. Os mouros que civilizaram a Península depois de a conquistarem: invasores. 

Reconquista, o nome dado à expulsão dos colonos mouros, depois de quase oitocentos anos de presença na Europa. Depois de míseros quinhentos anos nas Américas, alguma chance de retomada indígena junto ao invasor europeu? 

2.9.14

Oliverio Girondo II

NOTURNO

Frescor dos vidros quando se apoia a testa na janela. Luzes tresnoitadas que ao serem apagadas nos deixam ainda mais sós. Teia de aranha que os arames tecem sobre os terraços. Trote oco dos pangarés que passam e nos emocionam sem razão.
O que nos faz recordar o uivo dos gatos no céu, e qual será a intenção dos papéis que se arrastam pelos pátios vazios?
Hora em que os velhos móveis aproveitam para sacar as mentiras, e em que os encanamentos têm seus gritos estrangulados, como se asfixiassem dentro das paredes.
Às vezes se pensa, quando se vira a chave da eletricidade, no espanto que as sombras sentirão, e gostaríamos de avisar a elas, para que tivessem tempo de encolher-se nos cantos. E às vezes as cruzes dos postes telefônicos sobre os terraços têm algo de sinistro, e gostaríamos de roçar-nos às paredes como um gato ou um ladrão.
Noites nas quais desejaríamos que nos passassem a mão pelas costas, e nas quais subitamente se compreende que não há ternura comparável à de acariciar algo que dorme.
Silêncio! – grilo afônico que nos entra pelo ouvido. Canto das torneiras mal fechadas! – único grilo que convém à cidade.

Buenos Aires, novembro, 1921.

Oliverio Girondo I

PEDESTRE

No fundo da rua, um prédio público aspira o mau cheiro da cidade.
As sombras quebram a espinha nos umbrais, se recostam para fornicar na calçada.
Com um braço preso à parede, um lampião apagado tem a visão convexa da gente que passa de automóvel.
Os olhares dos transeuntes sujam as coisas que se exibem nas vitrines, afinam as pernas que pendem sob a capota das carruagens.
Junto ao meio-fio, uma banca acaba de engolir uma mulher.
Passa: uma inglesa idêntica a um lampião. Um bonde que é um colégio sobre rodas. Um cachorro fracassado, com olhos de prostituta que nos dá vergonha de ver e deixar passar.
De repente: o guarda na esquina detém com um golpe de batuta todos os estremecimentos da cidade para que se ouça, em um só sussurro, o sussurro de todos os seios que se roçam.

Buenos Aires, agosto, 1920.

22.8.14

Métodos

A grande esperança é de que a ciência evolua até o ponto de alcançar métodos de eugenia capazes finalmente de acabar com o risco de nascerem os eugenistas. 

21.8.14

O Deus e o céu dos espanhóis

Palavras atribuídas ao cacique Hatuey, a propósito dos primeiros colonizadores, por Frei Bartolomeu de las Casas:
Sabeis vós que os espanhóis vêm por aqui e de que maneira trataram a tais e tais tribos e por que assim o fazem? Responderam-lhe que não, senão que eram de sua própria natureza maus e cruéis. Ele então lhes disse: Não é só por isso, mas também porque têm um Deus que adoram. E, olhando junto de si uma cesta cheia de ouro e de joias, disse: Eis aqui o Deus dos espanhóis.
Outro episódio, envolvendo o mesmo Hatuey:
Este senhor e cacique fugia sempre aos espanhóis e se defendia contra eles toda vez que os encontrava. Por fim, foi preso com toda a sua gente e queimado vivo. E como estava atado ao tronco, um religioso de São Francisco (homem santo) lhe disse algumas cousas de Deus e de nossa Fé, que lhe pudessem ser úteis, no pequeno espaço de tempo que os carrascos lhe davam. Se ele quisesse crer no que lhe dizia, iria para o céu onde está a glória e o repouso eterno, e se não acreditasse iria para o inferno, a fim de ser perpetuamente atormentado. Esse cacique, após ter pensado algum tempo, perguntou ao religioso se os espanhóis iam para o céu; o religioso respondeu que sim, desde que fossem bons. O cacique disse incontinenti, sem mais pensar, que não queria absolutamente ir para o céu; queria ir para o inferno a fim de não se encontrar no lugar em que tal gente se encontrasse.

14.8.14

Fenômeno

Eu gostaria de chamar a atenção de vocês para um fenômeno peculiaríssimo, talvez nunca antes visto na história, o qual somente nós, com toda a clareza mental que nos é própria, poderíamos proporcionar:

No Brasil, ninguém faz um só ataque à Igreja Católica, sem que de imediato apareça um protestante para o refutar.

13.8.14

Segredo

O segredo está em dançar conforme a música, alegando porém ter escolhido o repertório.

This here

Now we're about to play a new composition, by our pianist Bobby Timmons. This one is a jazz waltz, however it has all sorts of properties. It's simultaneously a shout and a chant, depending upon whether you know anything about the roots of church music, and all that kinda stuff — meaning soul church music — I don't mean, uh, Bach chorales and so, that's different. You know what I mean? This is SOUL, you know what I mean? You know what I mean? Allright.

7.8.14

Fases

Na Ilíada, os homens desabam mortos feito “árvores cortadas”. E no chão permanecem, segundo o Corão, como “troncos ocos”.

6.8.14

Afinidade

A única divergência que um grupo de pessoas não supera, hoje, é a divergência a respeito de que outros grupos se precisa rir.

5.8.14

Alfonso Reyes

Poeta e ensaísta de ampla cultura, o mexicano Alfonso Reyes (1889-1959) foi também diplomata, em função do que teve uma ligação muito estreita com o Brasil, mais especificamente com o Rio de Janeiro, onde viveu como embaixador durante a década de 30. Apesar de ter sido — diz-se — um dos grandes divulgadores da cultura brasileira no México, e ter sido interlocutor de alguns dos principais escritores brasileiros de então, como Manuel Bandeira e Cecília Meireles, a obra de Reyes é quase absolutamente desconhecida entre nós, salvo engano meu nunca tendo sido traduzida. Como calhei de achar um volume da Fondo de Cultura Económica com sua Obra poética, ficam aqui três poemas dele à guisa de apresentação.

COM A VERDADE SABIDA E BOA FÉ GUARDADA

Para ser sincero, não aguento ninguém,
e só junto ao mar é que respiro.
Aí lhes deixo meus trajes, o que chamam de “roupas
de ir à missa”,
minha coleção de cachimbos, de bengalas,
de canetas-tinteiros, de lâminas Gillette,
meu rádio, os telefones que funcionam,
o aluguel pago,
a luz, o gás, os livros, as visitas,
os vizinhos; deixo o automóvel;
tudo lhes deixo, em troca
de uma poltrona a estibordo
de onde cante o mar e bata o sol.
Logo me arranjarei: me deixem em paz.
Sei muito bem o que quero quando estou a sós.
Esqueçam-se de mim, que eu me entendo
enquanto deixam de pedir-me a alma
de empréstimo para isto e para aquilo.
Já estou farto!
Deixem-me dormido sobre o mar!

A VERDAD SABIDA Y BUENA FE GUARDADA

Para decir verdad, no aguanto a nadie,
y yo sólo respiro junto al mar.
Les dejo ahí mis trajes, lo que llaman "trapitos
de cristianar",
mi colección de pipas, de bastones,
de plumas-fuente, de láminas Gillette,
mi radio, los teléfonos en marcha,
el alquiler pagado,
la luz, el gas, los libros, las visitas,
los vecinos; les dejo el automóvil;
todo los dejo, a cambio
de una butaca al estribor
a donde cante el mar y pegue el sol.
Ya yo me arreglaré: déjenme en paz.
Sé muy bien lo que quiero cuando me quedo solo.
Olvídense de mí, que yo me entiendo
en cuanto dejan de pedirme el alma
prestada para esto y para estotro.
¡Y ya me tienem harto,
Y déjenme dormido sobre el mar!

*
DESCONCERTO DO POETA
Atônito, o poeta surgiu desde seus mares,
coberto de algas;
mas a fosforescência que levava nos olhos
não o deixava ver.
Como em seu reino aquático,
o ar lhe grumava a garganta,
e queria nadar pelo espaço,
aos tropeções.
A multidão o rodeou aos gritos,
e acreditou ensurdecer.
De ásperas grinaldas o coroaram,
e acreditou que lhe deitavam cadeias de louros,
cadeias nas têmporas, as piores cadeias,
pois já nada permitem compreender.
E disse à Sereia:
— Fujamos rapidamente para onde não nos vejam
(a Sereia era sua mulher);
voltemos às grutas de âmbar cristalino
e ao mar cor de vinho
que espairece ao amanhecer
quando, ao frescor, borbulha o peixe,
e me arranque estas tranças de louros
que me arranham a pele.

DESCONCIERTO DEL POETA

Atónito, el poeta surgió desde suas mares,
enredado de algas;
mas la fosforescencia que traía en los ojos
no lo dejaba ver.

Hecho a sua reino acuático,
el aire le agrumaba la garganta,
y quería nadar por el espacio,
dando sólo traspiés.

Lo rodeó la multitud a gritos,
y creyó ensordecer.
Lo coronaron de guirnaldas ásperas,
y creyó que le echaban cadenas de laurel,
cadenas en las sienes, las peores cadenas,
que ya nada dejan entender.

Y dijo a la Sirena:
— Huyamos prontamente a donde no nos vean
(la Sirena era su mujer);
tornemos a las grutas de ámbar cristalino
y al mar color de vino
que se solaza en los amaneceres
cuando, a la fresca, burbujea el pez,
y arráncame estas trenzas de laureles
que me arañan la piel.
* 
SUICÍDIOS
A que triunfo, a que derrota
carregava a espingarda entre suspiros,
e apertando o gatilho com o dedo do pé,
cerimonial, entrava no suicídio?
Com que esperança, com que desesperança
pendurava da viga
o cacho de ossos e de carnes,
com um palmo de língua como único adeus?
Que alquimia diluída
de pó vermelho e taça fumegante
lançou em suas entranhas
as alígeras ondas da morte?
Honesto comerciante de Romeo:
tu lhe deste a beberagem;
tu a corda, baú do avô marinheiro;
saco dos esportes de verão,
tu a pólvora, tu a munição.
Tudo estava previsto, até o anzol
do insaciável deus que pesca as criaturas;
até a gargalhada com que se foi do mundo,
ó sacramento,
deixando-nos a burla de um fantoche,
para arrastá-lo em carro de triunfo, lentamente,
com mãos delirantes e coroas.

SUICIDIOS

¿Para qué triunfo, para qué derota
cargaba la escopeta entre suspiros,
y apretando el gatillo con el dedo del pie,
ceremonial, entraba en el suicidio?

¿A qué esperanza, a qué desesperanza
colgaba de la viga
los racimos de huesos y de carnes,
con um palmo de lengua como único adiós?

¿Qué alquimia diluída
de rojos polvos e humeante copa
echó por sus entrañas
las alígeras ondas de la muerte?

Honesto comerciante de Romeo:
tú le diste la pócima;
tú la cuerda, baúl del abuelo marino;
hato de los deportes veraniegos,
tú la pólvora, tú los perdigones.

Todo estava previsto, hasta el anzuelo
del insasiable dios que pesca las criaturas;
hasta la carcajada con que se fué del mundo,
oh sacramento,
dejándonos la burla de un pelele,
para arrastrarlo en carro de triunfo, lentamente,
con manos delirantes y coronas.

4.8.14

Encontro

O Ocidente nasce quando o povo que despreza os que não falam sua língua encontra o povo que despreza os que adoram outros deuses.