Parte essa leitura de um evidente preconceito que só não nos incomoda porque é também o nosso: a dignidade do homem comum. A partir desse valor que nem todas as épocas cultivaram, ele hierarquiza em mais ou menos desenvolvidas as obras literárias de todas as épocas, desde o limitado e aristocrático Homero ao democrático romance moderno.
Muito distante de uma definição estreita de realismo como princípio literário nascido no séc. XIX, para Auerbach cada época teve o seu realismo, isto é, sua maneira de representação literária da realidade. Em compensação, nenhuma tão eficaz quanto o nosso. (Agora, o que é mais antipático: dar uma definição de realismo que exclua a literatura de todas as épocas anteriores ao século XIX, ou dizer que cada época teve o seu realismo, mas todos extremamente insuficientes quando comparados com o de Balzac?)
Em todo caso, Mimesis oferece duas possibilidades de leitura: uma leitura avulsa, cada ensaio valendo pelas obras e épocas comentadas por Auerbach (e nisso seus estudos são insuperáveis em abrangência e acuidade); ou no conjunto, um ensaio após o outro segundo a ordem, catando nas entrelinhas as pressuposições do autor, essas sim discutíveis.
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