13.8.12

Entre a esquerda e a direita

Me informam que hoje, 13 de agosto, é dia dos canhotos, o que, sendo assim, o faz em parte um dia meu. Em parte porque, graças à santa que me alfabetizou, acabei adquirindo um tipo peculiar de ambidestria, cujo lado bom varia da mão para o pé. Vejam bem: sou um ser humano tão especial, que, não satisfeito em ser canhoto, arranjei de ser um canhoto que escreve com a direita. E se me perguntassem pelo maravilhoso efeito disso em minha vida, eu só conseguiria responder que, se ser canhoto causa desconfiança em quem vê, ser meio-canhoto a causa inclusive em quem é.

7.8.12

Exemplo

Em favor da religião, o exemplo dos que a combatem; contra ela, o dos que a defendem. 

Cativeiro

Em época de redes sociais, ninguém se põe integralmente a salvo dos pais enquanto não toma deles as fotos da infância. 

5.8.12

Literatura

O que mais me interessa na filosofia é a literatura, que é o que nesta menos me interessa. 

Olimpíadas (2)

À parte a falta de estrutura, que afeta mesmo os esportes de eleição, outro grave problema do Brasil é a desigualdade, que o condiciona a uma dispersão mediocrizante. Tirando a parcela brasileira do país (interessada nos esportes já sedimentados, é verdade, com os quais tem contato imediato na rua, no colégio ou no clube da esquina, quase sempre porém sem meios para uma futura dedicação mais exclusiva, profissional), as demais querem a prática daqueles que seguem à distância, pela TV, bem pouco preocupadas com se terão os requisitos físicos e temperamentais que lhes ensejem alguma excelência. Enquanto algumas nacionalidades, mais conscientes de suas limitações, isto é, de seu caráter, dedicam-se aos esportes que lhes são mais propícios (há países que só levantam peso, outros que só correm nas provas de fundo, outros que prioritariamente nadam), há brasileiros que se metem até em Olimpíadas de Inverno.

Sarah


Mayra


4.8.12

Olimpíadas

O monopólio do futebol, esporte coletivo em que não raras vezes e pelas mais diversas razões times muito piores conseguem vitórias sobre outros bem melhores, nos privou aos brasileiros da apreciação de esportes individuais cuja competição — embora às vezes simultânea, como em algumas modalidades do atletismo e na natação — é do atleta contra seus próprios limites; esportes em que o outro, o adversário, não existe, ou antes é o atleta mesmo. O brasileiro ama o futebol e desconfia de qualquer esporte feito para a vitória certa dos melhores e a derrota inescapável dos piores, sendo absolutamente incapaz de aceitar que, no caso específico, haja o conhecimento prévio das marcas pessoais, as quais só serão batidas, na hora H, por uma espécie improvável de complô cósmico, quase uma ajuda divina típica das epopéias. A chance de vitória quando a melhor marca pessoal não é a melhor do mundo é o sujeito atingi-la torcendo pra que os favoritos tenham entrado em litígio conjugal semanas antes do torneio, ou perdido a mãe na véspera da prova, ou acordado com disenteria. No mais, é o favorito quem leva, ou deixa para o segundo favorito, a chance de zebra sendo nula: — algo com o qual não chegamos nunca a nos comover.

3.8.12

Acréscimo

Aos já muitos impendimentos à leitura, trataram de acrescentar a falta de bateria. 

31.7.12

A quarta hipótese

Num dos contos de Pouco amor não é amor, de Nelson Rodrigues, um sujeito acaba de ler, na véspera do casamento, um bilhete da noiva endereçado a outro homem e pensa consigo: “Ou mato Iracema, ou mato o amante, ou me mato. Ou, ainda, não mato ninguém e deixo tudo como está.”

30.7.12

Quadras

17
No baile em que dançam todos
Alguém fica sem dançar.
Melhor é não ir ao baile
Do que estar lá sem lá estar.

62
Não digas mal de ninguém,
Que é de ti que dizes mal.
Quando dizes mal de alguém
Tudo no mundo é igual.

300
A vida é um hospital
Onde quase tudo falta.
Por isso ninguém se cura
E morrer é que é ter alta.

PESSOA, Fernando. Quadras ao gosto popular. 3. ed. Lisboa: Edições Ática, 1975.

22.7.12

Aparência, ou nem isso

Boa parte das suposições só não é de todo inútil porque ao menos expõe os que as cometem. Por exemplo, sempre que alguém se apressa em dizer, convicto, que algo que nem de longe implique a cessão da retaguarda para fins libidinosos é coisa de viado, o que daí se pode inferir, exclusivamente, é que ele não seria capaz de praticá-lo sem ver-se tentado a oferecer a dele, num verdadeiro cuspe para o alto. Nas palavras de António Botto:
Quando alguém
Só por suposições
Afirma
Alguma coisa má de nós
É porque tem a consciência
De que posto no mesmo caso
Nele seria uma verdade
O que em nós é aparência.

19.7.12

Ou seja

Canso de ver criticarem a frouxidão brasileira, atestada ora na preferência nacional pelo futebol em lugar, por exemplo, do rugby, ora na tibieza da nossa música popular quando comparada ao rock, ou ainda no quietismo de nossos poetas, todos homens encolhidos, de gabinete... Mas se lembramos que fomos nós, essa raça anêmica e covardola, a idealizadora de algo como o vale-tudo, a versão original e masculina do MMA norte-americano, já cheio de não-me-toques; se lembramos que ele surgiu com uma família brasileira desafiando lutadores de todo o mundo, de todas as modalidades, fossem o peso e o tamanho deles quais fossem, não só prometendo superioridade, como sendo de fato superior; se lembramos que, até hoje, perdido o propósito cruamente marcial em nome do comercial e do esportivo, há um sem-número de brasileiros entre os mais respeitáveis, alguns já verdadeiras lendas entre os praticantes de artes marcais do Japão e dos EUA; se lembramos disso tudo, em vez da celebração da macheza tão cobrada, falam aqueles mesmos críticos, agora, em barbárie, selvageria.

Cortesia

Se a brevidade é a cortesia do escritor, sem dúvida que a do editor são as orelhas, nossos melhores marca-páginas.

Tempo

Em geral, o protestante é alguém tão preocupado com o que está ou não de acordo com a Bíblia que mal lhe sobra tempo de conformar-se a ela.

14.7.12

Os livros

A mania dos franceses é presumir de talentos, e a mania dos que presumem de talentos é escrever livros. Não há no entanto coisa mais mal imaginada: a natureza judiciosa havia disposto que fossem transitórias as loucuras dos homens, e os livros as imortalizam. Um néscio devera contentar-se com haver aborrecido a todos quantos viveram com ele, e ainda quer fazer penar as gerações futuras; quer que a sua necedade triunfe do esquecimento, de que teria podido gozar como do túmulo; quer, enfim, que a posteridade saiba que ele viveu, e que não ignore que foi um parvo.

MONTESQUIEU. Cartas persas. Tradução de Mário Barreto. São Paulo: Martin Claret, 2009. p. 101.

13.7.12

Marcial

Ninguém mais pervertido que Fulano,
Engravatado em pleno Carnaval.

Nil lascivius est Charisiano:
Saturnalibus ambulat togatus. 

9.7.12

Peso do mundo

Assombro

Século de assombro — este século
De violência em progresso.
E os outros séculos?
Cada ser humano ao sentir o peso do mundo
não terá dito: século de assombro?
.........................................


LISBOA, Henriqueta. Obras Completas I: Poesia Geral, 1929/1983. São Paulo: Duas Cidades, 1985. p. 518.

5.7.12

Acepções

A política, na melhor acepção da palavra, faz-se justamente com a pior. 

3.7.12

Pé da letra

Os com alguma familiaridade com os Evangelhos nem precisam de ter cursado Direito pra saber que, quanto às leis, o perfeito cumprimento da letra não passa, por vezes, da maneira mais cabal de negar seu espírito. E, apesar de alheio a rigorosamente tudo quanto diz respeito às disputas políticas do Paraguai, não pude não relacionar o pouquíssimo que li nos últimos dias sobre elas (sempre graças à tomada de partido dos colegas de Facebook) a esse episódio protagonizado pelo incomparável (como o chama Idries Shah) Mulá Nasrudin.
A lei ao pé da letra
Nasrudin encontrou na rua um anel valioso, com o qual quis ficar. De acordo com a lei, no entanto, aquele que encontra um objeto de valor tem de ir até a praça do mercado anunciá-lo por três vezes, em voz alta.
Às três da manhã, o Mulá dirigiu-se até ela, gritando: “Encontrei um anel assim-assado!”
Ao terceiro grito, as pessoas começaram a aparecer.
“Do que se trata, Mulá?”, perguntaram.
“A lei determina uma tripla repetição”, respondeu Nasrudin, “e pelo que sei posso infringi-la repetindo uma quarta. De modo que lhes digo outra coisa: sou o proprietário de um anel de diamantes, vejam só.

2.7.12

Suspeitas

Os livros, ou respondem a vagas suspeitas prévias, ou nada nos dizem. 

Nenhum

João Guimarães Rosa dizia ter chegado a conhecer por volta de vinte idiomas, optando eventualmente por escrever em nenhum. 

Big Brother

Outro reality show, agora com gatos. Sete deles, recém-nascidos, mais a mãe, Noodles. É dar a sorte de pegá-la entrando no cercado para os amamentar, e ver a barafunda em que a coisa, antes tão absolutamente calma (a essa altura do campeonato, além de comer, eles dormem), se transforma. 

26.6.12

Eleições

O único problema das eleições é que em alternativa a um candidato não há senão outros. 

Relógios

Ben sei que non hai nada
novo en baixo do ceo,
que antes outros pensaron
as cousas que ora penso.

E ben, ¿para qué escribo?
e ben, porque así semos,
relox que repetimos
eternamente o mesmo.

CASTRO, Rosalía de. PoesiaTraducción, selección y prólogo de Mauro Armiño. 7ª ed. Madrid: Alianza Editorial, 1999. 109 p.

21.6.12

Brasil

Só nos ficou faltando a independência em relação aos que a fizeram. 

Modernismo

A grande obra da primeira geração modernista, a única que a sobreviveu: a língua em que escreveram as seguintes. 

18.6.12

João Ternura

Livro póstumo do mineiro-carioca (mais um) Aníbal Machado (1894-1964), só publicado em 65, João Ternura começa como um livro de José Lins do Rego: a infância na chácara paterna; as inundações do rio que a corta; a amizade com o negro Isaac, filho de uma das libertas da casa, de quem ele gosta mas abusa; o fascínio pelas mulatas; a paixão platônica das tias solteiras; o beijo furtivo na prima, meio perdida; o avô excêntrico, que se orgulha do atrevimento e o prognostica um novo Napoleão... 

Mas, enquanto muda a economia do país; enquanto, com isso, a família quebra e vende a chácara, chega esse João que dá nome ao livro à capital da conturbada república, — o que o torna algo que o romance nordestino, por maior que tenha sido, não pôde nos dar: um retrato da vida carioca.

Esse João Ternura, rei do pequeno mundo que era a propriedade do pai, no interior de Minas, aparece ao fim da adolescência no Rio de Janeiro. Não um Rio de Janeiro qualquer, mas o da Revolução de 30, da qual participa de modo cômico e todo próprio; o Rio de Janeiro do comunismo clandestino, cujas ações acompanha sem muita compreensão; o Rio de Janeiro dos discursos patéticos em praça pública e do trabalho à paisana da polícia ideológica; o Rio de Janeiro dos grã-finos (sempre bestas) e da gente do morro, entre os quais transita igualmente alheio; e, mais impressionante que tudo, o Rio de Janeiro do carnaval em todo seu esplendor catártico: narra Aníbal Machado, entre muitos outros episódios, o do indivíduo que, sem qualquer fantasia, se apresenta hieraticamente como Deus, despertando a fúria de uns poucos e a temerosa reverência da maioria, que passa a segui-lo pelos bairros do subúrbio...

Aparece nesse Rio de Janeiro — e naufraga. João Ternura é, assim, a história de um fracasso. A história de uma inadaptação. Inadaptação à nossa vida, já que estão lá nossos bairros, nossas ruas. Estão lá os tipos cujas sombras vemos até hoje, não obstante as mudanças. 

Especial, ainda, é a forma empregada. O livro dispensa a forma tradicional do gênero romance, uma vez que é todo ele feito de fragmentos agrupados em ordem perceptivelmente cronológica, mas ainda assim descontínua, sendo alguns deles, inclusive, bastante líricos. 

Quanto ao estilo, o primor se explica tanto pelas várias redações por que o livro passou ao longo dos anos, como pelo fato de Aníbal Machado ter escrito pouco. Segundo testemunho de escritores próximos, a história de João Ternura começou a ser escrita ainda na década de 20, logo se tornando, graças à propaganda entusiasmada daqueles para quem lia trechos, uma espécie de lenda. Tanta expectativa em torno de um projeto ainda embrionário, informe, acabou por intimidá-lo, travando-o. Só muito mais tarde, ao vê-lo já no esquecimento, é que o retoma, falecendo pouco depois de, tendo-o finalizado, encarregar da publicação o amigo Carlos Drummond de Andrade. 

13.6.12

Os dias, ontem e hoje

Vejo por toda parte gente alarmada com os restos de influência da religião na sociedade. Para onde olho há gente empenhada na extinção dos preconceitos remanescentes dessa antiga influência. Dizem eles que não são piores que ninguém por descrerem de Deus. Muito pelo contrário, são até melhores, mais racionais, só dando crédito àquilo que palpam e vêem; ou àquilo que alguém viu e palpou, desde que num laboratório. E depois lembram Chaplin. Logo a seguir, lembram Hitler...

O que não vejo combaterem é o estigma sofrido pelos que se abstêm dos dias comemorativos. O sujeito que, no Dia das Mães, não dá à sua um presente, ou com ela não almoça fora; aquele outro que, na Páscoa, não dá um maldito ovo de chocolate para os de seu conhecimento; ou ainda o que não enche o peito de sublime fraternidade por volta do 25 de dezembro, enquanto esvazia o bolso... São esses nossas maiores vítimas. Quem pode ainda sonhar com a manutenção de um namoro se, no dia 12 de junho, não dá flores ou bombons à respectiva, ou não a leva para jantar mal num restaurante lotado?...

A verdade é que estamos obrigados hoje à participação na papagaiada social como estiveram nossos avós obrigados a participar, ontem, da religiosa. Já podemos desprezar com alguma tranqüilidade o calendário da Igreja, coisa que eles não puderam, contanto que cumpramos sem muito caso com o do Comércio.

7.6.12

Problemas nacionais

Um de nossos maiores problemas é precisamente o de eles não afetarem justo os que os poderiam resolver. 

30.5.12

Desperdício

Só não há desperdício na dedicação àquilo para que o envelhecimento acrescenta. 

Mistério

Não há frase latina mais óbvia que a mais nebulosa depois de traduzida. 

29.5.12

Ação consciente

Não há como negar que vivemos uma época de crescente internacionalização. Os meios de transporte e comunicação anularam as distâncias e as barreiras entre as nações. Os livros circulam simultaneamente em quase todos os países, na língua original ou em traduções. As exposições internacionais de arte tendem a impor um estilo único a todos os países. Os mesmos filmes circulam, num breve espaço de tempo, por cinemas espalhados por quase todas as cidades do mundo. Diante de tais fatos seria simples demência pretender forjar um isolacionismo cultural, qualquer que fosse o pretexto. 

Mas essa intercomunicação não é apenas inevitável: ela é necessária e benéfica, na maioria de seus aspectos. Ela permite, no campo da ciência e da técnica, a aquisição de conhecimentos e a atualização cultural dos países menos desenvolvidos. Possibilita maior aproximação entre povos distantes, revelando-os uns aos outros, através da informação científica, como da narração literária e da expressão poética, teatral, cinematográfica. 

Não obstante, seria ingênuo ignorar que a literatura e a arte que importamos trazem consigo uma visão-de-mundo, uma colocação de problemas sociais ou existenciais, políticos ou filosóficos, estéticos ou religiosos que influem diretamente na formação de nossa intelectualidade. Tal influência é sempre positiva quando se exerce sobre culturas com a consistência necessária para absorver dela o que é útil, fecundo, e rejeitar o resto. Mas, nos países em formação, as influências externas tendem, muitas vezes, a agir como fator de perturbação do processo formativo, introduzindo desvios e discrepâncias que só se dão devido à fragilidade do movimento cultural implantado. 

No setor das artes plásticas, por exemplo, isso tem sido fenômeno freqüente entre nós. O movimento pictórico surgido em 22 se desenvolveu com alguma tranqüilidade até o fim da guerra, quando o isolamento involuntário do país acabou: a influência de Max Bill chamou os jovens para a arte concreta que, antes de dar seus frutos, já era substituída pelo “tachismo”, que já começa, por sua vez, a ser deslocado por um certo neo-figurativismo... Se essas mudanças tivessem sido determinadas por necessidades surgidas do trabalho dos artistas brasileiros, nada de mais. Sucede, porém, que todas essas mudanças são impostas de fora, pelas transformações operadas em Paris ou New York. Resultado: torna-se impossível aos nossos artistas, submetidos a tais injunções do mercado da arte, aprofundar qualquer experiência. Isso só será possível quando se compreender a necessidade de enfrentar criticamente o que vem de fora, para aceitá-lo ou refutá-lo. Não se trata, pois, de pretender “uma pintura nacional”; trata-se de, simplesmente, criar condições para a pintura, qualquer que seja, uma vez que ela só surgirá do aprofundamento e da continuidade da experiência. O caminho para isto é voltar-se para o que já foi feito entre nós, ou para o que, lá fora, melhor afina com a necessidade cultural interna e apoiar-se na temática que o país oferece. É preciso agir conscientemente.

GULLAR, Ferreira. Cultura e Nacionalismo. In: ________. Cultura posta em questão. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1965. 9 -11 p. 

22.5.12

Auxílio

Não raro refreamos um vício com o auxílio de outros, só não acabando piores por não sermos melhores. 

16.5.12

12.5.12

Queiroz

Houve uma época da vida em que um poema era para mim uma janela fechada. Ouvia dizer das maravilhas reservadas aos que a descerravam, e não passava disso. Tirar algum benefício deles me demandou não apenas tempo, como esforço. Horas, dias, meses talvez, de leitura vã, sem qualquer proveito aparente. Até que — pimba. Ignoro se por acaso será assim com todos os que não se familiarizam com ela, a poesia, desde a infância. O que agora sei com bastante certeza é que tudo me seria mais fácil tivesse eu começado por aqui.

9.5.12

Previdência

O cúmulo da previdência: uma prateleira com os livros a serem salvos em caso de incêndio. 

8.5.12

Ary


Reza a lenda que Ary Barroso deixou de torcer pelo Tricolor depois que, a seguir a uma derrota, não cancelaram um baile nas Laranjeiras. “Não posso torcer por um time que perde e faz festa, como se nada tivesse acontecido.” Abriram-se, assim, as portas para o Mais Querido. Já um fervoroso rubro-negro, acabou se tornando narrador esportivo. É famosa até hoje sua parcialidade, que chegou a lhe render a proibição de entrar em São Januário, tendo ele que transmitir os jogos sobre o telhado de casas vizinhas ao estádio cruz-maltino. Ary Barroso costumava descrever os ataques contra o Flamengo com um: “Lá vêm os inimigos outra vez. Não quero nem ver”, comunicando os gols adversários sem o mínimo entusiasmo. Isso, claro, quando os comunicava: diz-se que chegou a esconder da audiência algumas derrotas rubro-negras, omitindo gols sofridos. Conta-se ainda que chegava a desmaiar durante jogos decisivos, e que largava a cabine antes do fim do jogo, para comemorar, assim que garantiam a vitória. Num Fla-Flu, foi capaz de apostar o bigode, o qual, com um 3 x 0 contra, foi obrigado a tirar (na foto acima, a prova). Tempos depois, o Flamengo devolve a derrota, com arrasadores 6 x 1. Ary Barroso, então, em crônica no dia seguinte, pede ao ganhador da primeira aposta que raspe a cabeça: “3 x 0 valem um bigode. 6 x 1 valem um cabelo.” Esses exageros à parte, vem aí o maior deles. Convidado pessoalmente por Walt Disney para ser diretor musical dos famosos estúdios, mercê da trilha sonora para uma animação deles, Ary Barroso declina. A razão? A distância que, morando nos EUA, teria do Flamengo.

Antes

Quão saborosa não terá sido a água, antes do primeiro suco.