Numa época em que grupos de homens iam e vinham pelo oceano ao encontro de povos inteiros e os espoliavam, catequizavam, descreviam, e criavam vilas e cidades e colônias, um inglês imagina a história insuportável de um grande solitário que não fala de outra coisa além de si.
Quer dizer que, se no princípio de tudo, Apuleio imagina um homem que, transformado em asno, vai pelo caminho muito atento a todas as histórias que ouve narradas diante de si, mil e quinhentos anos depois Defoe imagina um homem preso numa ilha deserta com apenas uma única e interminável história para contar: a própria. Chegamos a um desinteresse quase monstruoso pelo outro.
Quanto a essa história, ao opor-se à viagem do filho, o pai do jovem Crusoé dá o retrato perfeito da então nova classe intermediária, destinada só ao conforto e ao bem-estar, uma vez que podia se manter afastada dos dois extremos que eram a miséria dos pobres e a sede de glória dos grandes senhores. O único pecado dessa nova classe, ou seu pecado original, segundo o náufrago: a insatisfação.
Crusoé era puritano. Assim, viver solitário numa ilha também lhe conferia uma série de vantagens, já que o mantinha apartado da corrupção do mundo e da perseguição da igreja oficial. Nessa ilha, Crusoé não tem distrações nem tentações, apenas o trabalho. Também não tem autoridades clericais com que disputar a liberdade de culto, nem qualquer outra fonte de conhecimento religioso além da leitura repetitiva da Bíblia auxiliada pelo Espírito Santo. Para que mais?
Além de puritano, ou talvez mesmo antes de ser puritano, Crusoé era filho de mercador. De maneira que, a partir de agora, sempre que pensar na relação entre protestantismo e capitalismo, eu, que nunca li Max Weber, vou pensar no consolo espiritual obtido por Crusoé ao fazer o registro contábil, num livro de débitos e créditos, das desgraças e dos benefícios recebidos de Deus por ocasião do naufrágio.
Nenhum comentário:
Postar um comentário