7.5.13
4.5.13
Leitura crítica
O sujeito lê nas Escrituras: “Abre tua boca em favor dos mudos”, e, considerando a difusão da língua de sinais, pensa de imediato em defasagem.
Imprevisto
Os reformadores, se puderam sonhar com uma Bíblia na mão de cada crente, foi porque ainda não havia o Brasil nem os brasileiros.
3.5.13
Kaputt
Umas cinquenta páginas de Kaputt, de Curzio Malaparte — um Marcel Proust para homens, diria um Graciliano —, e o sujeito que se comove com uma égua morta e com o metal retorcido das máquinas de guerra deixadas pelo caminho, é o que menciona com frieza, se não com indiferença, pelo que passam os judeus, mais preocupado com esquadrinhar as motivações alemãs que com lamentá-las.
1.5.13
Troféu
Os de direita sempre viram no Caetano um desmiolado, desses cuja opinião não se leva em conta, representante máximo daquilo que gostam da chamar pseudointelectualidade. Jamais lhe admitiram qualquer mérito, tomando antes seu prestígio como prova de insalubridade nacional. Até que de repente aquele mesmo Caetano — parceiro do ainda mais desconexo Gilberto Gil, autor de velhas e novas letras sem pé nem cabeça, dono de preferências literárias das mais duvidosas e juízos invariavelmente enviesados —, se apresenta, nessa ou naquela questão, quase como um deles. Que fazem, então, os detratores, para quem nunca foi mais que motivo de piada? Enrubescem? — Brandem-no como troféu.
29.4.13
Fases
A melhor fase do meu corte de cabelo não dura mais que uns poucos dias antes do início da pior.
25.4.13
Amizade
Dois motoristas emparelham os ônibus que dirigem e, abrindo o da esquerda a porta dianteira e o da direita a janela, rápido passam a uma longa série de xingamentos, dos mais ostensivos, após a qual fecham a porta e o vidro e partem satisfeitos com o reencontro, cada qual com seu sorriso.
23.4.13
Dinâmica arbitral
Um ou dois anos atrás — o Barcelona no auge, ainda “o maior time da história” —, três dos quatro gols do Bayern (justo os três primeiros) seriam com toda certeza impugnados pelo juiz, estivesse acontecendo o jogo onde estivesse. Com toda a certeza veríamos marcados a carga de Dante sobre Daniel Alves, o impedimento de Mario Gómez e a falta de Müller sobre Jordi Alba, responsável por Robben. Mas, hoje, com um Barça rateando, sem brilho, e um Messi sem condições de dar show, num jogo na Alemanha...
20.4.13
Oposição
A oposição no Flamengo: “Eles prometeram cortar gastos; e no entanto vão pagando tudo quanto devem. Onde já se viu?...”
Genealogia
Havia no Japão algo muito vário chamado genericamente de jiu-jitsu, — a partir do que Jigoro Kano concebe o judô, — a partir do qual os Gracie, por sua vez, desenvolvem o jiu-jitsu. De modo que, sim, é verdade que o judô veio do jiu-jitsu. Tanto quanto o jiu-jitsu veio do judô.
Drama
Se a coisa a respeito de que mais se é obrigado a pensar durante um curso de Letras é sobre o porquê de afinal ensinar-se língua portuguesa (essa superfluidade), em que aflições não viverá um licenciando em Química?...
12.4.13
9.4.13
Frustração
Uma das muitas frustrações que boa parte de meus professores me proporciona é a de não ser mímico.
5.4.13
3.4.13
Amanho
No Brasil, uma das formas de minimizar certos inconvenientes tem sido, por incrível que pareça, a de amplificá-los, dando ares de escandalosa exceção ao que se sabe mais frequente do que se gostaria. “Estamos chocados. Nunca vimos coisa parecida.” — dizem agora por nada nossos delegados, feito virgens.
Homonímia
Eu até sabia da existência na Europa de outra Galícia além da região espanhola bem ao norte de Portugal, em algum lugar dividido atualmente entre a Ucrânia e a Polônia. Mas que tenha havido (ou haja) outra Ibéria além da que avança sobre o Atlântico, na região do Cáucaso em que hoje é a Georgia, assim chamada pelos gregos desde a Antiguidade (e causa de confusão durante a Idade Média, graças aos que pretendiam deduzir dessa igualdade — até o presente não muito bem esclarecida — de nomes algum parentesco entre esses povos em tudo tão distantes), foi um susto.
1.4.13
Cantos indecisos
V
Neste mundo, durante a nossa vida,
Todos nós esperamos, sempre em vão.
Sempre uma luz nos olhos acendida,
Em volta, sempre a mesma escuridão.
Sempre à vista da terra prometida,
Há de morrer o nosso coração.
E assim foi, desde a mais antiga idade,
E assim será, por toda a Eternidade.
XXX
Em tudo o que julgamos ser mentira,
Vive a presença oculta da Verdade.
Num coração amante, que delira,
Num astro, numa flor, numa saudade,
Naquele infindo sonho que me inspira,
Transluz inextinguível claridade.
Não há visão quimérica e ilusória,
Nem há vida que seja transitória.
XXXV
O poeta é um pobre doido, errando, sempre além.
Deste mundo, a cantar, em vida, se desterra.
Anjo de Satanás, anjo de Deus, que tem,
Na alma toda a luz, no corpo toda a terra.
— Teixeira de Pascoaes, Cantos indecisos, 1921.
Neste mundo, durante a nossa vida,
Todos nós esperamos, sempre em vão.
Sempre uma luz nos olhos acendida,
Em volta, sempre a mesma escuridão.
Sempre à vista da terra prometida,
Há de morrer o nosso coração.
E assim foi, desde a mais antiga idade,
E assim será, por toda a Eternidade.
XXX
Em tudo o que julgamos ser mentira,
Vive a presença oculta da Verdade.
Num coração amante, que delira,
Num astro, numa flor, numa saudade,
Naquele infindo sonho que me inspira,
Transluz inextinguível claridade.
Não há visão quimérica e ilusória,
Nem há vida que seja transitória.
XXXV
O poeta é um pobre doido, errando, sempre além.
Deste mundo, a cantar, em vida, se desterra.
Anjo de Satanás, anjo de Deus, que tem,
Na alma toda a luz, no corpo toda a terra.
— Teixeira de Pascoaes, Cantos indecisos, 1921.
27.3.13
24.3.13
22.3.13
“A origem de todos os poemas”
2
[...]
Have you reckon’d a thousand acres much? have you reckon’d the earth much?
Have you practis’d so long to learn to read?
Have you felt so proud to get at the meaning of poems?
Stop this day and night with me and you shall possess the origin of all poems,
You shall possess the good of the earth and sun, (there are millions of suns left,)
— Whitman, em “Song of Myself”, de Leaves of Grass, 1855.
[...]
Have you reckon’d a thousand acres much? have you reckon’d the earth much?
Have you practis’d so long to learn to read?
Have you felt so proud to get at the meaning of poems?
Stop this day and night with me and you shall possess the origin of all poems,
You shall possess the good of the earth and sun, (there are millions of suns left,)
You shall no longer take things at second or third hand, nor look through the eyes of the dead, feed
on the spectres in books,
You shall not look through my eyes either, nor take things from me,
You shall listen to all sides and filter them from yourself. — Whitman, em “Song of Myself”, de Leaves of Grass, 1855.
14.3.13
13.3.13
Ideia
— Senhores, é mais do que hora de voltarmos a ter um papa italiano.
— Certo. Mas como, se a expectativa é por um da América Latina?
— Deixem comigo. Tenho aqui uma ideia...
— Certo. Mas como, se a expectativa é por um da América Latina?
— Deixem comigo. Tenho aqui uma ideia...
6.3.13
Graças
Toma-se conhecimento das crises de um Marrocos (pobre país africano a meio metro da Europa), e a primeira coisa que se dá é graças pela largura do Atlântico.
4.3.13
26.2.13
19.2.13
Ansiedade
Terminada a tão proveitosa leitura de um volume sobre a interpretação dos sonhos, nunca mais dormiu.
14.2.13
10.2.13
Carnaval
Como ouvisse que se aproximavam os dias de passar-se autorizadamente pelo que durante o ano menos lhe convinha, decidiu-se pela fantasia de si mesmo.
Problema
O cônjuge aparece como a solução de todos os problemas, indo se despedir como o maior deles.
Ainda piores
Só uma coisa é capaz de rebaixar ainda mais a imagem dos tele-evangelistas, e é imaginá-los sinceros.
9.2.13
Al-Hikam
Do Kitab al-Hikam, famosa coleção de aforismos de Ibn Ata’illah al-Iskandari, sufi egípcio do século XIII, aqui a partir de uma tradução para o inglês:
Lança tua existência na terra da obscuridade, porquanto não floresce a semente que germina sem ter sido semeada.Entre os sinais de um fim bem sucedido está o voltar-se para Deus ainda no início.
O melhor que se pode pedir a Deus é o que Ele nos pede.
Os presentes dos homens são privações. Mas Deus galardoa até quando tira.
Nenhuma ação de uma pessoa generosa é inútil. Nem frutifica a de nenhum avaro.
Se te acompanha alguém pior do que tu, acabas por julgar-te melhor do que és.
Ante Sua justiça, nenhuma falta é mínima. Nem grande, ante Sua misericórdia.
Ele às vezes dá enquanto tira, às vezes tira enquanto dá.Não fossem as sementes da ambição, não eram tão bastos os ramos da desgraça.Quando Ele dá a compreender a privação, esta se iguala à fortuna.Se queres uma glória imperecível, gloria-te no que não perece.Que seja pequeno o número das coisas que te alegram, para ser ainda menor o das que te entristecem.
7.2.13
6.2.13
Esclarecimento
Não é que o Neymar seja uma fraude. É que ainda lhe falta o hábito de enfrentar zagueiros.
Os três elementos da lírica
A lírica tem por objeto a imitação de estados de ânimo, através de um discurso organizado de maneira especial, e, por finalidade última, determinado conhecimento de verdades humanas universais. Aí estão os três elementos da imitação lírica: objeto, medium e fim. Estes elementos podem ser mal concebidos e mal operados em sua essência. Assim, se o poeta se enganar sobre o objeto, o poema, disposto como lírico, poderá resultar desproporcionalmente “épico” ou “dramático”; se, como unidade, não se tratar de um poema misto, a consequência estética será negativa; se o engano for quanto à natureza do medium ou veículo, haverá insuficiência de expressão; o poema será defeituosamente articulado; se o erro atingir a natureza do fim, em vez de verdades poéticas, teremos o vício do didatismo, ou então a supressão da força cognitiva do literário. Estes erros podem afetar a criação (erros do poeta) ou a leitura (erros do leitor e do crítico). [...] Os elementos do processo lírico podem ser confundidos não em sua essência, mas uns com os outros; se se confundir o medium com o objeto, o poema cairá no puro verbalismo, seja ele acadêmico ou de (pseudo) vanguarda; se o fim for tomado por objeto, o poema, dedicado à pintura de universalidades abstratas, será o oposto da astúcia da mímese, da figuração do universal no e pelo singular; será produto do que se deveria chamar “mímese ingênua”, o pecado que Allen Tate classifica como “angelismo”. Finalmente, o processo de mímese lírica pode ser todo ele confundido com um de seus elementos: é o caso de confusão da lírica com seu objeto; pela extensão da identificação deste com os estados de ânimo a um império generalizado do emotivo, encarado também como fim e veículo da poesia, o poema se diluirá em versalhada sentimental, isenta de energia intelectual, desprovida de qualquer insight sobre a experiência, e (paradoxo apenas aparente) do próprio poder de emocionar. Já Lessing dizia da lírica de Klopstock que era “tão cheia de sentimento, que, ao lê-la, com frequência não se sente nada”. Esta última confusão criada pelo baixo romantismo, e dotada de uma persistência daninha, é a seu modo uma sinédoque, uma pars pro toto: toma-se um elemento do processo lírico pela sua totalidade.
MERQUIOR, José Guilherme. A astúcia da mímese: ensaios sobre lírica. 2ª ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 1997. p. 28-29.
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