25.4.20

Primeiro ideal de nobreza

A infantilidade na base da discussão entre Agamenon e Aquiles, na abertura da Ilíada. O primeiro não aceita ficar no prejuízo, nem que para isso tenha que tomar o prêmio de alguém. Aquiles, ao ter o prêmio tomado por Agamenon, vai chorando fazer queixa à mãe. No primeiro ideal de nobreza, a criança mimada.

A literatura e as vidas suspenas

A literatura com a qual nos habituamos é cheia, entre autores e personagens, de vidas suspensas por um, dois ou mais anos, ora por guerras, ora por perseguições políticas, ora por doenças, ora por diversos outros fatores alheios a suas vontades, em trincheiras, subterrâneos, prisões, sanatórios, navios, casas, quartos, camas. E tudo isso, que tomávamos apenas como coisas de outras épocas, em meio às quais tínhamos de garimpar o que pudesse dizer respeito a nossa vida plena, autônoma, desimpedida, acima de qualquer obstáculo, começa a ter para nós, pela primeira vez, um sentido que não poderíamos desconfiar. Alguém comentou que passamos por algo que pode tornar anacrônica toda a literatura contemporânea escrita até mês passado. Mas que também nos pode aproximar como nunca, até a identificação, de autores e de obras que nos interessavam apesar da distância, de repente desfeita.

Bentinho às avessas

Enquanto o Bento Santiago de Machado de Assis repassa toda a vida em busca dos menores indícios que reforcem o caráter duvidoso de Capitu e assim deem peso a sua acusação de adultério contra a esposa, baseada na semelhança do filho do casal com o melhor amigo do marido, Andreas Thameyer — personagem autor de uma carta pré-suicídio que é um dos contos de Arthur Schnitzler, intitulado justamente A última carta de Andreas Thameyer — é um Bentinho às avessas que, munindo-se pela pesquisa erudita de vários casos registrados, ao longo da história da curiosidade humana e da ciência, de mulheres que tiveram filhos semelhantes não aos pais biológicos, mas a pessoas e a objetos que as impressionaram fortemente durante a gravidez, defende até o próprio fim, contra todas as evidências, a fidelidade da mulher que, igualmente branca como ele, havia acabado de dar à luz um filhinho preto. Ambos os textos, Dom Casmurro e A última carta, são de 1900.

Joseph Roth e a tragédia

Enquanto lia Jó de Joseph Roth fui procurando o que há nele dos mecanismos da tragédia. Se começamos pelos homens e pelos atos que a tragédia deve imitar (homens elevados e mais ou menos virtuosos), em contraposição aos homens baixos e viciosos da comédia, Joseph Roth de certa forma burla a exigência clássica por meio da inversão judaico-cristã, aquela tão combatida por Nietzsche: Mendel Singer é um pobre coitado, sim, mas cuja dignidade repousa na obediência a Deus; desse outro ponto de vista, o critério já não é mais humano, e sim espiritual. Nisso, Joseph Roth segue os autores hebreus da Bíblia, os quais, segundo Auerbach no famoso ensaio de abertura de Mimese, eram capazes de conferir caráter elevado e trágico a pessoas comuns em circunstâncias nada especiais, algo impossível aos gregos. Partindo-se daí, a hybris que leva ao infortúnio do herói, no caso de Mendel Singer (que de certo modo vivia conformado com suas agruras), é a mudança ambiciosa para a América, na qual este deixa para trás o filho mais novo e mais necessitado, grave pecado contra o dever paternal, ainda mais pela desconsideração à profecia rabínica. Então a narração prossegue de catástrofe em catástrofe até que, por fim, conforme a prescrição aristotélica — embora não totalmente, uma vez que o grego preferisse as reviravoltas que iam da dita para a desdita, enquanto o Jó de Roth, como o Jó bíblico, passa da infelicidade para a felicidade —, opera-se a uma só vez o reconhecimento e a peripécia, a mudança da sorte do herói mediante uma revelação, para piedade dos leitores.

Selvagens, marinheiros, funcionários

Algumas das principais narrativas de Melville consistem na história de um grupo de homens isolados em determinado ambiente. Em Taipi, esses homens estão isolados numa ilha; em Moby Dick ou Billy Budd, em navios; em Bartleby, num escritório. Na ilha, os primitivos; nos navios, os marinheiros; no escritório, os funcionários. Mas, se Melville encontra nos primitivos aquela síntese montaigniana de bom selvagem e ideal clássico de nobreza, e nos marujos o heroísmo possível mesmo aos homens mais baixos, aparentemente não sobra nada para o proletário urbano, cuja única alternativa possível é a recusa apática. De algum modo, Billy Budd e Bartleby são figuras análogas e sofrem, em seus respectivos contextos, o mesmo tipo de admiração e repulsa, atração e ódio, por parte de seus superiores, Claggart e o narrador dono do escritório, e em decorrência da relação mal-sucedida com eles acabam alvos da justiça. Como Billy Budd pertence ainda ao mundo heroico do mar, termina com uma morte trágica, significativa; como o mundo de Bartlety é o mundo sem vida das “cidades de Caim”, definha de fome entre os muros de uma prisão.

10.9.17

Exigências

Por mais que nem todas sejam tão impraticáveis como as nossas, os homens nunca foram plenamente capazes de se submeter às exigências sociais, fossem elas quais fossem. A perpetuação da vida em sociedade se deu apesar de todos os pesares e só se explica pela imensidão das incertezas de uma vida isolada. Viver em sociedade é um enorme prejuízo que afinal compensa. Além do mais, para todos os efeitos, tais exigências foram sempre sagradas, e de sua observância dependia a continuidade não só do grupo, mas inclusive do cosmo. As pessoas sempre só se obrigaram a viver como viveram porque achavam que, do contrário, o mundo retornaria ao caos. A nossa impossibilidade de submissão se sacramentou no dia em que descobrimos que o céu não desabava quando essas coisas eram negligenciadas sem arrependimento nem castigo. Além disso, não era sem razão a maior capacidade dos primeiros homens de cumprir o que lhes era exigido, por vezes sem a necessidade de polícia ou tribunal: fora a sacralidade dos costumes, diz o mito que tais homens existiram antes de se começarem as viagens, portanto antes do conhecimento de outros homens em nada semelhantes a eles. E esse é mesmo o único modo razoável de se exigir obediência a uma ordem social: ela se apresentando como a única, coisa que já toda a gente sabe que não é. Pode haver algo mais desmoralizador para uma cultura do que se ver ante a possibilidade plena de se viver de maneira completamente diversa? Por maior que tenha sido o esforço irracional e desesperado pela manutenção da exclusividade das culturas umas perante as outras, era simplesmente inevitável que mais cedo ou mais tarde se impusesse o descrédito gerado pelo contato inicial. Por que haveríamos de nos sacrificar nisso e naquilo se está claro que se trata de arbitrariedades?, se temos aqui diante de nós pessoas que sempre desconheceram tais exigências e nem por isso se extinguiram?

Semelhança

De acordo com fontes cristãs medievais (consigo pensar agora em Isidoro de Sevilha), uma imagem comum ao martírio dos santos e ao suplício dos hereges: o médico cirurgião que, fazendo violência contra o corpo do paciente, só lhe proporciona o bem. Muito mais recentemente, Thomas Szasz demonstra, em A fabricação da loucura, como, na passagem para a modernidade, a Psiquiatria herda tanto a função social como todo o modus operandi da Inquisição.

20.8.17

Formas

Dentre as muitas formas que o mais fraco tem pra vencer conta-se inclusive certo tipo de derrota. Já o favorito muitas vezes não sai vitorioso nem das vitórias.

18.12.16

Vida

O compromisso cristão com a vida foi sempre algo tão sério que, na Idade Média, uma mulher grávida condenada à fogueira só podia ser queimada depois do parto.

16.12.16

Alquimia

Na base do pensamento alquímico estaria a crença de que todos os minérios não passam de etapas interrompidas no longo e demorado processo de chegarem a ser ouro; a crença de que os vários tipos de metais devem a existência ao fato de que, a determinada altura, são impedidos pela extração de alcançarem sua destinação final. O trabalho do alquimista, aliás, seria justamente o de retomar esse processo e, por outras vias que não as naturais, abreviar o arrastado tempo geológico. Impossível tomar conhecimento dessa ideia de finalidade progressiva da natureza sem pensar na forma teleológica de pensamento evolucionista que decorre do providencialismo cristão, uma das ideologias mais fundamentais do Ocidente. Trata-se do mesmo princípio, apenas descolado a outro campo: determinada forma biológica, ou cultural, ou social, ou religiosa, ou estética, ou histórica como ouro, isto é, como ápice em relação à qual todas as outras formas são resquícios de estágios a serem superados. Daí que, se isso faz sentido, toda missão civilizatória deseja reproduzir a tarefa alquímica. Assim como o alquimista ambicionava vencer a defasagem da matéria por meio da ação sobre ela, promovendo pelo próprio esforço a eliminação de um caminho progressivo demasiado extenso, o civilizado precisa fazer o mesmo com o mundo. Transmutar o ferro em ouro, o bárbaro em gente, a barbárie em civilização. Guiar os homens ao estado de perfeição aurífera do qual se encontram privados. O alquimista, “salvador fraterno da natureza”; o civilizado, salvador fraterno da humanidade.

Discursos

Segundo Lévi-Strauss, se o discurso é uma mensagem transmitida por um emissor, o sonho é uma mensagem transmitida por um receptor, e o mito, uma mensagem recebida de emissor nenhum.

Segredo

Os leitores de Jó espalhados no tempo e no espaço compõem uma espécie de maçonaria. E da mesma forma que um maçom não aperta a mão de outro maçom sem que ambos saiam do cumprimento sabendo-se confrades, é simplesmente impossível que um leitor de Jó leia as páginas de alguém que também leu Jó sem que isto lhe seja patente.

Problema

O grande problema que o século XIX viu surgir, resumido por Musset: “tudo que era deixou de ser, e tudo que será ainda não é”.

9.12.16

Caverna





















Os historiadores da arte são unânimes em afirmar o caráter mágico da arte rupestre, isto é, em afirmar que o homem paleolítico pintava com a intenção de trazer à realidade, circunstância que explicaria não só o realismo da representação — e não é bonito que algumas das primeiras e mais antigas manifestações artísticas de que se tem notícia sejam “naturalistas”, “fotográficas”? —, como a presença quase exclusiva de alvos e cenas de caça. E tudo isso ganha ainda mais sentido quando se lê, em Eliade, sobre a importância ritual das cavernas. Ora, se a Terra era (e é) compreendida como Mãe, seu interior só poderia ser tomado como ventre. Daí cavernas e grutas serem úteros, as fábricas primordiais de realidades novas.

7.12.16

Estratégica

As pessoas, hoje, se compadecem mais prontamente de animais que de outras pessoas, e, se com facilidade conseguem deixar um semelhante sem comida, já não suportam a ideia de um cãozinho sem xampu. Se não bastasse, um morador de rua cercado de cachorros causa menos indignação do que um morador de rua cercado de filhos. Os filhos acusam a irresponsabilidade, a imprevidência, a bruteza do sexo sem privacidade; enquanto a posse dos bichos, ao contrário, o humaniza, dá testemunho de um coração amoroso, piedoso, solidário. Além do mais, como as pessoas cada vez mais deixam de ter filhos e os substituem por animais de estimação, é muito natural que se identifiquem mais com as lutas de quem tem um cão do que com as lutas de um progenitor. Se eles não querem filhos com que gastar, como vão gastar com os filhos dos outros? Mas a experiência de tirar do desamparo um vira-latinha eles não só a conhecem muito bem, como a consideram a mais digna de recompensa. Ainda mais se a pessoa que o fez não tem o suficiente nem para si. “Precisamos ajudá-lo!”

4.12.16

Reconhecimento

De acordo com o etnógrafo Marco Antonio Gonçalves, para os pirahã, “as coisas não são feitas de uma só vez: passam por etapas, testes e experimentações até atingirem o que são.” Até mesmo Igagai, responsável pela organização do mundo, faz experimentos. Implícito nessa concepção de criação está o risco sempre grande de insucesso. Por isso, dão muita importância ao fazer vagarosamente (maihege) — equivalente a fazer bem-feito —, em oposição ao fazer apressadamente (aiboge) — o mesmo que fazer malfeito. Para os pirahã, eles mesmos fazem as coisas apressadamente, e por isso deixam marcas de imperfeição em tudo. Já os seres sobrenaturais trabalham com vagar, e por isso produzem coisas bem-feitas: “Igagai faz o sol devagar, Apapiuepe faz as estrelas devagar”. Para os pirahã, só existe um outro povo sobre a terra que sabe fazer as coisas tão vagarosamente quanto os seres sobrenaturais, e esse povo não é senão o povo “diaponeso”. Isso mesmo, o povo japonês. Segundo Gonçalves, os pirahã atribuem aos japoneses qualquer produto considerado bom — uma boa máquina fotográfica, um bom gravador, um bom motor de popa —, porque só os japoneses sabem fazer as coisas bem-feitas. — Mas como? Como uma tribo amazônica pôde chegar a ter os japoneses em tão alta conta? O etnógrafo esclarece: os pirahã são uma tribo bastante acostumada a lidar com antropólogos e até mesmo com missionários. Já tiveram entre eles diversos pesquisadores norte-americanos e brasileiros, e uma vez receberam a visita de uma equipe de TV japonesa. A impressão que os japoneses deixaram nos pirahã foi tamanha que, de acordo com Gonçalves, eles chegaram mesmo a criar um mito de origem a partir desse encontro — desse reconhecimento —, que se deu na década de 80. Segundo os pirahã, no princípio de tudo japoneses e pirahã formavam uma única sociedade. Em determinado momento, porém, alguns conflitos dividiram essa sociedade em dois grupos. Um dos grupos ficou onde sempre esteve, enquanto o outro saiu vagando pelo mundo, até se fixar em local muito distante. O grupo que permaneceu deu origem aos pirahã, o grupo que partiu deu origem aos japoneses. Ao longo do tempo, os japoneses foram fazendo muitos experimentos, até que aprenderam a fazer as coisas vagarosamente. E é por isso que tudo que os japoneses fazem, hoje em dia, é muito bem-feito.

Modelo

O que é o Livro de Gênesis, senão a crônica de uma família ao longo de várias gerações? E, como tal, poderia ser outro o modelo (primitivo) para o tipo de romance que tem numa família o grande personagem? Devia ser tamanha a convivência dele com o texto bíblico, que o mesmo Thomas Mann que estreia na literatura, em 1901, com Os Buddenbrook: decadência de uma família vai escrever depois, em 4 volumes publicados durante 16 anos, José e seus irmãos.

24.11.16

Memória

Passei quase toda a minha vida sem conhecer o sentido daquela que é uma de minhas memórias mais antigas, sem nem desconfiar do que poderia ter acontecido aquele dia, em que saímos de casa para uma festa e voltamos de um velório. Sei que íamos eufóricos. Pelo caminho, todas as ruas estavam decoradas e cheias de gente que gritava, acenava, soltava fogos. Chegados ao destino — uma vila, na qual uma pequena multidão de pessoas mais ou menos familiares umas às outras se confraternizavam no que só podia ser um churrasco —, fiquei todo o tempo correndo com as outras crianças, como sempre desatento ao que se passava. E tudo corria bem até que, quando dei por mim, vi na cara dos adultos que alguns haviam chorado. Notei de repente que a música também já não existia, e que as pessoas que antes só se falavam aos berros agora estavam caladas. Os poucos que ainda falavam, falavam muito baixo, e já ninguém ousava se encarar. Sei que fomos nos despedir com o abraço apertado dos pêsames. Também eu assim fazia, decorosamente, mas sem a menor ideia de por quê. As pessoas se consolavam, se diziam que tudo ia ficar bem. Na volta para casa, as mesmas ruas agora estavam desertas. Já não se via ninguém, nem cães vadios. Poucas vezes antes ou depois tive a incômoda experiência de estar no único carro que vaga silencioso pelas ruas. Sentia-se no ar que algo de muito grave tinha acontecido. Algo que eu, em todo caso — ou porque quiseram me preservar, ou porque fui incapaz de compreender —, sempre ignorei. E assim eu cresci, acompanhado pela sombra desse dia. Até que, já adulto, uns vinte e poucos anos mais tarde, assistindo desatento a um telejornal qualquer, me vejo informado sobre os efeitos da tragédia que se abateu sobre o Brasil na tarde de 24 de junho de 1990, quando, nas oitavas de final da Copa da Itália, fomos eliminados pela Argentina. Eu tinha então cinco anos.

13.11.16

Problema

O problema nem foi terem levado todo o ouro. O problema foi terem trazido os prejuízos de o não ter.

Irreversível

Regula Emblematica Sancti Benedicti, 1780.





















A ideia de honra esteve sempre muito relacionada à irreversibilidade dos meios com os quais se vivia. Uma palavra ouvida nunca pôde voltar a não ter sido pronunciada, nem um gesto testemunhado chegou alguma vez a ser desfeito; tampouco era possível ignorar a marca feita em uma pedra, ou apagar a tinta lançada sobre um material poroso. Hoje, porém, a rede permite que tudo seja editado, ou mesmo excluído. Mas, como precisamos manter as coisas como elas sempre foram, eis que fizeram o print, o histórico de alterações. Tudo precisa continuar definitivo, mesmo podendo já não ser. Aliás, não é por acaso que um dia do juízo seja a grande expectativa de religiões constituídas justamente em torno de livros — essa grande ferramenta de perpetuação das coisas humanas —, e que esse grande dia seja compreendido como o dia em que todos os atos e palavras dos homens serão lidos publicamente.

10.11.16

Opção

A qualidade do banquete muitas vezes compensa toda uma vida de migalhas. Comia-se muito melhor na escravidão do Egito do que na liberdade do deserto.

Mérito

O maior mérito do cristianismo — aquilo que o distingue para melhor de religiões em tudo o mais idênticas — é a capacidade de ostentar como vitórias do cristianismo as consequências mais irreversíveis das grandes derrotas do cristianismo. Assim, retrospectivamente, houve sempre ao menos um herói cristão a vencer batalhas contra o próprio cristianismo. E um novo verdadeiro cristianismo nunca deixou de sair vitorioso das derrotas de qualquer velho cristianismo verdadeiro.

Diferença

Como o esquerdismo sabe inconscientemente que é o Mal, seus agentes precisam se fazer passar por anjos de luz. Já na direita, dona de ideias tão indispensáveis, ninguém precisa deixar de ser o cretino mais ostensivo pra se tornar alguém digno de crédito.

9.11.16

Inutilidade

A inutilidade dos gestos alheios, diante da qual não apenas não desconfiaram da inutilidade dos próprios gestos, da inutilidade de todos os gestos, como conseguiram ainda os considerar fundamentais: então falta sentido a todos os gestos que não são os nossos... De onde a generosidade com que empenharam a vida a se fazerem imitados.

Apaziguador

O grande apaziguador de consciências terá como missão garantir que a superioridade do Ocidente resta quando menos em haver entre os ocidentais aqueles que se considerem os mais abjetos entre os homens. E que para a importância dos outros falta ainda quem a questione. E que ter inventado a culpa já redime de tê-la sempre em grande escala. 

15.9.16

Coadjuvantes

Nem sempre Deus pretende ensinar algo a todo aquele contra o qual se volta. A história de Jó assegura que alguns são atingidos só para que a lição seja possível a outros. Sete filhos homens e três filhas mulheres soterrados, apenas para que Jó aprendesse. Mesmo entre os sofredores a maioria é de coadjuvantes.

Apresentação

Uma apresentação de jazz é um tiroteio durante o qual nenhuma bala se perde.

27.8.16

Problema

O Livro do Gênesis é todo ele sobre o problema com o pai. O pai cobrando obediência aos filhos, no primeiro jardim da infância, e os filhos que o desobedecem pela primeira vez caindo na vida autônoma. O irmão que mata o outro irmão ao ver-se preterido pelo pai. O filho que é amaldiçoado por revelar a nudez do pai aos irmãos. O filho que deixa para trás a casa do pai para confirmar no mundo a própria descendência. O pai que abandona à morte um filho e desiste na última hora de se livrar do outro. As filhas que faltando a mãe embriagam o pai e se deitam com ele. O irmão que engana o irmão em busca da prioridade do pai, o mesmo que se faz passar pelo outro filho a fim de receber a última benção paterna. O filho preferido pelo pai que é vendido como escravo pelos irmãos. Acaba o Gênesis, e logo o Êxodo começa com o filho que é criado como adotivo pela própria família.

23.8.16

Mérito

Um grande mérito das monarquias, talvez mesmo o maior, é que os povos sempre mataram mais os próprios reis do que nós matamos nossos presidentes.

16.8.16

Desastre

Os trilhos são uma limitação da qual um trem só escapa por meio do desastre. 

12.8.16

Psicologia

Nada permanece novo por muito tempo, razão por que mesmo o conservadorismo se atualiza, pela incorporação de inovações assimiladas: o conservador é sempre mais parecido com os contemporâneos dos quais pretende se diferenciar do que com os antecessores dos quais se quer um continuador. O que os conservadores realmente conseguiram preservar de mudança, e de maneira até assustadora, é certa psicologia. De acordo com James Frazer, “qualquer novidade é capaz de suscitar o espanto e o pavor do selvagem”.

Adesão

A eficácia de um pregador (científico, político, estético, religioso) já não depende da qualidade dos sermões proferidos, e sim da maior ou menor adesão prévia dos ouvintes. Hoje em dia já nenhuma pregação converte, apenas confirma. 

*
No campo ideológico, já não há tal coisa como povos não alcançados. Nossos missionários não têm senão membros de igrejas para disputarem entre si. 

9.8.16

Menos

O excesso de opções paralisa. Daí a importância da adesão aos preconceitos de grupo, essa forma tão estúpida quanto eficaz de reduzir a angústia das escolhas por meio do estreitamento da vista. O que se ganha com descartar de antemão todo um mundo de possibilidades as mais legítimas, por uma questão de princípios arbitrários só racionalizados a posteriori, senão o conforto ilusório de se estar abrindo mão de menos?

8.8.16

Caminho

Inverter a direção é, por vezes, a única forma de não abandonar um caminho. 

Sobreviver

Canetti chama a atenção para o fato de que, segundo seus respectivos mitos, um número muito significativo de povos alega descender de sobreviventes, seja de uma guerra, seja de uma catástrofe natural, seja de uma doença. Por exemplo, segundo os judeus, a humanidade descende da família de Noé, sobrevivente de um dilúvio; segundo Virgílio, os romanos descendem de Eneias e outros sobreviventes da guerra de Troia; os kutenai — nativos do continente norte-americano —, por sua vez, têm como ancestrais os poucos sobreviventes de uma epidemia, e assim por diante. E não se furta de lembrar, mas muito a sério, que cada indivíduo é, pelo simples ato da concepção, um sobrevivente entre milhões. De modo que sobreviver é, para Canetti, o sentido fundamental da existência — a vontade de poder nietzschiana, o instinto de autopreservação dos naturalistas e sei lá mais o quê: para ele, tudo seria mais plenamente compreendido pela mera vontade de fazer-se o único a permanecer com vida sobre uma pilha de cadáveres.

Abertura

Fossemos menos vulneráveis, e talvez pudéssemos nos permitir alguma abertura a estranhos. Por outro lado, nenhuma cidade está efetivamente aberta enquanto não caem seus muros.

6.8.16

Olimpíadas

Ainda que não tivesse qualquer outra utilidade, a coisa serve ao menos para isso: reunir em um mesmo lugar a maior diversidade possível de rostos e talhes dentre os que existem espalhados pelo globo. Em meio a tanto efeito de gosto tão duvidoso, algo que indiscutivelmente admira: o cortejo dos mais variados tipos humanos, cada grupo observando uma ideia toda particular de elegância.

Ultraje

Não ser mais quem já se foi não é o bastante: segundo Whitman, é preciso ainda abandonar pelo caminho os cadáveres do antigo eu e só voltar a observá-los de longe. A quase totalidade das pessoas, porém, não só não se livra jamais desses cadáveres de si, como faz do seu ultraje a única razão de continuarem existindo.

Tecnologia

A leitura de McLuhan sugere toda uma compreensão alternativa da história das ideias. Por exemplo: do ponto de vista das novas tecnologias (que, segundo ele, são em si o próprio conteúdo), seria impossível que a invenção da palavra impressa não acarretasse algo da natureza de uma Reforma Protestante; assim como a superação dessa mesma palavra impressa como meio mais abrangente de comunicação — pelo rádio, pela televisão, pelo cinema, pelo telefone — não se daria sem acabar impondo um caráter marcadamente reacionário a parte considerável dos escritores modernos, a começar pela opção por um meio defasado.

2.8.16

Intimidade

“Um nativo — o único alfabetizado de seu grupo —, falando da sua função de leitor de cartas para os outros, disse que se sentia impelido a tapar os ouvidos, durante a leitura, para não violar a intimidade das cartas.”

Semelhança

Uma das maiores diversões que a leitura de Eliade proporciona é a de tornar possível a quem o lê a identificação no homem hipercivilizado do Ocidente e suas margens, em meio a tanta pretensão de superior racionalidade, a permanência daqueles mesmos hábitos mentais que eles só poderiam considerar supersticiosos e desprezar como primitivos. E isso porque acabo de topar com esse trecho dos Comentários Reais, crônica seiscentista da realidade nativa do Peru pré-colombiano, onde o autor descreve a postura dos índios peruanos com relação a tudo que dizia respeito à cidade de Cusco, capital do império Inca, — postura na qual fica muito reconhecível a da boa gente brasileira, bastando que se troque Cusco por uma e outra capital europeia:
Era de tal maneira sua adoração [por Cusco], que a demonstravam mesmo nas menores coisas: se dois índios de igual condição se encontravam no caminho, um deixando a cidade e o outro chegando até ela, o que a estava deixando era respeitado e acatado pelo que estava chegando como o superior o é pelo inferior, e isso apenas por ter estado na cidade, quanto mais se vivesse próximo a ela, ou mesmo se dela fosse natural. De igual modo se dava com as sementes e os legumes, ou qualquer outra coisa que levassem de Cusco a qualquer outro lugar; porque, mesmo que não se avantajasse em qualidade, só por ser daquela cidade era mais estimado que os de outras regiões e províncias.

26.7.16

Dinâmica

Uns têm virtudes e defeitos. E precisam ser colonizados por causa dos defeitos. Outros têm virtudes e defeitos. E podem colonizar por causa das virtudes.

21.7.16

Tempo

Ninguém conhece melhor a insuficiência do tempo que o desocupado. Nenhuma porção de tempo é mais insuficiente que a porção completa. É possível fazer algo de útil no parco tempo livre entre uma ocupação desnecessária e outra: impossível fazer algo de útil com todo o tempo livre. As vinte e quatro horas de um dia são tanto mais curtas quanto menor o número de compromissos ao longo delas. Quanto mais horas dedicadas aos interesses alheios, mais pronto alguém estará de aproveitar o esgotamento da folga. Em relação ao tempo, só é possível tirar proveito das migalhas: a visão de um banquete enfastia. A pessoa desocupada se torna muito sensível à mera ideia de ocupação. Pensar em ter que fazer inutiliza de modo cabal o não fazer nada. É preciso não dispor de tempo para ser possível a ilusão de que há maravilhas a serem feitas com ele. Do contrário logo se percebe que é igualmente desperdício não desperdiçá-lo. Não dedicar tempo ao que não interessa, aliás, priva de se achar o que interesse. O tempo livre clama por mais tempo livre. As vinte e quatro horas de um dia exigem a vigésima quinta hora a fim de se permitirem proveitosas.

18.7.16

Sebo

As pessoas já não frequentam estabelecimentos desse tipo, por isso cada vez mais raros. Se querem um livro, mesmo esgotado, elas o encomendam pela internet e o aguardam ser entregue pelos correios. Já não sabem o que é caminhar por entre livros desconhecedores do que terão pela frente. Chegaram finalmente a reproduzir com o livro usado a relação prática e sem mistério que estão acostumadas a ter com tudo: devolveram o livro usado ao universo impessoal do catálogo, do estoque. E isso quando, mais até do que livros, o que lugares como esse tinham a oferecer era certo tipo de experiência: a experiência da oportunidade quase única, do encontro talvez irrepetível, da convergência imponderável dos fatos.

14.7.16

Suspeita

Muito de vez em quando me inquieta a suspeita de que, se em determinada altura da vida optei por literatura, foi porque as obras literárias em geral custam menos do que as filosóficas ou teológicas, e de que se me mantive um desconhecedor quase completo de literatura contemporânea, movida a lançamentos, não foi senão porque as edições populares dos clássicos custam relativamente pouco.

11.7.16

Razões

É possível abandonar o cristianismo pelas mesmíssemas razões que conduziram até ele. Por exemplo, a inadaptação à vida. 

Side effect

Dar à luz é condenar à morte. 

5.7.16

Romantismos

A imagem que fazemos do romantismo — a arte enquanto expressão, a luta do sentimento contra convencionalismos artísticos e sociais, e coisas do tipo — é, de certo modo, um estereótipo devido, em grande parte, ao enorme impacto de um movimento artístico pré-romântico alemão chamado Sturm und Drang, que antecede em algumas décadas a primeira geração alemã propriamente romântica, a primeira geração alemã que se autointitula romântica — a do grupo de Jena, composto por Novalis e os irmãos Schlegel, os quais eram, bem ao contrário daqueles primeiros, até bastante racionais, reflexivos, dedicados ao estudo dos clássicos e a um rearranjo de toda a tradição. E isso logo nos faz pensar no Machado de Assis que a gente cresce ouvindo dizer que era romântico nos primeiros romances e realista nos romances da maturidade, quando a verdade é que nada mais próximo ao ideário — romântico — do grupo de Jena, com seu tão referido conceito de ironia, do que — pasmem — o Machado de Assis autor de Brás Cubas.

20.6.16

Inútil

Gostamos de ver na cegueira de Homero, claro que não sem razão, a metáfora de uma visão especial, superior, exclusiva. Mas há quem perceba nela o estigma fundamental do artista, convertido depois em preconceito no fundo jamais superado. Hefesto, outra figura de artífice do antigo mundo grego, também leva consigo a marca da limitação física. Fica parecendo que, para os primeiros homens, só poderiam se dedicar a esse tipo de mister aqueles incapacitados para outros, mais concretamente úteis, como por exemplo a guerra.

Proeza

Não é por acaso que somos absolutamente incapazes de amadurecimento: Adão e Eva, nossos primeiros pais, já nasceram adultos; nunca tiveram de cruzar o árduo caminho que vai da infância à vida adulta, o qual tornaram, com isso, intransponível, já que não nos legaram os meios inatos de fazê-lo. Para piorar, Cristo, o segundo Adão, de quem poderíamos aprender pelo exemplo, se é verdade que nasceu ainda um bebê, só voltou a nos ser apresentado já homem feito. Sobre como conseguiu a proeza de chegar aos 30 sem continuar nos 15, nós jamais saberemos.