Todo o problema norte-americano com o futebol se resume ao fato de que só pode haver algo de fundamentalmente muito equivocado com um esporte no qual eles não conseguem ser os melhores.
29.9.14
Precursor
Há um pseudoepígrafo chamado Livro dos Segredos de Enoque, ou Segundo Livro de Enoque, ou ainda Enoque Eslavo — já que o único manuscrito que existia era em tradução para o eslavo, até que se acharam fragmentos dele em copta —, uma grande loucura apocalíptica que busca lançar luz sobre episódios canônicos mais enigmáticos, como por exemplo o envolvendo a impiedade dos nefilim, entre outros. Ninguém sabe ao certo quando foi escrito — século I é a data mais provável —, nem a língua — provavelmente em grego —, nem se de autoria judaica ou cristã — possivelmente judaica.
Mas isso tudo apenas pra dizer que fui folheá-lo outro dia e, de cara, duas coisas me chamaram a atenção:
— o livro começa no mesmíssimo e tão conhecido clima kafkiano, com Enoque acordando de uma incômoda noite de sono e enxergando ao pé da cama dois homens — anjos de aspecto terrível — que o comunicam a intimação divina para uma visita aos céus;
— e o mais surpreendente: Enoque acompanha os tais anjos indo de céu em céu: 1º céu, 2º céu, 3º céu, 4º céu, e assim por diante, até o 7º céu, se não me engano. E depois conta o que viu em cada círculo: anjos, arcanjos, o trono de Deus... Sim, sim. Exatamente a viagem que Dante, mil e duzentos anos depois, vai refazer.
28.9.14
O pedido
Eu era capaz de jurar que somente pessoas vestidas como destaque de carro alegórico estavam autorizadas a chegar a um balcão de lanchonete e pedir um copo de morango com amora batidos na água de coco. Mas parece que não.
25.9.14
Nosso
Segundo o senhor Antônio Cândido, a literatura brasileira é, no conjunto, um Chevette caindo aos pedaços que, se é verdade que não vale nada, pelo menos é nosso.
20.9.14
Parte da realidade
¿Podemos hoy imaginar el mundo sin Don Quijote? Cuesta mucho. ¿Sin Hamlet? Cuesta mucho. Sin embargo, hubo una época en que no existían. Hoy ellos forman parte de la realidad porque fueron imaginados; lo que se imagina se convierte entonces en parte de la realidad indisoluble y ya no puedes entender la realidad sin lo que imaginó el escritor.
(Carlos Fuentes)
Desimportância
Carlos Fuentes, escritor mexicano falecido não faz muito, é autor de um ensaio belíssimo chamado, vejam vocês a consideração, “Machado de La Mancha”. Nunca o li, mas soube que nele Fuentes chama de milagre pra cima ao nosso Machado — um herdeiro solitário de Cervantes em pleno realismo romântico e naturalista oitocentista e, não bastasse isso, ainda por cima no Brasil, esse grande cu do mundo.
Acontece que Fuentes foi muito amigo de Milan Kundera, compartilhando com este a mesma concepção alternativa de romance. Se conheceram primeiro ainda na República Tcheca, quando Fuentes foi até Praga com García Márquez e Cortázar só pra conhecê-lo. E depois que Kundera se exilou na França, passaram a se frequentar com regularidade, já que Fuentes era embaixador do México em Paris justo naquele período, anos 60 ou 70, nem sei.
E se relembro esses dois fatos aparentemente sem relação é apenas porque de repente fiquei imaginando Fuentes falando pra Kundera sobre Machado, um autor que este certamente teria colocado em seu panteão, assinalando-o como precursor junto de Sterne, Diderot, Musil, Broch. E fiquei lembrando o que o próprio Kundera diz sobre o isolamento das línguas periféricas. Segundo ele, qual seria hoje a importância mundial de Kafka, tivesse este escrito em tcheco? Nós, infelizmente, sabemos a resposta.
14.9.14
A outra palavra
Hoy, al leer en un periódico una noticia sobre no sé qué película, tropecé con esta frase: el hombre no es un pájaro. Y pensé: decir que el hombre no es un pájaro es decir algo que por sabido debe callarse. Pero decir que un hombre es un pájaro es un lugar común. Entonces… entonces el poeta debe encontrar la otra palabra, la palabra no dicha y que los puntos suspensivos de “entonces” designan como silencio. Así, luche con el silencio.
(Octavio Paz, em carta de 23 de abril de 1967, ao também poeta Pere Gimferrer.)
10.9.14
7.9.14
Aplicativo
Hoje em dia já está quase tão difícil tomar um táxi sem o auxílio de um aplicativo pra celular quanto manter uma conversa.
6.9.14
Consciência
É preciso que as pessoas se conscientizem de que já são muitas as câmeras espalhadas para que se continue possível ser humano impunemente.
5.9.14
Perspectiva
Os europeus que conquistaram as Américas e as civilizaram: colonizadores. Os mouros que civilizaram a Península depois de a conquistarem: invasores.
Reconquista, o nome dado à expulsão dos colonos mouros, depois de quase oitocentos anos de presença na Europa. Depois de míseros quinhentos anos nas Américas, alguma chance de retomada indígena junto ao invasor europeu?
3.9.14
2.9.14
Oliverio Girondo II
NOTURNO
Frescor dos vidros quando se apoia a testa na janela. Luzes tresnoitadas que ao serem apagadas nos deixam ainda mais sós. Teia de aranha que os arames tecem sobre os terraços. Trote oco dos pangarés que passam e nos emocionam sem razão.
O que nos faz recordar o uivo dos gatos no céu, e qual será a intenção dos papéis que se arrastam pelos pátios vazios?
Hora em que os velhos móveis aproveitam para sacar as mentiras, e em que os encanamentos têm seus gritos estrangulados, como se asfixiassem dentro das paredes.
Às vezes se pensa, quando se vira a chave da eletricidade, no espanto que as sombras sentirão, e gostaríamos de avisar a elas, para que tivessem tempo de encolher-se nos cantos. E às vezes as cruzes dos postes telefônicos sobre os terraços têm algo de sinistro, e gostaríamos de roçar-nos às paredes como um gato ou um ladrão.
Noites nas quais desejaríamos que nos passassem a mão pelas costas, e nas quais subitamente se compreende que não há ternura comparável à de acariciar algo que dorme.
Silêncio! – grilo afônico que nos entra pelo ouvido. Canto das torneiras mal fechadas! – único grilo que convém à cidade.
Buenos Aires, novembro, 1921.
Oliverio Girondo I
PEDESTRE
No fundo da rua, um prédio público aspira o mau cheiro da cidade.
As sombras quebram a espinha nos umbrais, se recostam para fornicar na calçada.
Com um braço preso à parede, um lampião apagado tem a visão convexa da gente que passa de automóvel.
Os olhares dos transeuntes sujam as coisas que se exibem nas vitrines, afinam as pernas que pendem sob a capota das carruagens.
Junto ao meio-fio, uma banca acaba de engolir uma mulher.
Passa: uma inglesa idêntica a um lampião. Um bonde que é um colégio sobre rodas. Um cachorro fracassado, com olhos de prostituta que nos dá vergonha de ver e deixar passar.
De repente: o guarda na esquina detém com um golpe de batuta todos os estremecimentos da cidade para que se ouça, em um só sussurro, o sussurro de todos os seios que se roçam.
Buenos Aires, agosto, 1920.
22.8.14
Métodos
A grande esperança é de que a ciência evolua até o ponto de alcançar métodos de eugenia capazes finalmente de acabar com o risco de nascerem os eugenistas.
21.8.14
O Deus e o céu dos espanhóis
Palavras atribuídas ao cacique Hatuey, a propósito dos primeiros colonizadores, por Frei Bartolomeu de las Casas:
Sabeis vós que os espanhóis vêm por aqui e de que maneira trataram a tais e tais tribos e por que assim o fazem? Responderam-lhe que não, senão que eram de sua própria natureza maus e cruéis. Ele então lhes disse: Não é só por isso, mas também porque têm um Deus que adoram. E, olhando junto de si uma cesta cheia de ouro e de joias, disse: Eis aqui o Deus dos espanhóis.
Outro episódio, envolvendo o mesmo Hatuey:
Este senhor e cacique fugia sempre aos espanhóis e se defendia contra eles toda vez que os encontrava. Por fim, foi preso com toda a sua gente e queimado vivo. E como estava atado ao tronco, um religioso de São Francisco (homem santo) lhe disse algumas cousas de Deus e de nossa Fé, que lhe pudessem ser úteis, no pequeno espaço de tempo que os carrascos lhe davam. Se ele quisesse crer no que lhe dizia, iria para o céu onde está a glória e o repouso eterno, e se não acreditasse iria para o inferno, a fim de ser perpetuamente atormentado. Esse cacique, após ter pensado algum tempo, perguntou ao religioso se os espanhóis iam para o céu; o religioso respondeu que sim, desde que fossem bons. O cacique disse incontinenti, sem mais pensar, que não queria absolutamente ir para o céu; queria ir para o inferno a fim de não se encontrar no lugar em que tal gente se encontrasse.
19.8.14
Diferença
Tudo de ruim feito em nome do que se defende: desvios. Tudo de ruim feito em nome do que se combate: inerências.
14.8.14
Fenômeno
Eu gostaria de chamar a atenção de vocês para um fenômeno peculiaríssimo, talvez nunca antes visto na história, o qual somente nós, com toda a clareza mental que nos é própria, poderíamos proporcionar:
No Brasil, ninguém faz um só ataque à Igreja Católica, sem que de imediato apareça um protestante para o refutar.
13.8.14
This here
Now we're about to play a new composition, by our pianist Bobby Timmons. This one is a jazz waltz, however it has all sorts of properties. It's simultaneously a shout and a chant, depending upon whether you know anything about the roots of church music, and all that kinda stuff — meaning soul church music — I don't mean, uh, Bach chorales and so, that's different. You know what I mean? This is SOUL, you know what I mean? You know what I mean? Allright.
7.8.14
Fases
Na Ilíada, os homens desabam mortos feito “árvores cortadas”. E no chão permanecem, segundo o Corão, como “troncos ocos”.
6.8.14
Afinidade
A única divergência que um grupo de pessoas não supera, hoje, é a divergência a respeito de que outros grupos se precisa rir.
5.8.14
Alfonso Reyes
Poeta e ensaísta de ampla cultura, o mexicano Alfonso Reyes (1889-1959) foi também diplomata, em função do que teve uma ligação muito estreita com o Brasil, mais especificamente com o Rio de Janeiro, onde viveu como embaixador durante a década de 30. Apesar de ter sido — diz-se — um dos grandes divulgadores da cultura brasileira no México, e ter sido interlocutor de alguns dos principais escritores brasileiros de então, como Manuel Bandeira e Cecília Meireles, a obra de Reyes é quase absolutamente desconhecida entre nós, salvo engano meu nunca tendo sido traduzida. Como calhei de achar um volume da Fondo de Cultura Económica com sua Obra poética, ficam aqui três poemas dele à guisa de apresentação.
COM A VERDADE SABIDA E BOA FÉ GUARDADA
Para ser sincero, não aguento ninguém,
e só junto ao mar é que respiro.
Aí lhes deixo meus trajes, o que chamam de “roupas
de ir à missa”,
minha coleção de cachimbos, de bengalas,
de canetas-tinteiros, de lâminas Gillette,
meu rádio, os telefones que funcionam,
o aluguel pago,
a luz, o gás, os livros, as visitas,
os vizinhos; deixo o automóvel;
tudo lhes deixo, em troca
de uma poltrona a estibordo
de onde cante o mar e bata o sol.
Logo me arranjarei: me deixem em paz.
Sei muito bem o que quero quando estou a sós.
Esqueçam-se de mim, que eu me entendo
enquanto deixam de pedir-me a alma
de empréstimo para isto e para aquilo.
Já estou farto!
Deixem-me dormido sobre o mar!
A VERDAD SABIDA Y BUENA FE GUARDADA
Para decir verdad, no aguanto a nadie,
y yo sólo respiro junto al mar.
Les dejo ahí mis trajes, lo que llaman "trapitos
de cristianar",
mi colección de pipas, de bastones,
de plumas-fuente, de láminas Gillette,
mi radio, los teléfonos en marcha,
el alquiler pagado,
la luz, el gas, los libros, las visitas,
los vecinos; les dejo el automóvil;
todo los dejo, a cambio
de una butaca al estribor
a donde cante el mar y pegue el sol.
Ya yo me arreglaré: déjenme en paz.
Sé muy bien lo que quiero cuando me quedo solo.
Olvídense de mí, que yo me entiendo
en cuanto dejan de pedirme el alma
prestada para esto y para estotro.
¡Y ya me tienem harto,
Y déjenme dormido sobre el mar!
*
DESCONCERTO DO POETA
Atônito, o poeta surgiu desde seus mares,
coberto de algas;
mas a fosforescência que levava nos olhos
não o deixava ver.
Como em seu reino aquático,
o ar lhe grumava a garganta,
e queria nadar pelo espaço,
aos tropeções.
A multidão o rodeou aos gritos,
e acreditou ensurdecer.
De ásperas grinaldas o coroaram,
e acreditou que lhe deitavam cadeias de louros,
cadeias nas têmporas, as piores cadeias,
pois já nada permitem compreender.
E disse à Sereia:
— Fujamos rapidamente para onde não nos vejam
(a Sereia era sua mulher);
voltemos às grutas de âmbar cristalino
e ao mar cor de vinho
que espairece ao amanhecer
quando, ao frescor, borbulha o peixe,
e me arranque estas tranças de louros
que me arranham a pele.
DESCONCIERTO DEL POETA
Atónito, el poeta surgió desde suas mares,
enredado de algas;
mas la fosforescencia que traía en los ojos
no lo dejaba ver.
Hecho a sua reino acuático,
el aire le agrumaba la garganta,
y quería nadar por el espacio,
dando sólo traspiés.
Lo rodeó la multitud a gritos,
y creyó ensordecer.
Lo coronaron de guirnaldas ásperas,
y creyó que le echaban cadenas de laurel,
cadenas en las sienes, las peores cadenas,
que ya nada dejan entender.
Y dijo a la Sirena:
— Huyamos prontamente a donde no nos vean
(la Sirena era su mujer);
tornemos a las grutas de ámbar cristalino
y al mar color de vino
que se solaza en los amaneceres
cuando, a la fresca, burbujea el pez,
y arráncame estas trenzas de laureles
que me arañan la piel.
*
SUICÍDIOS
A que triunfo, a que derrota
carregava a espingarda entre suspiros,
e apertando o gatilho com o dedo do pé,
cerimonial, entrava no suicídio?
Com que esperança, com que desesperança
pendurava da viga
o cacho de ossos e de carnes,
com um palmo de língua como único adeus?
Que alquimia diluída
de pó vermelho e taça fumegante
lançou em suas entranhas
as alígeras ondas da morte?
Honesto comerciante de Romeo:
tu lhe deste a beberagem;
tu a corda, baú do avô marinheiro;
saco dos esportes de verão,
tu a pólvora, tu a munição.
Tudo estava previsto, até o anzol
do insaciável deus que pesca as criaturas;
até a gargalhada com que se foi do mundo,
ó sacramento,
deixando-nos a burla de um fantoche,
para arrastá-lo em carro de triunfo, lentamente,
com mãos delirantes e coroas.
SUICIDIOS
¿Para qué triunfo, para qué derota
cargaba la escopeta entre suspiros,
y apretando el gatillo con el dedo del pie,
ceremonial, entraba en el suicidio?
¿A qué esperanza, a qué desesperanza
colgaba de la viga
los racimos de huesos y de carnes,
con um palmo de lengua como único adiós?
¿Qué alquimia diluída
de rojos polvos e humeante copa
echó por sus entrañas
las alígeras ondas de la muerte?
Honesto comerciante de Romeo:
tú le diste la pócima;
tú la cuerda, baúl del abuelo marino;
hato de los deportes veraniegos,
tú la pólvora, tú los perdigones.
Todo estava previsto, hasta el anzuelo
del insasiable dios que pesca las criaturas;
hasta la carcajada con que se fué del mundo,
oh sacramento,
dejándonos la burla de un pelele,
para arrastrarlo en carro de triunfo, lentamente,
con manos delirantes y coronas.
4.8.14
Encontro
O Ocidente nasce quando o povo que despreza os que não falam sua língua encontra o povo que despreza os que adoram outros deuses.
31.7.14
Sobra
Um dos argumentos de Jorge Luis Borges contra a “cor local” em literatura, a já famosa alegação de inexistência de camelos no Alcorão: — uma prova de que o Alcorão, livro árabe por excelência, foi realmente escrito por árabes: a completa ausência de camelos, os quais, se nele existissem, constituiriam indício de que o livro fora escrito antes por turistas querendo se passar por locais, ou falsários, ou nacionalistas. Uma observação que Borges afirma ter encontrado em Declínio e Queda do Império Romano, de Edward Gibbon, — muito embora eu duvide que este a tenha feito, uma vez que não apenas não falta camelo no Alcorão, como pode-se dizer que, em se tratando de um livro sobre o Dia do Juízo, até sobra.
30.7.14
“Igual a todos”
Também eu sou homem mortal, igual a todos,
filho do primeiro que a terra modelou,
cinzelado em carne, no ventre de uma mãe,
onde, por dez meses, no sangue me solidifiquei,
de viril semente e do prazer, companheiro do sono.
Ao nascer, também eu respirei o ar comum.
E, ao cair na terra que a todos recebe igualmente,
estreei minha voz chorando, igual a todos.
Criaram-me com mimo, entre cueiros.
Nenhum rei começou de outra maneira;
idêntica é a entrada de todos na vida, e a saída.
— Livro da Sabedoria, 7:1-6.
filho do primeiro que a terra modelou,
cinzelado em carne, no ventre de uma mãe,
onde, por dez meses, no sangue me solidifiquei,
de viril semente e do prazer, companheiro do sono.
Ao nascer, também eu respirei o ar comum.
E, ao cair na terra que a todos recebe igualmente,
estreei minha voz chorando, igual a todos.
Criaram-me com mimo, entre cueiros.
Nenhum rei começou de outra maneira;
idêntica é a entrada de todos na vida, e a saída.
— Livro da Sabedoria, 7:1-6.
Ordem
Eu sinceramente já não sei até que ponto uma ordem tão inconveniente a parcela tão majoritária da população vale mais do que a desordem. Quer dizer, a desordem incomoda quem não é incomodado pela ordem. Mas há muito mais gente a quem a mera ordem é um estorvo. E aqui me lembro da admiração de Montaigne ante o raciocínio dos tupinambás, os quais, ao verem na França tantos miseráveis vivendo ao pé de palácios, se espantaram de que aceitassem aquela condição e não se juntassem e ateassem fogo na propriedade daqueles que não se dispunham a compartilhar o que tinham.
27.7.14
E agora mais outra
Com a contribuição das redes sociais, as incoerências se tornaram para nós, de uma hora para outra, o que são os peixes naqueles trechos de rio em que, de tão numerosos, podem ser apanhados com a mão, quase às cegas; aqueles peixes que, durante a época de reprodução, pulam eles mesmos nos colos dos pescadores, que só precisam ficar ali, parados, com uma rede estendida. De repente vimos que todo mundo diz uma coisa e faz outra; todo mundo é incondicionalmente brando com as causas com que simpatiza e incondicionalmente severo com as de que não gosta; todo mundo busca justificar os erros a favor, enquanto condena sem negociação os equívocos contrários; todo mundo abomina a violência contra os seus, mas acha compreensível a própria violência contra os outros; todo mundo só enxerga o seu lado, enquanto acusa os outros de só enxergarem o deles... Numa tal proporção que, atônitos, sem saber o que fazer, ainda só conseguimos apontá-las: — Mais uma incoerência aqui! E agora mais outra!
26.7.14
Basta fazer
Número considerável de problemas começa quando já não basta fazer — seja o que for. Além de fazer, é preciso agora que todos saibam que se fez. E não só que todos saibam que se fez, mas que não se escandalizem ao saber. E não só não se escandalizem ao saber, mas que antes o aprovem, e que o achem bonito, e que o queiram pros filhos...
Dois pesos
O partidário encontra sempre atenuantes. O “não é bem o que parece” inaceitável é só o dos outros.
23.7.14
Uma sombra
Do Livro da Sabedoria, deuterocanônico também chamado Sabedoria de Salomão:
Como o navio que singra as águas ondulosasOu, como o mesmo autor resume em uma única frase: “A vida é a passagem de uma sombra.”
sem deixar rastro de sua travessia
nem, nas ondas, a esteira de sua quilha;
ou como o pássaro que voa pelos ares
sem deixar vestígios de seu curso —
o leve ar, fustigado pelas penas,
fendido pelo vigoroso silvo,
é aberto em estrada pelas asas,
sem que se veja sinal algum de sua rota;
ou como a flecha disparada para o alvo —
cicatriza num instante o ar ferido,
ignorando-se o rumo que tomou;
assim conosco: mal nascemos, já deixamos de existir.
A surpresa
Contar o episódio me lembra que não sei o nome dele e que preciso um dia parar e perguntar. Mas o senhor que passa os dias numa das esquinas próximas aqui de casa, ora sentado sobre a base da bomba de gasolina de um lado da rua, ora numa cadeira dentro do canteiro destratado que fica no lado oposto — sempre observando os transeuntes, quando não está cochilando —, esse sujeito, cujo nome acabo de lembrar que não sei, deu de me cumprimentar todas as vezes que me via. Chegou a se tornar um hábito. Já atravesso a rua o procurando para o bom-dia ou boa-tarde do costume. E estávamos nisso havia um tempinho, até que outro dia aconteceu de eu passar pouco depois de lhe terem pago um lanche. Ia me preparando para o alô protocolar, de todas as vezes, quando veio a surpresa: “Está servido?”
11.7.14
O radicalismo como preguiça
Uma das reações mais tipicamente brasileiras a grandes problemas é a exigência por reset. É tão funda a marca de uma colonização desastrosa, suponho, que a reconstrução a partir do zero é fundamento para a solução retórica de tudo. Enquanto não pormos abaixo as coisas como elas são, e as recomeçarmos agora da forma correta, não tem jeito, vai ser sempre mais do mesmo. Mas com uma particularidade. Diferentemente de outros povos, o brasileiro só projeta o drástico, que é pra se dispensar do simples; só exige o inviável, que é pra não se ocupar do possível. Enquanto não puderem mudar rigorosamente todas as coisas, então que não se mexa por alto em nenhuma. Estão fartos de paliativos: agora, nada menos que a efetiva resolução dos problemas, muito mais profundos. Ou tudo, ou nada — em poucas palavras. E optam por nada.
9.7.14
A culpa
Scolari preferiu afundar a barca toda, ver o time inteiro humilhado ao fim do primeiro tempo, a admitir prontamente seu equívoco e a consertá-lo o quanto antes, ainda no início da primeira etapa, com a mera substituição de um ou dois jogadores, que então se tornariam os bodes expiatórios da derrota, em todo caso bem menos vexatória do que foi: se não me engano, foram 5 gols em 30 minutos de jogo, dos quais 3 gols ocorreram num intervalo de 10 minutos, o time desbaratado, sem meio-campo..., — 3 gols que a saída de Bernard sozinha facilmente evitaria. Um Louis van Gaal, por exemplo, e como tivemos ocasião de ver, não pensaria duas vezes em pôr quem quer que fosse na berlinda pra salvar um resultado. Scolari preferiu, porém, com a omissão, não comprometer ninguém, nem a si mesmo. Sem as substituições que qualquer técnico digno do nome teria feito, ele buscou eximir todo mundo de culpa (as alterações seriam uma espécie de confissão assinada, dele e dos substituídos), jogando a catástrofe no colo do imponderável. De uma covardia indigna da posição.
7.7.14
Ishikawa
Três tankas de Takuboku Ishikawa, importante poeta japonês da virada do século XIX pro XX, morto aos 27 anos por tuberculose — teve apenas dez anos de produção poética —, na tradução conjunta de Masuo Yamaki e Paulo Colina, publicada em 86 pela Roswitha Kempf Editores. Como referi, trata-se de tankas — forma tradicional feita de cinco versos de 5-7-5-7-7 sílabas cada. Agora, não me perguntem por que são apresentados como tankas, se têm o formato, tanto no original japonês reproduzido no livro quanto na versão portuguesa, do haikai, composto sabidamente por apenas três versos. Desconfio que tenha que ver com a natureza subjetiva do assunto etc., mas é chute.
fumaça que se desfaz no céu azul,
fumaça que se desfaz melancolicamente:
meu espelho
*
morressem todos os que me humilharam,
ainda que por uma só vez:
essa a minha prece
*
minha cabeça parece um barranco
em que a terra, dia a dia,
desmorona, tristemente
Reduzidos
Gosto de imaginar que o sentido de redução, em português, mudou por consequência dos esforços de quem mais a praticava. Me explico. Até o século XVIII, reduzir era prioritariamente, conforme Bluteau e Moraes, numa acepção ainda próxima à do étimo latino, — reconduzir, redirecionar, ou mesmo trazer de volta, restabelecer. De onde seu amplo uso no discurso religioso de então. Segundo Vieira, por exemplo, a missão dos jesuítas no Brasil era “reduzir os índios à fé”, ou seja, reencaminhá-los a Deus, recolocá-los no caminho da salvação, dirigi-los para dentro da igreja. E tão eficazmente os reduziram, que não nos restou outra opção além de atualizar seu significado, que já não passa para nós da mais pura diminuição.
5.7.14
O fazedor de silêncio
Um estilo bastante peculiar, o de Antonio Di Benedetto, fundamentado num verdadeiro horror ao lugar-comum, se bem que de natureza bem distinta ao de um Guimarães Rosa: não há espetacularidade alguma em suas frases, todas discretas, nem mesmo neologismos para além do que dá título ao livro, — frases no entanto sempre novas, inesperadas em seu rigor, precisão e exigência. Juan José Saer chega a dizer que Di Benedetto é dono de uma das dicções mais originais do século XX, juízo que, por exagerado que pareça, não é de todo injustificado. Frases discretas, sem qualquer espalhafato, eu dizia, como era de se esperar de um narrador que abominasse as interferências do ruído. Porque é precisamente disso que se trata: da saga de um homem que foge ao tormento causado pelo barulho que então começava a se tornar onipresente, no pós-guerra, por meio de fábricas, oficinas, rádios, alto-falantes... Melhor: da resistência fracassada ao barulho como metáfora de tudo quanto se impõe ao indivíduo e o impede de ser.
3.7.14
Dor
A primeira seleção a que eu assisti, em Copa, tinha ninguém menos que o Romário no comando do ataque. As seguintes, tiveram o Ronaldo, depois o Adriano. Que dor no coração estar vivo pra ver Jô substituindo Fred. (Agora, é verdade que, entre Ronaldo e Fred, contamos com Luís Fabiano, etapa de uma descensão tão regular que inclusive nos permite o vislumbre do que nos aguarda em 2018.)
Estratégia
Agora que perdeu a hegemonia do meio editorial, e já circula no Brasil um número considerável de autores conservadores e liberais dos quais nunca antes se tinha ouvido falar, parte dos esforços da militância esquerdista tem migrado para as livrarias, — uma vez que, se já não conseguem impedir que sejam publicados, que ao menos impeçam de serem vendidos, desencorajando à boca do caixa o máximo possível de clientes. A estratégia por enquanto vai despercebida. Mas é de se esperar o dia em que, descoberta, receberá também sua denúncia, quando então veremos a livre associação de pessoas interessadas na saúde intelectual da população brasileira, em iniciativas presumivelmente intituladas “Meu livreiro mentiu pra mim”, “Livraria sem partido”...
26.6.14
“To disengage myself from those corpses of me”
O LIVING ALWAYS, ALWAYS DYING
O living always, always dying!
O the burials of me past and present,
O me while I stride ahead, material, visible, imperious as ever;
O me, what I was for years, now dead, (I lament not, I am content;)
O to disengage myself from those corpses of me, which I turn and look at where I cast them,
To pass on, (O living! always living!) and leave the corpses behind.
(Walt Whitman)
O living always, always dying!
O the burials of me past and present,
O me while I stride ahead, material, visible, imperious as ever;
O me, what I was for years, now dead, (I lament not, I am content;)
O to disengage myself from those corpses of me, which I turn and look at where I cast them,
To pass on, (O living! always living!) and leave the corpses behind.
(Walt Whitman)
23.6.14
O lirismo
O lirismo é uma tentativa de fazer face a essa situação: o homem expulso da redoma protetora da infância deseja entrar no mundo, mas ao mesmo tempo, porque tem medo deste mundo, modela a partir de seus próprios versos um mundo artificial e de substituição. Faz girar ao seu redor os seus poemas como planetas ao redor do sol; torna-se o centro de um pequeno universo onde nada é estranho, onde sente-se em casa como a criança dentro da mãe, porque aqui tudo é moldado pela única substância de sua alma. Aqui ele pode depois terminar tudo o que é tão difícil fora; aqui ele pode, como o estudante Wolker, marchar com a multidão de proletários para fazer a revolução e, como o rapazola Rimbaud, remexer as suas pequenas apaixonadas, porque essa multidão e essas apaixonadas não são moldadas pela substância hostil de um mundo estranho, mas pela substância de seus próprios sonhos, são portanto ele mesmo e só rompem a unidade do universo que ele construiu para si mesmo.
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